Energia vermelha, telepatia e espiões: o manual desclassificado mais estranho da CIA

Manual em causa foi criado em 1977 pelo Monroe Institute of Applied Sciences, na Virgínia, e integrava um conjunto de exercícios destinados a desenvolver capacidades mentais avançadas

Francisco Laranjeira

Fechar os olhos por um momento, respirar fundo, imaginar a energia “vermelha” a encher o corpo e executar imediatamente a ação pretendida. Parece uma técnica saída de um manual de autoajuda esotérico, mas fazia parte de um documento usado num programa secreto associado ao Exército dos Estados Unidos durante a Guerra Fria.

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Segundo o ‘Daily Mail’, o manual em causa foi criado em 1977 pelo Monroe Institute of Applied Sciences, na Virgínia, e integrava um conjunto de exercícios destinados a desenvolver capacidades mentais avançadas, desde maior foco e gestão da dor até perceção remota, resolução de problemas e aumento de energia física.

O documento, com 21 páginas, foi posteriormente desclassificado e divulgado pela CIA em 2003. Numa das secções, os utilizadores eram ensinados a tentar “carregar” o corpo para obter mais força e velocidade antes de uma atividade intensa, como levantar um objeto pesado ou correr.

A técnica tinha cinco passos simples. Antes da ação física, a pessoa deveria fechar os olhos, inspirar profundamente e concentrar-se em duas ideias ao mesmo tempo: o movimento exato que queria realizar e a imagem de uma energia vermelha forte a preencher todo o corpo. Ao expirar, deveria abrir os olhos e executar imediatamente a ação.

O manual alegava que, com este processo, o utilizador seria capaz de realizar o movimento imaginado com mais força, maior rapidez e melhor coordenação física. A promessa era ambiciosa, mas deve ser lida no contexto dos programas experimentais da época, em que serviços de informação americanos exploraram técnicas de consciência, meditação, som e perceção fora dos limites convencionais da ciência.

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A formação fazia parte do chamado Gateway Program, desenvolvido com tecnologia sonora conhecida como Hemi-Sync, criada por Robert Monroe. A ideia era usar frequências de áudio para sincronizar os hemisférios esquerdo e direito do cérebro, colocando o utilizador num estado simultaneamente relaxado e altamente focado.

O manual, porém, avisava que estes exercícios não eram destinados ao público em geral. Os utilizadores deveriam completar primeiro a sessão inicial do Gateway Program antes de tentar aplicar as técnicas. O documento advertia ainda que a utilização sem treino adequado poderia causar efeitos “indesejáveis e descontrolados”.

Além da alegada melhoria de força e velocidade, o programa incluía exercícios para aliviar dor, aumentar concentração, induzir sono reparador, equilibrar emoções e visualizar a recuperação do corpo através de imagens mentais de nervos, músculos e órgãos. Um dos exemplos citados no manual sugeria que repetir mentalmente uma sequência numérica poderia reduzir sinais de dor numa zona específica do corpo.

A parte mais invulgar do programa estava ligada à chamada “visão remota”, ou seja, a suposta capacidade de percecionar objetos, pessoas ou acontecimentos à distância. Esta vertente ficou associada ao Stargate Project, um conjunto de experiências da CIA com indivíduos que alegavam conseguir obter informação sem contacto físico ou visual direto.

O manual de 1977 incluía mesmo uma secção sobre como “perceber eventos e pessoas distantes”, com instruções para limpar a mente e atingir o estado mental considerado necessário para esse tipo de exercício. O documento afirmava que, com prática, a técnica poderia ser usada para observação à distância e até para enviar mensagens a outra pessoa.

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As alegações nunca deixaram de ser controversas. Muitos dos resultados atribuídos a estes programas continuam a ser vistos com ceticismo, e a própria história mistura investigação militar, experiências da Guerra Fria e uma forte dose de fascínio por capacidades humanas extraordinárias.

Ainda assim, o manual mostra até onde chegaram algumas experiências americanas durante esse período. Num tempo marcado pela rivalidade com a União Soviética, os Estados Unidos não se limitaram a desenvolver armas, satélites e sistemas de vigilância. Também exploraram a possibilidade de transformar a mente humana numa ferramenta de vantagem estratégica.

Hoje, visto à distância, o documento é sobretudo uma janela para uma época em que ciência, espionagem e imaginação se cruzaram em terrenos pouco convencionais. A promessa de ganhar força em segundos ao imaginar energia vermelha pode soar improvável, mas revela uma pergunta que continua a fascinar: até onde pode o cérebro influenciar o corpo quando é levado ao limite?

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