Entre a crise social e o populismo, o que resta do 25 de Abril em Portugal? Especialista alerta que “precisamos de melhores políticos”

Num momento marcado por protestos laborais, pressão sobre salários e custo de vida, bem como por um ambiente político mais inclinado à direita e securitário, o significado da liberdade, do trabalho e dos direitos sociais em Portugal volta a ser questionado.

Pedro Zagacho Gonçalves

Num momento marcado por protestos laborais, pressão sobre salários e custo de vida, bem como por um ambiente político mais inclinado à direita e securitário, o significado da liberdade, do trabalho e dos direitos sociais em Portugal volta a ser questionado. Com as celebrações do 25 de Abril e o 1.º de Maio a marcarem a atualidade, e neste contexto, cresce o debate sobre se os valores que estiveram na base destas datas continuam a ter força numa sociedade mais desigual e sob pressão económica.

Em entrevista exclusiva à Executive Digest, a politóloga Patrícia Calca, investigadora do CIES-ISCTE, considera que o enquadramento atual é complexo e não deve ser reduzido a leituras simplistas. “Um governo de centro-direita […] não tem necessariamente que ir contra medidas laborais e proteção social forte”, começa por explicar, sublinhando que a tradicional divisão ideológica pode ser vista “pelo positivo”, ou seja, como uma maior inclinação para determinados interesses, sem necessariamente excluir outros.

Menor proteção dos trabalhadores num contexto incerto
Ainda assim, a investigadora admite sinais de mudança preocupantes. “O que nós parecemos estar a assistir é efetivamente a este movimento numa direção de menor proteção dos trabalhadores”, afirma, reconhecendo que o atual contexto político “não é potenciador […] de uma maior defesa dos trabalhadores”.

Apesar disso, alerta para a dificuldade em prever o impacto real das políticas públicas: “É sempre um bocadinho difícil dizer efetivamente quais vão ser os resultados de certas políticas públicas. Nós mais ou menos imaginamos, mas pensamos sobretudo que são para a melhoria geral das condições de vida da população.”

A importância da memória histórica
Para Patrícia Calca, a evocação do 25 de Abril e do 1.º de Maio mantém-se essencial, sobretudo num contexto em que a memória histórica tende a esbater-se. “Devemos não nos esquecer da história para evitar repeti-la”, afirma, reforçando que “a falta de memória histórica é fatal para as sociedades, exatamente pelos erros que se voltam a cometer”.

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A especialista sublinha que esta dimensão é simultaneamente pessoal e pedagógica: “Esta lembrança histórica deve permanecer no país e nem sempre isso é muito valorizado.” Num mundo em transformação, recordar conquistas passadas torna-se ainda mais relevante.

Retrocesso democrático e desigualdades globais
A investigadora enquadra Portugal numa tendência internacional mais ampla, marcada por sinais de recuo democrático. “São os primeiros anos em que nós vemos um decréscimo de intensificação da democratização no mundo”, explica, acrescentando que os dados comparativos internacionais apontam nesse sentido.

Este cenário, aliado ao aumento das desigualdades, reforça a necessidade de preservar os valores democráticos. “Mais uma razão para termos essa memória histórica, mais uma razão para falarmos nisso”, insiste.

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Jovens mais afastados da política
Um dos aspetos mais preocupantes é o afastamento das gerações mais jovens da política. Segundo Patrícia Calca, trata-se de uma transformação profunda, influenciada por fatores tecnológicos e culturais. “Há aqui uma desadequação entre aquilo que é um conhecimento histórico mais complexo e aquilo que todos estamos mais a ver, queremos tudo muito rápido”, explica.

A rapidez no consumo de informação tem impacto direto na forma como os jovens se relacionam com a política. “Não há tempo para refletir, para ler argumentos mais complexos, perceber que a realidade em si não são três slogans”, afirma.

Além disso, a transmissão de valores políticos dentro das famílias parece ter diminuído. “O processo de politização é feito a partir de casa […] e talvez hoje em dia esteja menos presente”, refere, destacando a perda de momentos de partilha intergeracional.

Desinformação e relativismo histórico
Outro risco apontado é o da desinformação. “Os perigos da sociedade atual que temos é exatamente a desinformação, o baralhar de informação mais ou menos verídica que depois obriga a um certo relativismo”, alerta.

Para a politóloga, esse relativismo pode ter consequências perigosas: “Relativismo histórico […] pode significar um retrocesso”, especialmente quando se questionam de forma recorrente as instituições democráticas. “Abrir estas caixas de Pandora é, a meu ver, um erro grande. E pode cair bem, como pode cair muito mal.”

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Revolta social e crescimento do populismo
A crescente insatisfação económica é outro fator central. Patrícia Calca aponta para desigualdades visíveis no quotidiano, sobretudo em regiões como o Algarve, onde coexistem realidades económicas muito distintas. “Há uma certa revolta de olhar para o estrangeiro,com imensa capacidade de compra,e nós portugueses não podemos almoçar fora de casa uma vez por mês”, exemplifica.

Este sentimento pode traduzir-se em comportamento eleitoral. “A extrema-direita conseguiu […] mobilizar pessoas que normalmente não votariam”, afirma, acrescentando que essa mobilização resulta tanto de transferência de votos como de novos eleitores.

“Arrisco-me a dizer que a capacidade de mobilização da extrema-direita é maior do que pensamos”, sustenta, defendendo que há também uma desmobilização das forças mais moderadas.

Valores estruturais vs preocupações imediatas
Questionada sobre se temas como custo de vida e segurança estão a substituir valores como liberdade e direitos sociais, Patrícia Calca distingue entre diferentes níveis de preocupação. “Os valores da liberdade, da democracia são menos mutáveis do que os outros que são mais contextuais”, explica.

No entanto, admite que esses valores podem estar a ser dados como garantidos. “Tenho como adquirido que há democracia […] e vou-me preocupar com aquelas coisas que me afetam mais diretamente”, como o preço dos combustíveis ou da alimentação.

Este desvio de atenção pode ter implicações profundas: “É terreno fértil para alterações das infraestruturas [democráticas] de uma forma que ninguém fique muito preocupado.”

Os riscos para a democracia
A investigadora alerta para o perigo de erosão das instituições democráticas, sobretudo quando há quebra na capacidade de negociação. “Quando começamos a quebrar a capacidade de negociação, estamos em problemas sérios”, afirma.

Destaca ainda que algumas forças políticas podem usar o sistema democrático para ganhar poder e depois deixar de negociar. “Há muita forma de alterar as regras do jogo, mas a democracia tem esta ideia dos pesos e contrapesos”, explica.

A necessidade de melhores políticos
Para enfrentar estes desafios, Patrícia Calca defende uma melhoria na qualidade da liderança política. “Precisamos de melhores políticos”, afirma, sublinhando que a decisão política é complexa e exige preparação.

“Quanto piores forem os nossos políticos, pior serão os processos de tomada de decisão”, alerta, acrescentando que a política não deve ser guiada apenas por “o que provoca mais cliques ou escândalos”.

A especialista aponta também para problemas estruturais, como remunerações e exposição pública. “Qualquer pessoa que se meta na política hoje em dia está altamente exposta, e basta um caso, uma publicação nas redes sociais, um vídeo descontextualizado, para ir parar à lama em três segundos”, critica.

Democracia depende da sociedade
Por fim, Patrícia Calca reforça que a responsabilidade não é apenas dos políticos. “A sociedade em si [deve] fazer essa pedagogia que nem todo político é corrupto e aceitar esse espírito de missão”, afirma.

Sem essa mudança, alerta, o sistema democrático pode degradar-se: “Maus políticos é péssimo para uma sociedade” e, consequentemente, “uma má democracia” é o resultado inevitável.

Num contexto de incerteza e transformação, a especialista deixa uma reflexão final implícita: os valores do 25 de Abril continuam presentes, mas a sua força dependerá da capacidade coletiva de os preservar, compreender e adaptar aos desafios do presente.

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