Entrada da Finlândia na NATO é primeiro exemplo de como as nações pequenas se encaixam num novo mundo polarizado

No mundo geopolítico, as grandes potências fazem as regras, quebram-nas ou jogam de acordo com as suas próprias regras: já os estados mais pequenos têm de se contentar em ajustar-se a um mundo determinado por outros

Francisco Laranjeira
Abril 10, 2023
8:15

No mundo geopolítico, as grandes potências fazem as regras, quebram-nas ou jogam de acordo com as suas próprias regras: já os estados mais pequenos têm de se contentar em ajustar-se a um mundo determinado por outros.

É por isso, segundo explicou Ronald Suny, professor de história e ciência política da Universidade do Michigan, nos Estados Unidos, que a decisão da Finlândia – um país com apenas 5,5 milhões de habitantes que durante décadas foi uma presença neutra da Europa – em entrar na NATO é tão importante: realça como a invasão russa da Ucrânia perturbou as realidades globais há muito consideradas estabelecidas, pelo menos pelas potências ocidentais.

A chamada “ordem baseada em regras”, que os Estados Unidos e seus aliados da NATO têm sublinhado ser a melhor forma de governar o mundo, está a mudar. Rússia e China disputam com a hegemonia dos EUA e do Ocidente sobre assuntos globais e procuram um sistema no qual o poder é distribuído regionalmente, com Moscovo e Pequim ‘soberanos’ do que consideram a sua parte do mundo.

O que sobre para as nações mais pequenas do mundo? Recalcular a forma como se encaixam nesta divisão mundial renovada.

A Finlândia é um desses estados e fez uma escolha dramática. Durante séculos, teve de considerar os seus próprios interesses em conjunto com – e em acomodação – os do seu gigantesco vizinho: a Rússia czarista, depois a União Soviética e hoje a Rússia de Vladimir Putin. Durante os anos da Guerra Fria, a Finlândia adotou um modelo de neutralidade e acomodação para coexistir com a Rússia. Essa forma de lidar com uma grande potência vizinha era conhecida como ‘Finlandização’.

Com a invasão da Ucrânia pela Rússia, Helsínquia cravou os últimos pregos no caixão da ‘Finlandização’. A preocupação de Putin – e talvez do Ocidente – é que o modelo não tenha sido morto apenas para a Finlândia; também está morto como uma solução potencial para o conflito na Ucrânia.

Depois de mais de 100 anos dentro do império czarista, a Finlândia conquistou a sua independência em 1917. Nos primeiros 20 anos, tornou-se um posto avançado anti-soviético precariamente posicionado ao lado da URSS.

O ditador soviético Estaline via a Finlândia como uma porta de entrada para os inimigos do estado comunista. N sua mente, a Finlândia era uma ameaça existencial – semelhante à forma como Putin vê a Ucrânia hoje.

Depois de anexar o leste da Polónia e os estados bálticos – Estónia, Letónia e Lituânia – após a assinatura do Pacto Germano-Soviético de 1939, Estaline exigiu sérias concessões territoriais à Finlândia.

A guerra consequente viu os finlandeses perderem grande parte das suas províncias orientais mas conseguiram preservar sua independência – o preço para manter o seu estado democrático e economia capitalista nos assuntos domésticos durante a Guerra Fria foi a ‘Finlandização’.

Com um modelo adaptado para a neutralidade, a Finlândia conseguiu convencer Moscovo durante mais de meio século de que não era uma ameaça mas sim um parceiro comercial leal.

A invasão da Ucrânia por Putin, em 2022, desequilibrou a balança e finalmente convenceu Helsínquia de que a sua segurança seria reforçada ao tornar-se membro da NATO.

A invasão acabou também com a ideia de que a ‘Finlandização’ fosse um modelo para a Ucrânia pós-soviética. Nos últimos 30 anos, a Ucrânia independente foi vista como um problema para Putin, que temia a sua gravitação em direção ao Ocidente. Da mesma forma, mesmo antes da invasão de Putin, a Rússia era um problema para a Ucrânia, com as autoridades de Kiev a temerem o domínio do Oriente.

Antes do atual conflito, o modelo finlandês de independência e neutralidade era apresentado como uma alternativa viável para a Ucrânia ingressar na NATO ou se aproximar da aliança estratégica liderada pela Rússia, a Organização do Tratado de Segurança Coletiva.

Ao longo dos anos 1990 e 2000, a Ucrânia oscilou entre uma orientação pró-Rússia favorecida no leste da Ucrânia e uma identidade nacionalista mais ucraniana fortemente evidente no oeste. Uma ‘Finlandização’ da Ucrânia, assim como a federalização das várias províncias da Ucrânia, poderia ter diminuído a polarização política com a Ucrânia e dissipado os temores dos russos, e de Putin em particular.

Em retrospectiva, as esperanças de que a Ucrânia se pudesse ‘Finlandizar’ ou federalizar foram baixas da linha cada vez mais dura de Putin em relação à Ucrânia.

A entrada da Finlândia na NATO marca o provável fim do modelo de ‘Finlandização’: até a Finlândia o abandonou. Agora, a neutra Suécia está ansiosa para se juntar à aliança atlântica; e outros estados, até mesmo a Suíça, questionam a eficácia do não alinhamento num mundo polarizado.

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