É preciso melhorar a prática clínica, alertaram diversos peritos: check-up anual, testes para diagnosticar múltiplas alergias, suplementos dietéticos não vitamínicos, ecocardiograma ou prova de esforço de rotina, ou papanicolau em mulheres entre os 25 e os 65 anos são alguns dos maus exemplos apontados pelos especialistas, que se reuniram em Lisboa.
A comunidade médica internacional, reunida na Fundação Calouste Gulbenkian, reforçou o aviso aos profissionais: é preciso que escolham criteriosamente os cuidados a prestar e evitem a sobreutilização dos recursos. Muitas práticas são, na verdade, desnecessárias e até prejudiciais para os doentes, apontou esta terça-feira o jornal ‘Expresso’. Afinal, entre “20 e 25% dos cuidados médicos são desnecessários e até fazem mal. São os casos dos efeitos adversos de medicamentos, exames desnecessários, entre outros”, garantiu Jeremy Grimshaw, do Instituto de Investigação do Hospital de Otava, Canadá.
“Na generalidade das situações, são feitos muitos exames pré-operatórios em cirurgias de ambulatório de baixo risco. Qual é o problema? Algumas intervenções são adiadas devido a falsos positivos, os doentes são sujeitos a mais exames, obrigados a grandes deslocações ou faltarem mais ao trabalho”, apontou o especialista. “É muito difícil quebrar hábitos, por isso, se queremos implementar mudanças, temos de mudar os comportamentos e a decisão. É precisa informação para a decisão médica e não tem de ser muita, tem é de ter qualidade.”
António Vaz Carneiro, promotor do encontro em Lisboa, tem vindo a alertar, com a sua equipa, centenas de novas orientações, muitas das quais alvo de grande resistência tanto dos profissionais como dos pacientes. Alguns dos exemplos são o desaconselhamento de check-up anual, testes sem benefício comprovado para diagnosticar múltiplas alergias, suplementos dietéticos não vitamínicos, produtos homeopáticos, ecocardiograma ou prova de esforço de rotina, evitar a vacinação em caso de doença ligeira mesmo com febre ou citologia cervical (papanicolau) em mulheres entre os 25 e os 65 anos.
“Na formação dos novos médicos, já falámos na sobreutilização dos recursos. Falamos, por exemplo, na intensidade do tratamento e na sobremedicação, nomeadamente dos idosos”, apontou o professor da FMUL. “Glicémia, hipertensão e colesterol são comprovadamente – há dezenas de estudos – tratados agressivamente, com os médicos a trazerem os valores para a normalidade. Está demonstrado que esses idosos, com 80 anos, morrem mais do que aqueles que são tratados ligeiramente, com os valores acima do normal. O que faz bem aos 40 anos, faz mal aos 80.” “18% a 20% dos doentes são sobretratados. Claramente, é preciso deixar os idosos em paz. Não precisam todos de ter uma tensão de 12/7, com 15/9 ficam muito bem”, explicou.












