Empresas aceleram na IA, mas só 5% dos executivos dizem ver retorno significativo

Segundo o relatório “300.000 Voices”, do Oliver Wyman Forum, 97% dos executivos reconhecem o valor estratégico da IA, mas apenas 35% dizem ter uma visão clara e comunicar bem os avanços aos colaboradores

Executive Digest

A inteligência artificial está a avançar rapidamente no mundo do trabalho, mas a maioria das empresas ainda não consegue transformar esse investimento em resultados claros. Segundo o relatório “300.000 Voices”, do Oliver Wyman Forum, 97% dos executivos reconhecem o valor estratégico da IA, mas apenas 35% dizem ter uma visão clara e comunicar bem os avanços aos colaboradores. Só 5% afirmam obter um retorno significativo do investimento.

O estudo, que analisa cinco anos de evolução das atitudes e expectativas laborais em mais de 16 países, mostra que a Europa está no centro de uma transformação profunda. A utilização frequente de IA no trabalho cresceu 65% a nível global e a Europa registou o maior crescimento anual na adoção entre 2024 e 2025, com uma subida de 13%. Ainda assim, o continente avança a um ritmo mais lento do que outras regiões, condicionado por menor confiança e menor investimento público.

A diferença é particularmente visível na confiança dos colaboradores. Apenas 20% dos profissionais europeus dizem confiar plenamente na IA, cerca de metade do valor registado na Ásia. O relatório aponta também para um investimento público mais limitado na Europa, com um indicador de 12,4 pontos, abaixo dos 48,3 da América do Norte e dos 26,3 do Médio Oriente.

IA avança, mas nem todos acompanham ao mesmo ritmo

A adoção da IA varia de forma significativa entre países, setores e gerações. Em Espanha, 37% dos colaboradores utilizam IA pelo menos três vezes por semana e 14% fazem-no diariamente, valores acima da média europeia, de 32% e 12%, respetivamente. A perceção sobre o impacto também diverge: 44% dos colaboradores espanhóis acreditam que a IA criará novas oportunidades de emprego, contra 40% no Reino Unido e em França, 37% em Itália e 35% na Alemanha.

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As diferenças geracionais são igualmente marcadas. Os colaboradores mais jovens têm 1,7 vezes mais probabilidades de frequentar formações em IA, o dobro das probabilidades de referir melhorias nas suas competências, 2,3 vezes mais probabilidades de afirmar que a IA melhora o desempenho e o triplo de referir ganhos no equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

A Geração Z surge, neste contexto, como um grupo particularmente adaptável e estrategicamente relevante para as empresas. O relatório coloca estes profissionais na intersecção entre três grandes motores de transformação do trabalho: realização pessoal, desenvolvimento de competências e adoção da inteligência artificial.

Liderança torna-se ponto crítico nas empresas

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A transformação tecnológica cruza-se com outro sinal de alerta: a crise dos modelos de liderança. Cerca de metade dos colaboradores considera que os modelos tradicionais estão desatualizados e a insatisfação com a liderança aumentou cerca de 60% em apenas dois anos.

Na Europa, 52% dos colaboradores dizem sentir-se realizados no trabalho, abaixo da média global de 56%. A remuneração e os benefícios continuam a ser o principal fator de insatisfação, mas a realização pessoal passou da oitava para a segunda posição entre as preocupações mais relevantes desde 2023. O equilíbrio entre vida profissional e pessoal mantém-se entre os três fatores mais valorizados.

A inteligência emocional surge como uma competência determinante. Os colaboradores que veem os seus líderes como emocionalmente inteligentes têm quase cinco vezes mais probabilidade de estar satisfeitos com eles. No entanto, apenas cerca de 31% considera que os líderes demonstram efetivamente essa capacidade.

Competências mudam mais depressa do que a formação

O relatório identifica ainda uma pressão crescente para a requalificação. Cerca de um terço dos colaboradores afirma que o acesso à formação seria o principal fator para melhorar a sua experiência profissional, um aumento de 98% desde 2021.

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A urgência é explicada pela velocidade com que as funções estão a mudar. Segundo o estudo, cerca de um terço das competências necessárias para a maioria dos empregos mudou nos últimos três anos, enquanto a procura por formação duplicou nos últimos cinco anos em todas as gerações.

Ainda assim, muitas organizações continuam sem saber como escalar programas de requalificação. Existe uma discrepância entre aquilo que as empresas oferecem e o que os profissionais procuram. Os colaboradores querem sobretudo formação em competências técnicas, competências específicas da função, competências interfuncionais e liderança. Já muitas empresas continuam a privilegiar formações tradicionais, obrigatórias ou operacionais, como competências interpessoais, diversidade e inclusão, vendas e marketing, saúde e segurança, regulamentação ou atendimento ao cliente.

Setores avançam a ritmos diferentes

A adoção da IA também varia entre setores. O setor tecnológico surge como o principal precursor, com investimentos superiores aos restantes. As telecomunicações destacam-se pela integração da IA nas operações centrais, pelo investimento em infraestruturas e pela disciplina na implementação.

Nos serviços financeiros, o relatório identifica estratégias, comunicação e políticas internas mais claras, embora nem sempre isso se reflita no quotidiano operacional. Este setor revela também maior receio de substituição de postos de trabalho, com 65% dos colaboradores a manifestarem preocupação com essa possibilidade.

Já a indústria transformadora distingue-se pela maior proatividade e abertura dos colaboradores para trabalhar com IA. Para o Oliver Wyman Forum, a chave para cada setor passa por identificar capacidades em falta e aprender com as indústrias que já conseguiram desenvolver essas competências.

O desafio já não é apenas investir

Para Pilar de Arriba, Partner de Telecomunicações, Media e Tecnologia, e líder da Plataforma de Performance Transformation da Oliver Wyman, os ganhos de produtividade ainda não aparecem de forma clara a nível macro porque o comportamento humano muda mais lentamente do que a tecnologia. A responsável defende que aproveitar o valor da IA exige redesenhar operações e incentivos, formar colaboradores e comunicar com clareza.

A mesma responsável considera que esta será “a última geração a trabalhar apenas com seres humanos” e que o verdadeiro desafio passa por transformar a produtividade adicional da IA em novo valor e crescimento. Sem essa mudança, alerta, a produtividade fica limitada a um indicador sem reflexo real nas contas de resultados.

Alberto Mateos, líder da Plataforma de IA e da Indústria de Serviços da Oliver Wyman, sublinha que a velocidade da evolução tecnológica torna difícil prever quais serão os investimentos vencedores. Para o responsável, as transformações bem-sucedidas combinam pragmatismo nas plataformas e nos dados com ambição iterativa na execução.

O desafio mais complexo, acrescenta, será ajudar os líderes a imaginar organizações e modelos operacionais em que humanos e IA trabalham em conjunto, cada um a fazer aquilo que faz melhor, em vez de apenas automatizar processos antigos.

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