Muitas empresas ocidentais anunciaram a sua retirada da Rússia como consequência direta da invasão de Putin à Ucrânia. Mas será bem assim? Segundo uma investigação da publicação ‘POLITICO’, a realidade não é tão linear assim.
Tentar verificar a atividade corporativa na Rússia – um país que ‘pede meças’ a qualquer obscuro paraíso offshore – é uma tarefa hercúlea: as operações financeiras estão habitualmente escondidas em mantos de mentiras, falsificações de documentos e erros burocráticos. Assim, o que uma empresa diz que faz na Rússia acaba por, muitas vezes, ter poucas semelhanças com a realidade.
Numa discussão académica sobre se realmente houve um êxodo corporativo da Rússia, podemos distinguir dois campos: Simon Evenett e Niccolò Pisani, da escola de negócios IMD em Lausanne, publicaram um estudo em janeiro último no qual apontaram que menos de 9% das empresas ocidentais – 120 ao todo – desinvestiram na Rússia. Já em Yale, Jeffrey A. Sonnenfeld interpretou as descobertas do St. Gallen/IMD como uma afronta ao estudo da sua equipa, que relatou que 1.300 multinacionais saíram do país.
Sonnenfeld, a título de curiosidade, foi uma das 25 personalidades políticas e académicas dos Estados Unidos proibidos de entrar na Rússia – numa lista encabeçada pela primeira-dama Jill Biden, Sonnenfeld está no 6º posto, o que o colocou acima do líder republicano no Senado, Mitch McConnell.
Sonnenfeld trabalha igualmente com a Kiev School of Economics (KSE), que lançou um esforço colaborativo para rastrear se as empresas estão a deixar a Rússia – atualmente, no site ‘Leave Russia’, constam que das 3.096 empresas analisadas, 196 já tinham saído e outras 1.163 haviam suspendido as operações.
O trabalho, no entanto, é contestado pela dupla Evenett e Pisani, que se concentrou apenas em empresas sedidas no G7 ou na União Europeia que possuem subsidiárias na Rússia – apenas fazer negócios na Rússia não conta, é necessário controlo. E para isso utilizam uma base de dados de negócios chamada ORBIS, que contém registos de 400 milhões de empresas em todo o mundo.
O primeiro pensamento é se os dois lados não estarão a usar metologias diferentes: Yale compreende empresas estrangeiras que fazem negócios na Rússia, independentemente de terem lá uma subsidiária. Já o lado suíço é composto por menos da metade das empresas estrangeiras que possuem subsidiárias russas e estão sediadas em países que impuseram sanções contra o Kremlin.
Por exemplo, a IKEA obtém nota A de Yale por ter fechado as suas lojas e dispensado 10 mil funcionários russos, no entanto não conseguiu a quebra de património limpa necessária para entrar na lista de St. Gallen/IMD. A empresa sueca frisou que “o processo de redução de negócio está em andamento” – ou seja, se um russo precisar de uma estante para livros, esta e outros móveis da IKEA estão disponíveis online.
Mesmo que uma empresa de alto desempenho esteja na lista de Yale, não significa que a economia da Rússia esteja carente desses produtos. Pode haver muitas razões para isso. Algumas empresas prometem sair à pressa e depois demoram. Outros redirecionarão mercadorias para a Rússia por meio de intermediários, digamos, na Turquia, Dubai ou China. Algumas mercadorias serão contrabandeadas ilegalmente. Algumas empresas terão stocks que prometem durar bastante. Outras há que podem ‘contratar’ um testa de ferro para criar uma estrutura corporativa invisível.
Basta andar pelo centro de Moscovo: muitas marcas de luxo fecharam visivelmente as portas mas os seus produtos são fáceis de encontrar, até mesmo os novos lançamentos.
O maior problema emergente é que as sanções estão a transformar os países vizinhos em “centros comerciais” que permitem que os principais produtos estrangeiros continuem a chegar ao mercado russo, amortecendo o impacto económico.
E esses são os produtos de consumo fáceis de encontrar: desafiante para os serviços de inteligência ocidentais e ucranianos são os componentes eletrónicos que podem alimentar a máquina de guerra de Putin que continuam disponíveis.














