A partir de 10 de abril, entra em vigor em Portugal o sistema de depósito e reembolso para embalagens de bebidas, conhecido como sistema “Volta”. A medida levanta dúvidas: será apenas simbólica ou poderá, de facto, mudar o comportamento dos portugueses?
Em entrevista, Lia Oliveira, diretora de Marketing e Comunicação da Volta esclarece à ‘Executive Digest’ como vai funcionar este novo modelo e o impacto esperado na reciclagem e sustentabilidade no país.
Como funciona o sistema de depósito
O princípio é simples: as embalagens de bebidas em plástico e metal até 3 litros passam a incluir um depósito adicional de 10 cêntimos. Esse valor é pago no momento da compra, mas pode ser totalmente recuperado.
De acordo com Lia Oliveira, “não se trata de um custo adicional definitivo, mas sim de um valor que é devolvido ao consumidor quando entrega a embalagem vazia”.
Para garantir o reembolso, as embalagens devem ser devolvidas nas máquinas disponíveis em supermercados – os chamados pontos Volta – e têm de cumprir alguns requisitos: não podem estar espalmadas, devem manter o código de barras legível e, no caso das garrafas, devem incluir a tampa.
Como recuperar os 10 cêntimos
O sistema prevê diferentes formas de reembolso. O consumidor pode receber um talão convertível em dinheiro, utilizá-lo como desconto em compras, optar por meios digitais ou até doar o valor a instituições de solidariedade.
Segundo Lia Oliveira, esta flexibilidade foi pensada para facilitar a adesão: “Queremos tornar o processo simples e acessível, incentivando o maior número possível de pessoas a participar”.
Um período de transição que pode gerar dúvidas
Nos primeiros meses, o sistema não será universal. Apenas as embalagens com o símbolo “Volta” estarão incluídas, o que significa que vão coexistir produtos com e sem depósito.
Este período de adaptação deverá durar até agosto, permitindo escoar o stock atual. Lia Oliveira sublinha que “vai ser uma fase de alguma confusão, em que será essencial que os consumidores estejam atentos ao símbolo nas embalagens”.
Cobertura nacional, incluindo o interior
Uma das preocupações prende-se com a acessibilidade, sobretudo em zonas do interior. O sistema prevê mais de 2.500 máquinas, podendo chegar às 3.000, distribuídas por todo o país.
Além disso, haverá pontos de recolha manual em superfícies comerciais com mais de 400 metros quadrados, bem como quiosques independentes em vários municípios.
Segundo Lia Oliveira, o objetivo é garantir que “não haverá situações em que as pessoas não tenham acesso a um ponto de devolução”.
Portugal estava a falhar nas metas de reciclagem
A introdução deste sistema surge também por necessidade. Portugal, tal como outros países europeus, não estava a cumprir as metas de recolha de embalagens.
O modelo já está implementado em mais de 18 países europeus, com resultados expressivos. De acordo com Lia Oliveira, “a taxa média de recolha nestes países ronda os 90%, o que demonstra claramente a eficácia do sistema”.
Mais do que reciclar: criar economia circular
Uma das grandes vantagens do sistema é a qualidade do material reciclado. Ao separar estas embalagens num circuito dedicado, evita-se a contaminação com outros resíduos.
Isso permite que o plástico e o metal reciclados voltem a ser utilizados para produzir novas embalagens alimentares.
Segundo Lia Oliveira, “este é o verdadeiro impacto do sistema: transformar resíduos em novos recursos, promovendo uma economia circular real”.
Vai mesmo mudar comportamentos?
A grande questão mantém-se: será que 10 cêntimos são suficientes para alterar hábitos?
O valor foi definido com base em estudos sobre o poder de compra e comparações europeias. Em outros países, os depósitos variam entre 10 e 35 cêntimos.
Para Lia Oliveira, o mais importante é o incentivo direto: “quando o consumidor percebe que pode recuperar o dinheiro, tende a devolver a embalagem, e isso gera mudança de comportamento”.
Um desafio cultural para os portugueses
Durante décadas, os portugueses habituaram-se a colocar embalagens no ecoponto amarelo, muitas vezes esmagadas. Este sistema exige uma mudança significativa de hábitos.
“Este é o maior desafio”, admite Lia Oliveira. “Temos de alterar comportamentos enraizados há mais de 30 anos.”
Ainda assim, o objetivo é claro: menos lixo nas ruas, praias e espaços públicos, e mais eficiência na reciclagem.
O que esperar nos próximos meses
Os primeiros quatro meses serão decisivos para a adaptação dos consumidores. A coexistência de embalagens com e sem depósito exigirá atenção redobrada.
Mas a expectativa é positiva. O sistema tem metas ambiciosas: atingir 70% de recolha no primeiro ano e chegar aos 90% até 2029.
Como resume Lia Oliveira, “este é um passo essencial para garantir um país mais limpo e sustentável”.












