*** Alexandra Luís, da agência Lusa ***
Lisboa, 26 abr 2026 (Lusa) – A diretora regional da DE-CIX, Theresa Bobis, considera, em entrevista à Lusa, que Portugal se tornou um polo de interconectividade devido a “uma poderosa combinação” de geografia, conectividade submarina e infraestrutura de interligação neutra.
Localizado na orla atlântica da Europa, “o país situa-se num cruzamento natural para o tráfego entre a Europa, África e as Américas” e, “nos últimos anos, temos assistido a um rápido crescimento das redes internacionais que se ligam localmente, a par da chegada de novos cabos submarinos, como o EllaLink, e outros que amarram em Sines”, aponta.
Nesse sentido, “Portugal emergiu como um centro de interligação não por um único fator, mas devido a uma poderosa combinação de geografia, conectividade submarina e infraestrutura de interligação neutra”, salienta.
Na DE-CIX, “este dinamismo é claramente visível: Lisboa tornou-se o maior Ponto de Troca de Internet do país em número de redes conectadas e, mais recentemente, expandimos a nossa plataforma para Sines, que se está a consolidar rapidamente como um ponto chave de conectividade intercontinental”.
Paralelamente, “os desenvolvimentos de infraestruturas de grande escala, nomeadamente o Campus de centros de dados em Sines, estão a reforçar este posicionamento, atraindo a atenção global, grandes empresas e permitindo a próxima geração de cargas de trabalho digitais, incluindo IA [inteligência artificial]”, refere Theresa Bobis.
Contudo, “é fundamental compreender que um ‘hub’ não se constrói apenas com infraestruturas deste tipo, os centros de dados de hiperescala e os cabos submarinos trazem capacidade e visibilidade global, mas a verdadeira força de um ‘hub’ de interligação vem do seu ecossistema de redes”, o que inclui grandes fornecedores de ‘cloud’ e de conteúdos, “mas também ISP regionais, operadores e redes de média e pequena dimensão”, refere.
Estas redes “não estão normalmente localizadas dentro de ambientes de hiperescala”, mas, “em vez disso, dependem de centros de dados de colocação (multi-inquilinos) e neutros em relação às operadoras, onde podem interligar-se de forma eficiente com vários parceiros”, enquadra.
“É aqui que as plataformas de interligação como a DE-CIX desempenham um papel central, permitindo que todos estes participantes troquem tráfego direta e localmente. Em síntese, “os hiperescaladores e os grandes campus atuam como um catalisador — mas o crescimento sustentável da interligação é impulsionado por ecossistemas diversos e neutros em relação aos operadores”, explica a diretora regional.
Theresa Bobis considera que esta tendência vai manter-se, com uma condição importante: “O impulso que estamos a observar é real e apoiado por investimentos contínuos em cabos, centros de dados, conectividade à ‘cloud’ e infraestrutura de IA”.
O sucesso a longo prazo, “no entanto, dependerá da capacidade de Portugal em atrair e reter um ecossistema alargado e diversificado de redes e serviços, garantindo que a interligação ocorre localmente, em grande escala e a longo prazo”, remata.
“O que estamos a assistir em Portugal não é uma aposta num único setor, mas sim a emergência de um ecossistema de interligação completo”.
A DE-CIX “opera o principal ponto de troca de internet em Lisboa e expandiu as suas operações para Sines, apoiando o desenvolvimento de uma estrutura de interligação distribuída e resiliente”, diz, referindo-se à interligação.
Na conectividade submarina, empresas como a EllaLink “estão a reforçar o papel de Portugal como porta de entrada transatlântica, fornecendo ligações diretas entre Portugal e a América Latina, enquanto ‘players’ globais como a Google estão a investir em novos sistemas de cabos transatlânticos que irão reforçar ainda mais o papel de Portugal na conectividade global”.
Em termos de centros de dados, “empreendimentos como o Campus de Sines estão a criar infraestruturas de grande escala e neutras em relação aos operadores, concebidas para suportar cargas de trabalho de ‘cloud’ e IA em grande escala”, diz.
Na conectividade na ‘cloud’, “fornecedores como a Amazon Web Services estão a expandir a sua presença através de serviços como o Direct Connect, que permite o acesso privado de baixa latência e alto desempenho a ambientes de ‘cloud’ diretamente a partir de Portugal”.
Empresas como a Microsoft, a Nvidia e os fornecedores emergentes de infraestruturas de IA investem “em capacidade que aproveita diretamente a posição de conectividade de Portugal”, mas “é importante realçar que isto não se limita apenas aos ‘players’ globais”, salienta Theresa Bobis.
“Observamos também um crescente interesse por parte dos operadores regionais, incluindo redes em África e na região do Atlântico, como os operadores em Angola e Cabo Verde, que veem Portugal como uma porta de entrada mais eficiente para conteúdos globais e serviços na nuvem”, exemplifica.












