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Entrevista: «Se não fosse a Cultura o que seria das pessoas em tempos de confinamento», diz a realizadora Ana Rocha de Sousa

Numa conversa depois da projeção de duas das suas curtas-metragens “No Mar” e “Laundriness”) no Lisbon & Sintra Film Festival (LEFFEST), Ana Rocha de Sousa sublinha que quer dar voz a quem não a tenha para expor problemas escondidos, fala de aspetos mais pessoais e não esquece que as medidas contra a pandemia “estão a destruir” a Cultura.

“Listen”, a sua primeira longa-metragem, ganhou vários prémios no Festival de Veneza e desbravou caminho para si enquanto realizadora. Que sonhos e projetos percebeu que podem ser concretizados a partir dali?

Ainda não percebi… Os meus sonhos não mudaram por causa disso, mantêm-se e já eram grandes. A dificuldades às vezes é percebermos exatamente qual será o caminho. O primeiro passo bom é sonhar e saber onde se quer chegar. Depois é ir tentando os planos A, B, C, D até chegar ao Z ou zzzzzzz para conseguir concretizar. Creio que, para muitas pessoas, isto surge assim de uma forma muito do género de chegar, ver e vencer e não, não é. É um caminho que levou tempo, e que está a levar tempo, o tempo que tem de levar, para mim não é muito nem é pouco, não sei… Estou muito grata ao facto de sentir que estou a chegar, que vou chegando e sim, estou muito grata por esta primeira longa ser recebida assim. Durante muito tempo, sonha-se com conseguir fazer o que se quer fazer e ter a certeza que se vai dar tudo para se conseguir. Mas daí até sabermos que vai acontecer em algum momento vai um passo muito, muito grande. Por mais que tenha sonhado, não esperava que fosse possível. E isto parece um contra-senso, mas é absolutamente verdadeiro e honesto.

É mais gratificante o papel de realizadora ou aquele que teve durante muito tempo como atriz?

Ah, sem dúvida nenhuma que é a realização! Porque através da realização eu consigo continuar a ser atriz, mesmo não aparecendo [sorriso]… E é isto que, às vezes, é difícil algumas pessoas perceberem. Primeiro, sinto uma coisa que é das coisas que mais gosto na realização: isto de pensar as personagens de raiz, eu penso naturalmente nas personagens que eu, Ana, gostaria de representar enquanto atriz. E ter esse papel na mão e dá-lo a um ator, dizendo-lhe ‘Olha, isto é para ti’, é das coisas que mais gosto naquilo que faço. Estando do outro lado, esperei uma vida por isso e nunca tive. Apesar de ter muitos papéis, nunca vivi isso de ‘Olha, escrevi este papel para ti, este papel encaixa na perfeição em ti.’ Não, é ‘Olha, temos aqui um papel…’ As personagens que fiz foram sempre assim. E está tudo certo, mas é uma perspetiva diferente. Quando escrevo, por exemplo, a personagem do Ruben, o Jota, aquilo foi escrito para ele. Ele já vinha do “No Mar [curta-metragem de Ana Rocha de Sousa, realizada quando era ainda estudante na London Film School], quando veio para integrar esse projeto já foi muito pensado nele, embora o filme não tenha sido escrito por mim. É dar ao outro aquilo que nós gostávamos, mas não nos foi dado. E por isso gostava que todos os atores que entrem nos meus filmes soubessem isso e tivessem sempre isso presente – seja um papel mais pequeno ou não, existe profundo amor por aquela personagem estar no filme.

Acredita que é uma realizadora diferente por causa da sua passagem por Belas-Artes?

Penso que é isso que faz com que eu não seja uma atriz a realizar. As Belas-Artes, aquilo que trazem, é isso: essa questão inequívoca de eu não ser uma atriz atrás da câmara também sendo. O facto de ter sido atriz e de ter essa vivência é aquilo que me vai, ao longo do tempo, distinguir de alguém. Não de toda a gente, porque muitos realizadores no mundo também foram atores, mas de alguma forma essa diferença é grande. Ter estado à frente da câmara, seja ela qual for, até podia ter estado uma vida inteira a fazer teatro amador, onde nem sequer há câmara, mas existe um trabalho de interpretação e só essa experiência já me ia levar para um campo diferente porque é inevitável. E é algo de tão íntimo, verdadeiro e próprio…

Talvez o teatro aí também tenha ajudado…

Não sei, penso que a importância do teatro na minha vida está mais relacionada com tudo o que aprendi durante a adolescência ao ser guiada pelo António Feio no grupo de teatro amador e até na convivência com o grupo que ali se construiu e do qual saíram o Nuno Lopes, o Duarte Guimarães, a Carla Chambel, a Sara Gonçalves, o Edmundo Rosa… Muita gente! Não é por acaso…

Claro que há o talento, mas é preciso que este seja guiado…

Claro, existe uma mão, existia ali uma mão muito bonita do António, ele era também uma pessoa de pessoas. E tinha essa ligação, essa verdade. Era quase um familiar nosso, dizia muitas vezes quando se zangava – e zangava-se porque éramos putos parvos. E de repente estar a gerir uma cambada de putos que gostam imenso daquilo, mas são putos, é preciso ter muito estofo e muita paciência para lidar connosco. Até os momentos em que se zangava connosco eram de amor. Era bem explícito e lembrava-nos que certamente não era pelo valor que ali ganhava que lá estava. Nunca fez aquilo por dinheiro, não havia a menor possibilidade de isso acontecer, porque o que pagávamos ali era quase irrisório, aquilo era um projeto de solidariedade do António, era a presença dele todas as terças e quintas e existia um grupo… Eu aprendi muito, mas podia ser um grupo onde o contexto até fosse outro, porque ali aprendemos muito em termos humanos e são coisas que só muitos anos depois sabemos e percebemos.

Para usar a sua expressão, “uma pessoa de pessoas” sofre mais?

Sim, definitivamente.

Interioriza também o sofrimento dos outros e anda no interior uma outra força a mexer?

Definitivamente. E é um bocadinho aquela frase feita de que a sensibilidade é, ao mesmo tempo, uma dádiva e uma maldição. Às vezes também faz com que a pessoa tenha de se proteger. Qualquer realizador deve ter uma sensibilidade grande, de outra forma devia estar a coser meias. Ser realizador sem sensibilidade não estou a ver bem como… Mas sei que há e há quem consiga até durante um tempo enganar muita gente.

“No Dia dos Meus Anos”, em 1992, é a sua estreia, tendo o João Botelho como realizador: o que lhe trouxe essa primeira participação?

Olhe, o meu irmão, no outro dia, disse uma coisa com muita graça: ‘Acho que não tens noção, mas há coisas no teu filme que me fizeram lembrar, há não sei quantos anos, aquele primeiro momento em que me sentei no King para ver o primeiro filme em que entravas.’ Fiquei estupefacta a olhar para ele e perguntei: ‘Como assim?’ ‘É verdade, há coisas que nem sabes que foste ou vais beber daí, mas estão lá.’ Enfim, o meu irmão fez essa associação. Eu não a faço. Aquilo de que me lembro e que é importante para mim hoje e foi-o para o ‘Listen’ foi estar de frente com um adolescente muito, muito tímido, ter de o dirigir e lembrar-me do que é ter aquela idade, já ser muito mais consciente do que uma criança, ter a consciência de ‘eu querer fazer certo’. É das perguntas mais diferentes que me fizeram até hoje e agradeço imenso por isso, porque as perguntas têm tendência para ser muito iguais… O que é que ficou dessa altura? Primeiro, era quase uma figuração especial, três cenas que fiz e aquilo para mim teve uma dimensão, muito, muito grande, era quase como se fosse protagonista do filme – esta frase não pode ser escrita assim, não pode ser dita assim, tenho toda a consciência de que era uma figuração especial e a única graça que tem é que é efetivamente a primeira vez em que estou a concretizar o meu sonho. Sou uma menina em frente a uma equipa e penso assim: ‘Meu Deus!’ Lembro-me do dia em que saí da escola mais cedo porque ia filmar numa zona do Lumiar, muito perto da casa onde vivia em Telheiras, e tinha uma cena muito simples em que vinha com a minha amiga (fazia de melhor amiga da protagonista) a andar, eu atirava uma mochila ao ar e ela tinha de cair num determinado sítio… eu tinha de agarrar a mochila, assim é que é, tinha de a atirar ao ar, falava com ela e lembro-me de tudo isto ser uma enorme dificuldade. Lembro-me do medo de estar a falhar aos outros que apostaram em mim. Sempre fui muito assim de ‘como é que é bem feito? Eu faço, só tenho de saber como é’. E tive essa angústia durante o tempo todo e saí de lá…

E ainda tem essa angústia como realizadora?

É diferente. Tive de garantir que não ia sentir nunca essa angústia e ganhava essa consciência de: ‘Não, não, eu sei o que estou a fazer.’ Eu fui aprendendo. E por isso não me meti a fazer certas coisas… Sim, experimentei de forma inconsciente e quando percebo que é exatamente isto, calma lá – então vamos fazer isto como gente crescida, não vamos entrar aqui por ruas paralelas a atalhar caminho e vai correr mal. Vamos aprender a sério, para fazer mesmo com a convicção de que é o teu melhor. E, por mais que as pessoas possam gostar ou não gostar, porque também acontece… Felizmente o feedback que tenho tido é muito, mas mesmo muito positivo, mas no meio não se pode agradar ao mundo.

A London Film School deu-lhe isso também, aprender como se faz?

Não foi só. É um caminho que… lá está não basta pagar as propinas e ir, é sem dúvida o sítio certo para gente disponível aprender, está lá tudo à disposição. Está lá tudo: para se aprender, para se crescer, para se errar, para tudo. Mas também há muita gente que sai de lá e acaba por não fazer nada com o que aprendeu. E há muita gente que sai de lá a fazer coisas incríveis. E é um sítio, como Belas-Artes em Lisboa, que nós levamos. É impossível viver verdadeiramente estes cursos e formações, só se forem vividas da forma certa… E agradeço ter vivido numa fase diferente – em Belas-Artes, se tivesse vivido só naquele tempo dos cinco anos pré-destinados, teria sido diferente. Não, eu passei dez anos em Belas-Artes, porque não conseguia fazer as aulas no ritmo normal, portanto tive de dividir cada ano em dois. Cinco passaram a dez e foi a melhor coisa que me aconteceu! Porque cresci com as Belas-Artes. Tenho quase tanto tempo de Belas-Artes quanto tive de – bem, neste caso são 17 anos de escola, é quase o dobro -, mas dez anos em Belas-Artes é verdadeiramente muito tempo a passar, a crescer e a evoluir. E penso que estes cursos deveriam ter este tempo, sendo cada ano mais leve para permitir esse crescimento. Esses dez anos tiveram muita importância e, quando chego
à London Film School, já venho com esses dez anos de Belas- Artes e doze de televisão e tenho essa sorte. Porque é também uma oportunidade que me foi dada. Sou muito grata à televisão, às Belas-Artes e à London Film School.

Mas a televisão, que lhe deu oportunidades [as séries Riscos e Morangos com Açúcar], também criou condições para que passasse por uma fase de intrusão da sua vida privada com gente a tentar fotografá-la às escondidas. A esta distância, consegue entender isso?

Até hoje tenho dificuldade em perceber por que razão isso me aconteceu. Eu estive muito presente na televisão, tive a sorte de fazer papéis com protagonismo, mas nunca era a protagonista exclusiva. E foi muito estranho, durante muitos anos, o facto de aquelas situações me acontecerem – não me escolhiam para o cinema, mas andava constantemente estampada nas revistas cor de rosa. E com coisas que, quem me conhece, achava aquilo inacreditável! Mas tenho tendência para equívocos assim, existem equívocos na minha vida, embora eu ache que a vida faz sempre alguma coisa por nós. E esses equívocos levam-nos sempre a qualquer lado melhor. Hoje acho que não foi por acaso que isso me aconteceu, se não me tivesse acontecido…

Se calhar não ia para Londres…

Se calhar não teria ido para Londres e, se calhar, ao ir… Há sempre aqui um momento que é da noite para o dia e até estar naquela noite em Veneza, a receber aqueles prémios, acima de tudo os mais importantes, até aí eu tinha voltado a ser a menina do filme do João Botelho, no sentido em que era só uma miúda no mundo. Estava a fazer as minhas coisas, a dar o meu melhor e, de repente, no dia seguinte… Faço muito o paralelismo para o dia em que faço o filme do João Botelho por ser o início de um caminho. Era muito nova, mas já tinha um sonho antigo, desde muito pequenina via muito cinema com os meus pais e via muitas séries e tinha mesmo essa vontade, eu queria mesmo ser atriz e nunca quis outra coisa. E não era pelas razões erradas, era mesmo pelas razões todas certas, mas tenho estes equívocos às vezes de parecer uma coisa que na realidade não sou. E isso tem-me acompanhado ao longo da vida e acabam sempre por nos trazer coisas e nos fazer aprender. Se não tivesse passado por ter gente atrás disto ou daquilo para me fotografar se calhar não tinha vivido este boom todo que aconteceu agora de repente da mesma forma. E teria talvez sido muito assustador… E não foi – pelo contrário, é muito bonito e agora quero voltar ao meu trabalho.

Tem dito que o tema da retirada de crianças aos pais no Reino Unido que apresenta em “Listen” é incómodo e afirma-se pronta para incomodar mais vezes: há planos para abordar questões como o racismo, a xenofobia, a violência doméstica, entre outros, em próximos trabalhos?

Isso sem dúvida. Tenho muito interesse pelos temas sociais e uma coisa que o “Listen” trouxe e já vinha é essa ligação à dureza da realidade. E entender verdadeiramente o poder do cinema para tentar fazer alguma coisa pelas pessoas, pelos outros. Não é que eu pretenda ser a melhor pessoa do mundo ou passar essa imagem de boa samaritana. Tem sido uma descoberta, perceber que isto pode ser mais do que apenas fazer uma coisa de que gosto. Se pode ser mais, porquê ficar no menos? O facto de ter pessoas que passam e me dizem que, neste momento, sou uma esperança – eu quero ser isso. Descobrir-se o que se quer ser é muito importante para trilhar o caminho. Sim, eu quero ser esperança e voz de quem, por medo, por não poder, por achar que não tem valor ou que ninguém ouve, não se expressa. Eu quero poder dar essa voz, focar público em coisas que podem, por vezes, ser mais escondidas ou mais difíceis. Quero que isso possa transformar uma pessoa que seja! Há muito aquele conceito de ‘eu podia ter salvado mais uma pessoa’…

Como está n’”A Lista de Schindler”…

Vem da realidade, vem da personagem real. Se o meu cinema puder ajudar alguém, se puder salvar alguém, caramba!, já é qualquer coisa.

Tem a experiência como realizadora de passar por constrangimentos e obstáculos?

Na vida, não tanto sendo realizadora, atriz ou outra coisa qualquer, aquilo que sinto é que existe uma sexualização da mulher que às vezes me é chocante. E é um dos grandes equívocos da minha vida: sou a pessoa mais romântica do mundo, sou mesmo de pessoas, de amor, e portanto, de repente sentir que existe um desenquadramento disso para uma sexualização quase de objeto enquanto mulher é chocante. No entanto, tenho aprendido a lidar com isso e não tem especificamente a ver com o cinema. Sinto na vida, em coisas banais, para mim trocar mensagens ou responder de uma determinada maneira ou um sorriso de determinada maneira, sendo o mais genuíno e mais banal, aconteceu variadíssimas vezes ser muito mal interpretado. E ter de existir ali uma justificação… Tudo isto para dizer que, em minha opinião, será difícil essa igualdade ser para breve.

Nesse aspeto, vê-se como pessimista ou realista?

Eu penso que sou realista. Muitas vezes olho para a minha filha que tem um grau de simpatia incomparável com o meu, eu sempre fui muito ‘bicho do mato’, com a idade dela escondia-me atrás das pernas da minha mãe a olhar para quem se aproximava e dizia ‘Ai, que linda!’ Quando olho para a minha filha preocupo-me com uma coisa que pensei que nunca iria preocupar-me, porque ela é uma menina tão bonita, tão simpática e com um coração tão bom que existe ali um cocktail muito frágil…

E perigoso em certa medida?

Perigoso nessa medida de ser uma miúda tão transparente, é uma alma boa, isso vê-se logo nas crianças, ela tem mesmo essa pureza e ingenuidade. E não é por acaso que as crianças nos meus filmes têm sempre aquela condição pura, isso vem da alma da minha mãe. Quero muito que ela consiga manter isso ao longo da vida, mas também que se consiga proteger.

Entretanto, “Listen” é já o filme português mais visto este ano e é o candidato do País a nomeação para os Óscares. Isso, sendo muito positivo, coloca-lhe mais dificuldades do ponto de vista do aumento daquele boom que referiu há pouco à sua volta?

Isso para mim não são problemas. Pelo contrário, creio que é uma bênção, porque há inúmeros bons projetos que, por alguma razão, acabam por não chegar às pessoas ou acabam por não ter este caminho e mereciam. Aí só tenho de ver como uma conjugação de fatores que não são controláveis. Representar Portugal, se eu cantasse ou fizesse outras coisas… Desde miúda que tenho um grande fascínio, por exemplo, por todos os nossos desportistas que tanto venceram. Das imagens que mais guardo são esses momentos de vencer. Estamos muito habituados a vencer no desporto, muito mais do que em qualquer outra coisa e sempre tive essa vontade de querer vencer artisticamente como se vence no desporto. Quando aterrei em Lisboa, uma das primeiras coisas que disse a brincar foi que me sentia um bocadinho Cristiano Ronaldo, mas tenho muito caminho para andar! Mas quero muito que Portugal me sinta dessa maneira, quero muito que não seja só desta vez, quero muito trazer e partilhar as minhas alegrias, que não sejam só minhas, quero muito que seja uma coisa nossa… Não é por acaso que a minha filha se chama Amália [risos]… É nesse sentido, no sentido de vamos desbravar caminho onde houver para desbravar, vamos tentar e conseguir. E por alguma razão há um dia em que largo tudo e vendo tudo e vou embora em nome do sonho…

Sem certezas…

Sem certezas nenhumas, apenas com a certeza de que iria dar o meu melhor. E tive muito medo porque são caminhos que se fazem com muito medo de depois falhar.

Sendo uma agente da Cultura neste contexto de pandemia, como analisa a situação do setor, as medidas que têm sido adotadas e a falta de apoios a quem está a passar enormes dificuldades?

A análise que faço é aquela que qualquer pessoa do meio da Cultura fará: estão a ser tomadas medidas que, tendo um objetivo de prevenir e proteger, têm consequências gravíssimas. Se colocarmos na balança fatores como a eficácia no combate à pandemia e as consequências, acabam por ser quase uma nulidade, embora esta palavra seja muito forte. Não estou a deixar acusações, porque o grande objetivo é maior, mas não está a cumprir-se. É um bocadinho como o tema do meu filme: existe um objetivo nobre, no entanto não vai cumprir-se. Porque estas medidas estão a criar consequências gravíssimas para as vidas de todas as pessoas que vivem da Cultura – e estou a falar de fome, de subsistência, de saúde mental e física. E isto são números muito mais difíceis de contabilizar, mas fechar salas de cinema não impede a pandemia, porque ir a uma sala de espetáculos é das coisas mais seguras, todas as regras são cumpridas. Hoje em dia existe risco em tudo o que fazemos, não existem medidas possíveis para travar esta pandemia. O papel do Governo também é extremamente ingrato porque é muito difícil controlar uma coisa que não se conhece na totalidade, não se vê, não se sente… Tudo isso torna qualquer medida impossível de ser eficaz, embora haja medidas que ajudem a atenuar. Creio que garantir que as pessoas cumprem as normas era muito mais importante do que voltar a obrigar as pessoas a deixarem de viver. Porque as pessoas vão morrer também por causa disso. Há pessoas que desistem, há outras que deixam de ter meios para sobreviver, há outras que entristecem e perdem o caminho que teriam e depois temos os casos óbvios: a subida da taxa de desemprego, as consequências para toda a gente. Sabe muito bem a quem está confinado ter filmes para ver, música para ouvir, livros para ler… Se não fosse a Cultura, gostava de saber o que seria das pessoas nos tempos de confinamento. E aquilo que me ultrapassa é que não há ninguém, para além de quem pertence ao núcleo da Cultura, não há ninguém que se lembre de nós e defenda os direitos da Cultura! E não sei como se resolve isto que me entristece e me choca… Não sei se não experimentava uma coisa que vai soar a estapafúrdia, e que é estapafúrdia, por que razão, quando se fecha tudo e mais alguma coisa, não se experimenta manter só a Cultura? Isto é, acima de tudo, uma provocação, mas não sei até que ponto não era viável, tornar a Cultura parte do Bem essencial, com as medidas que têm de ser cumpridas… Muito mais do que aviões no ar, desculpem! Contra mim falo, porque tenho viajado muito, mas em voos sem lugares de separação e tendo pessoas ao meu lado que tiram as máscaras para comer, por exemplo.

Isso destruiria as companhias aéreas e milhões de postos de trabalho…

Claro, compreendo, por isso falei de uma provocação… Percebo por que razão os voos continuam no ar, não compreendo é que ninguém veja que, ao fechar-se tudo na Cultura, ao impedir que continue, isso está a destruí-la e a destruir as pessoas. Não há casos que possam ser associados às salas de espetáculos porque as regras estão a ser cumpridas, portanto, não havendo um único caso, não consigo entender. Consigo perceber que me impeçam de ir a casa dos meus pais e nem preciso que me impeçam – eu própria não tenho ido, não entro em casa dos meus pais desde que a pandemia existe. Fico à porta porque, como é óbvio, tenho esse sentido de responsabilidade para quem me rodeia, não me meto a fazer festas em casa e vejo muitas casas onde há festas a acontecerem. E muita gente nas ruas sem máscaras. E não percebo por que razão não se insiste muito mais na fiscalização desses casos e em garantir que não acontecem. Os restaurantes podem estar abertos, mas quem se senta à mesa não podem ser grupos de amigos, são famílias que vivam na mesma casa. Quem quiser encontrar-se que se encontre no jardim se for possível. É que é uma falácia, mais vale decretar o estado de emergência tal e qual porque, para as salas, o impacto é igual. As próprias pessoas já têm medo de ir ao cinema, o que estão a fazer é incentivar esse medo e isso é profundamente errado e desleal, é desonesto.

Voltando ao seu trabalho e a planos: está definido o seu próximo projeto?

Especificamente o próximo, não sei, porque estou a definir três coisas ao mesmo tempo e não sei qual será o próximo. Agora preciso de ter um tempo para voltar e ter essa reflexão sobre o que vou fazer a seguir.

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