Enorme tempestade solar quase desencadeou uma guerra nuclear entre EUA e Rússia em 1967: fenómeno pode repetir-se em 2022?

Mundo atravessava a Guerra Fria em 1967, quando o Sol expeliu uma das maiores tempestades solares já observadas na época, libertando uma colossal explosão que interferiu nos serviços de comunicação na Terra

Francisco Laranjeira

Em maio de 1967, o mundo esteve perto de uma guerra nuclear: em plena Guerra Fria, uma tempestade solar levou as duas superpotências para perto do conflito. Com o Sol a entrar agora num período de maior atividade como parte do seu ciclo solar de 11 anos, os especialistas têm discutido os efeitos das tempestades solares para evitar um segundo incidente deste género.

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Recuemos: o mundo atravessava a Guerra Fria em 1967, quando o Sol expeliu uma das maiores tempestades solares já observadas, libertando uma colossal explosão que interferiu nos serviços de comunicação na Terra.

Os militares dos Estados Unidos ficaram imediatamente alerta com essa interferência no seu sistema de radar, que foi interpretada como uma tentativa deliberada de interferência de um adversário estrangeiro – tal movimento poderia ter sido considerado um potencial ato de guerra, uma vez que os EUA operavam um sistema de deteção de mísseis baseado em radares para se defender contra a União Soviética.

Felizmente, a catástrofe nunca aconteceu. A Força Aérea dos Estados Unidos encontrava-se a expandir as suas capacidades de análise do clima espacial e os meteorologistas conseguiram intervir, convencendo os responsáveis militares que o Sol era o provável culpado antes que fosse emitido qualquer comando precipitado – mesmo assim, os bombardeiros já estavam prontos para descolar.

Um relatório de 2016 sobre o evento, publicado na revista ‘Space Weather’, disse que o coronel CK Anderson e a sua equipa de previsão solar foram creditados por fornecer informações que “eventualmente acalmaram os nervos e permitiram que os motores dos aviões arrefecessem conforme regressavam à sua posição normal de alerta”. O evento que levou a esse incidente teria sido medido como uma tempestade extrema da classe G5 na escala de tempestade geomagnética da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica – o tipo mais severo.

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O relatório de 2016 apontou que a tempestado levou a um apoio mais formal à previsão do tempo espacial, com satélites a olhar para o Sol, permitindo previsões precisas de erupções solares ou outras erupções potencialmente perturbadoras. Mesmo assim, é possível repetir a confusão militar de 1967, numa altura em que o mundo pode estar à beira de um conflito internacional?

Morris Cohen, professor associado de engenharia elétrica e de computação da Georgia Tech e presidente da Secção de Eletricidade Atmosférica e Espacial da União Geofísica Americana, garantiu, em declarações reproduzidas na revista ‘Newsweek’, que considera “muito improvável” que uma explosão solar possa apanhar o exército americano desprevenido devido aos desenvolvimentos da tecnologia do clima espacial deste então. “Mesmo em 1967, quando a nossa consciência do clima espacial estava ainda na sua infância, a questão que quase levou a um falso ataque não estava no lado científico, estava na cadeia de comando militar e no uso dessa informação científica”, disse.

“Tínhamos um entendimento suficiente para ver que uma explosão solar havia ocorrido, o que imediatamente fez uma interpretação muito diferente dessa interrupção nas comunicações”, acrescentou Cohen. “A questão era se a cadeia de comando nuclear estava ciente dessa informação e, felizmente, na época estavam – embora talvez por pouco.”

Cohen identificou algumas situações em que o clima espacial pode “falsificar” um ataque militar – uma seria se as comunicações fossem interrompidas por uma explosão solar como a de 1967. Outra seria se uma forte erupção solar chamada ‘ejeção de massa coronal’ (CME) derrubasse as redes elétricas. Por último, poderia ser se os sinais dos satélites GPS fossem desestabilizados, o que poderia ter efeitos nas transações financeiras e nas redes móveis.

Mathew Owens, professor de física espacial no Departamento de Meteorologia da Universidade de Reading, no Reino Unido, frisou: “A consciência do clima espacial aumentou consideravelmente nos últimos 50 anos”, apontando que o incidente de 1967 destacou uma coisa importante – “o momento e o contexto de um evento de clima espacial é pelo menos tão importante quanto a física.”

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