Nunca a indústria automóvel sofreu tantas alterações em menos de uma década. A transição para a eletrificicação, o uso de baterias de lítio, sólidas, estações de carregamento etc.
E esta transformação/revolução/disrupção é refundada sobre as cinzas de paradigmas que se estão a revelar como sendo obsoletos.
Vejamos o exemplo do concept Polygon da Peugeot, numa tendência que transcende um protótipo para se assumir como o “km zero” de uma nova linhagem genética da marca do Leão.
A apresentação do concept car foi efetuada num espaço fechado onde pudemos conduzir o mesmo por breves momentos. E a sensação é que o futuro não está a chegar, mas que “já estacionou”!
Este laboratório sobre rodas desafia as leis da ergonomia e mesmo da própria produção industrial, apresentando uma proposta de valor totalmente disruptiva, colocando-se também na vanguarda da inteligência artificial aplicada à mobilidade.
A Peugeot abandona a subtileza das curvas orgânicas em favor de um desenho que a marca intitula “feline stance” (postura felina). Este hatchback compacto com menos de 4 m de comprimento, apresenta uma linha esculpida com ângulos agudos e superfícies facetadas que justificam o nome Polygon.
A zona frontal passa a estar dominada pela nova assinatura luminosa de três garras, mas dispostas horizontalmente – uma escolha estratégica – porque ao rodar a assinatura em 90º, consegue ampliar visualmente a largura do automóvel, conferindo-lhe uma presença em estrada mais imponente.
O concept car faz uso de micro-leds o que lhe permite que a iluminação seja dinâmica, criando sequências de boas-vindas; comunicações visuais com peões e, até mesmo com outros condutores
A integração de um ecrã micro Led no pilar C revela a autonomia sem ter de se aproximar do veículo ou consultar uma app. O que verdadeiramente é disruptivo é o habitáculo – as portas de abertura em borboleta não devem surgir nos modelos de produção em série – mas o centro das atenções recai sobre o hypersquare.
Cai por terra o volante circular que conhecemos há mais de um século e surge um interface retangular inspirado nos comandos das aeronaves e dos comandos das consolas de jogo, associado à tecnologia steer-by-wire, ou seja, não existe uma coluna de direção física a ligar entre as mãos do condutor e as rodas dianteiras sendo que tudo é processado através de impulsos elétricos. Com isto consegue-se uma desmultiplicação variável em tempo real, mas também a eliminação de componentes (que têm peso, exigem desenvolvimento, testes, certificações e são peças de desgaste)
Para esta inovação, a Peugeot, foi buscar inspiração e tecnologia à indústria aeroespacial, que já a utiliza há muitos anos, sem problemas de fiabilidade e totalmente certificada, com redundância total. Possui dois motores elétricos, dois circuitos de controlo independente, duas baterias, garantido que, mesmo em caso de falha crítica num dos componentes, o controlo do veículo se mantém inalterado.
Trata-se de uma tecnologia quase infalível. E porquê quase? Porque, tal como na medicina e na aviação nunca se pode afirmar 100%! Afirmar 100% seria cientificamente falso e eticamente reprovável. Por isso, podemos afirmar na prática, algo como “99,9%” ou “virtualmente correto”, chama-se a isto humildade cognitiva.
Mas quando pensamos que está tudo visto, sai mais um “leão” da cartola do mágico – a eliminação do painel de instrumentos tradicional e dos ecrãs centrais que se têm tornado moda e sobretudo distratores. Toda a informação é projetada na base do pára-brisas através de um painel microled posicionado atrás do hypersquare.
Com isto cria-se uma superfície de visualização equivalente à de um ecrã de 31″ com toda a informação disponível no vidro. Em termos de ergonomia e usabilidade, o olho humano deixa de se reajustar entre o plano da estrada, o painel de instrumentos e o ecrã central, reduzindo também a fadiga ocular.
Em termos da qualidade de construção, a marca foca-se também numa nova consciência ambiental. Não se limitou a utilizar plásticos reciclados, mas a fazer circularidade real
Mas do que se trata?
Comecemos pelo revestimento do habitáculo feito com um material inovador chamado “forged textile”, produzido a partir de restos de estofos de automóveis Peugeot que foram desmantelados.
Já os bancos foram desenvolvidos com a empresa belga Sixinch e a espanhola Nagami que são uma lição de simplificação industrial que me fazem recordar a estratégia do oceano azul, utilizada pela Smart, Swatch, Cirque du Soleil, Apple! Ao invés de ter dezenas de componentes como os bancos tradicionais, só “sobram” três partes:
- uma estrutura principal, impressa em 3D que utiliza plástico R-PET;
- uma espuma “Monofoam” de alta densidade, que pode ser trocada em minutos se o proprietário desejar alterar a cor ou a firmeza do banco
- e uma terceira parte constituída por uma base com fixação modular e ultra-leve.
E, falando de pneus, surge a última novidade: a inteligência artificial aplicada a um exemplo concreto. A Peugeot já tinha sido pioneira na integração do Chatgpt no seu ecossistema i-cockpit, mas agora tornou-o ainda mais interativo e ele próprio com funções na segurança ativa.
Assim, através da tecnologia SightLine da Goodyear, os pneus do Polygon estão ligados ao sistema central através de sensores embutidos… na borracha dos pneus; estes vão monitorizando o desgaste e as condições da estrada em tempo real. Por exemplo, se o sistema detetar um risco de aquaplanning, a AI e o software ajustam preventivamente a resposta do sistema steer by wire e também o binário do motor elétrico para garantir a estabilidade. Uma marca concorrente diria “simply clever”.
No pequeno e curto ensaio de experiência de condução percebemos o quão fácil é habituarmo-nos a este volante – com patilhas atrás do volante para ajustar a intensidade da recuperação de energia.
A agilidade demonstrada pelo Hypersquare é desconcertante: são necessários apenas 170 graus de rotação total para levar as rodas de um extremo ao outro. Redefine o modo como conduzimos. Deixamos de ter de tirar as mãos do volante em determinadas manobras ou de cruzar sequer os braços, pois os sensores registam o movimento do controlo retangular e enviam esse sinais elétricos para os motores que viram as rodas.
Uma vez que não existe coluna de direção física, a relação da direção pode ser programável e variável por software. Assim, a baixa velocidade o sistema é quase direto, bastando apenas 170° de rotação total. A velocidades mais elevadas, a relação fica mais lenta e progressiva, garantindo maior estabilidade e precisão.
Mesmo sendo um concept, o Polygon é a antevisão direta do próximo Peugeot e-208 a lançar em 2027. Não é apenas um automóvel bonito mas a redefinição do interface que existe entre o homem e a máquina.
Esta coragem da Peugeot em substituir o volante por um comando retangular é um dos maiores desafios tomados por um construtor generalista na última década. E após testar o sistema, torna-se claro que a precisão e a facilidade de condução que proporciona fazem com que o volante tradicional pareça, de repente, uma peça de museu. A qualidade dos materiais reciclados e a facilidade com que o interior também pode ser personalizado demonstra que a Peugeot compreendeu que o luxo moderno não é ostentação, mas flexibilidade e consciência ecológica.
Podemos dizer que o Polygon é a prova de que a marca do leão está pronta para liderar nesta era da mobilidade elétrica com “unhas, garras”, sustentabilidade, inovação e muita inteligência artificial!














