O mouchão da Póvoa, a maior ilha do estuário do Tejo, com cerca de 810 hectares e localizada a cerca de dez quilómetros de Lisboa, esteve perto de desaparecer após quase dez anos submersa devido à rutura de um dique de proteção nunca reparado desde Abril de 2016. O rombo inicial, com cerca de 30 metros, alargou-se para quase 300 metros, transformando a ilha, durante as marés cheias, numa estreita língua de terra em redor de uma vasta lagoa, deixando o território altamente salinizado e sem condições para a antiga atividade agrícola.
Agora, a empresa imobiliária Alvoradas e Savanas, sediada no concelho de Loures, avançou com a compra do que resta do mouchão por 5,21 milhões de euros, numa escritura marcada para 23 de Dezembro, segundo avança o Público. O investimento surge da convicção de que ainda é possível recuperar a maior ilhota do Tejo e dar-lhe um novo futuro através de um projeto de turismo ecológico e de valorização ambiental, após um longo processo marcado por impasses administrativos, promessas de intervenção pública nunca concretizadas e uma disputa judicial sobre a titularidade da ilha.
Desde a deteção do primeiro rombo, os antigos proprietários afirmam ter tentado intervir, mas a Agência Portuguesa do Ambiente exigiu um projeto técnico complexo e não autorizou a reparação. Em 2018, o então ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, chegou a prometer um investimento superior a um milhão de euros para recuperar o mouchão, com vocação agrícola e de preservação da avifauna. No entanto, uma batalha judicial entre o Ministério do Ambiente e a empresa proprietária atrasou o processo, com o Estado a alegar que a ilha integrava o domínio hídrico público. Em 2023, os tribunais deram razão à empresa, reconhecendo a propriedade privada, mas, apesar da disponibilidade posterior da APA para investir mais de dois milhões de euros, as obras nunca avançaram.
O processo de insolvência da antiga proprietária culminou este ano numa hasta pública, com poucos concorrentes, vencida pela Alvoradas e Savanas. O administrador da empresa, Rui Barros, explica que este projeto é um objetivo antigo, confessando que “o mouchão da Póvoa é uma ideia com que sonho há 12 anos”, sublinhando o potencial único da ilha pela proximidade a Lisboa, pela história e pela capacidade de envolver múltiplas entidades. O empresário admite que será necessário investir “mais uns milhões de euros” e manifesta preocupação com os entraves burocráticos, embora acredite numa forte vontade institucional para avançar.
Segundo Rui Barros, o projeto agrícola está afastado, pelo menos nas próximas três décadas, devido à elevada salinização dos solos, mas a renaturalização poderá avançar de forma mais célere. A estratégia passa por articular esforços com a Administração do Porto de Lisboa, que planeia um grande projeto de desassoreamento do Tejo, utilizando as terras e lodos retirados do leito do rio para recuperar o mouchão. O empresário defende que esta solução permitiria poupanças significativas ao Estado e facilitaria a intervenção portuária, acrescentando que as preocupações com a qualidade dos sedimentos já não se colocam, dado o estado actual do território.
O plano prevê o desenvolvimento de um projeto de ecoturismo centrado na observação de aves e da natureza, com percursos interpretativos, um centro de interpretação histórica, espaços de apoio à visita e pequenas unidades de alojamento destinadas sobretudo a grupos universitários. Rui Barros garante que não haverá novas construções e que parte das estruturas existentes será demolida, sendo as restantes adaptadas, preferencialmente em madeira. A proposta inclui ainda uma pequena área de restauração ligada à gastronomia tradicional do Tejo e a possibilidade de eventos pontuais, sempre com enfoque na visita e não na permanência prolongada. O presidente da Câmara de Vila Franca de Xira, Fernando Paulo Ferreira, considera que esta aquisição abre caminho a uma solução de reabilitação ambiental e renaturalização do mouchão, sublinhando o potencial de recuperação daquele espaço único do estuário do Tejo.














