Entre taxas de juro e compras de ativos, o que acontece depois da tempestade da inflação?

A inflação tem dominado a vida dos cidadãos e empresas. Para lá da nuvem do aumento do índice de preços são muitas as perguntas sobre o que fará o Banco Central Europeu (BCE), durante e depois desta tempestade.

Fábio Carvalho da Silva

A inflação tem dominado a vida dos cidadãos e empresas. Para lá da nuvem do aumento do índice de preços são muitas as perguntas sobre o que fará o Banco Central Europeu (BCE), durante e depois desta tempestade.

Qual é a perspetiva da política monetária do BCE?

Para a instituição liderada por Christine Lagarde a inflação é “temporária”, ainda que o término deste período seja incerto.

Para já os economistas são unânimes em afirmar que o BCE manterá a sua política ‘dovish’, ou seja mantendo uma tácita de expansão da política monetária e de baixas taxas de juro.

A previsão de inflação do banco central para a zona euro, para 2023, é de 1,5%, abaixo da linha vermelha dos 2%.

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Como explica Craig Inches, responsável pelo departamento de análise de de juro taxas da Royal London Asset Management, “o BCE deve ter cuidado para não assustar os cavalos, já que a mudança repentina de política monetária, pode levar determinados mercados periféricos a começarem a lutar.”

Há um “contratempo” entre a orientação do BCE e as estimativas da subida das taxas de juro?

De facto, as expectativas de aumento das taxas de juro aumentaram nas últimas semanas, com os mercados à espera de um aumento de 10 pontos-base até o final de 2022.

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Resta saber o que dirá esta quinta-feira Christine Lagarde. Para os mercados seria bom manter a política “dovish”, mas só o BCE pode decidir se acompanha ou não as perspetivas paras as tacas de juro.

“Esperamos que o BCE mantenha a política dovish, enquanto os mercados podem continuar a proteger-se”, afirmou o economista da Societe Generale, Anatoli Annenkov, em declarações à Bloomberg.

Quando termina a inflação?

Na semana passada, o governador do Bundesbank, o banco central alemão, Jens Weidmann, crítico da atual política monetária do BCE, alertou, durante o seu discurso de demissão do cargo, que “a inflação pode ainda manter-se, e continua a ser uma ameaça para a zona euro”.

A inflação da zona do euro está neste momento nos 3,4%, o nível mais alto desde 2008 e deve aproximar-se dos 4% até o final do ano.

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Uma questão fundamental é o que acontece se as expectativas de inflação subirem acima da meta estabelecida.

Quais são as consequências da inflação para as perspetivas económicas da zona euro?

A resposta é dada pelas duas maiores potências económicas do bloco: a Alemanha e a França.

A crise nas cadeias de abastecimento estão a enfraquecer as duas potências.

Paris registou uma descida acentuada no índice de produção industrial. Já Berlim viu o seu crescimento económico para este ano a ser amortecido por uma quebra na atividade empresarial, para um mínimo que já não era contemplado há oito meses, revela uma pesquisa da IHS Markit.

O número de encomendas nos dois países caíram em outubro.

Em entrevista à Bloomberg, o economista sénior da IHS Markit, Joe Hayes, esclareceu que “se até agora sabíamos que a crise nas cadeias de abastecimento tinham um impacto evidente nos preços finais dos produtos, agora também sabemos que este fenómeno teve um impacto no nível de produtividade e de encomendas das empresas”.

Qual é o futuro do Programa de Emergéncia de Compra de Gestão de Ativos (PEPP)?

O caminho dos últimos tempos da inflação na zona euro pode ditar o fim do Programa de Emergência de Compra de Ativos (PEPP) – de 1,85 biliões de euros – do Banco Central Europeu (BCE) já em março, avisou, em entrevista à Reuters, o governador do Banco Central dos Países Baixos, Klaas Knot, dois meses antes do plenário do Conselho de Governadores que vai deliberar o futuro monetário da região.

O supervisor teme que afinal a inflação não seja “temporária” como foi assegurado pelo BCE e pela Fed (Reserva Federal norte-americana). Esta posição é apoiada pelo último relatório do Fundo Monetário Internacional que prevê que “o aumento dos preços se mantenha durante mais tempo do que o previsto”.

Knot, conhecido pela imprensa holandesa e belga como o “falcão do Conselho de Governadores”, aponta como causas para esta mudança de cenário os “constantes apertos na oferta, e uma dinâmica mais forte do que se esperava no que toca à subida dos preços e salários em cada país”.

“O cenário atual não foge à linha do BCE e  é consistente com o fim do PEPP  em março de 2022”, anunciou o governador, que reiterou algo já anunciado pelo BCE: “estamos a pensar em opções para facilitar a transição do PEPP para outro programa”.

Apesar de tudo Knot acredita que a inflação irá “voltar aos trilhos, de acordo com a meta dos 2%”.

O Banco Central Europeu está a estudar a aplicação de um novo programa de aquisição de títulos para evitar turbulências no mercado quando as compras de emergência forem encerradas no próximo ano, segundo autoridades a par do assunto, contactadas pela Bloomberg. As fontes confirmaram que o Conselho liderado por Christine Lagarde ainda “não tomou nenhuma decisão definitiva”.

Em julho, em entrevista ao  jornal francês La Provence, a líder do BCE fez um anúncio informal de que o Conselho de Governadores iria concordar “em manter (PEPP) até pelo menos março de 2022 e, em qualquer caso, até julgarmos que a fase de crise provocada pela pandemia acabou”, defendeu Lagarde. “A economia europeia ainda está frágil”, reconheceu a presidente da instituição financeira.

As compras de títulos não emergenciais do BCE já foram contestadas várias vezes nos tribunais alemães e europeus e o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) chegou mesmo a pronunciar-se pela ampliação dos limites impostos a estes pacotes. Assim a questão que agora se coloca é: o BCE vai voltar a entrar em conflito com o TJUE?

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