A redução do tamanho dos produtos sem uma descida equivalente do preço, fenómeno conhecido como ‘shrinkflation’, foi punida pela primeira vez na Alemanha e pode abrir caminho a novas queixas contra fabricantes. O caso envolve a Mondelez, dona da Milka, condenada por reduzir uma tablete de chocolate de 100 para 90 gramas, mantendo uma embalagem praticamente igual e aumentando o preço, avança o ‘ABC’.
A decisão surge na sequência de uma ação judicial apresentada no final de 2025 por uma associação alemã de consumidores. Em causa está a alteração das barras de chocolate Milka, que passaram de 100 para 90 gramas, ao mesmo tempo que o preço subiu na Alemanha de 1,49 euros para 1,99 euros.
Segundo o tribunal regional de Bremen, a empresa praticou uma “shrinkflation enganosa” ao manter a imagem clássica da embalagem, apesar da redução de 10% na quantidade de produto. Para os juízes, a indicação do novo peso na embalagem não foi suficiente para afastar o risco de engano, uma vez que o design não apresentava alterações percetíveis para o consumidor.
A Mondelez defendeu que a embalagem identificava corretamente e de forma visível o novo tamanho de 90 gramas. O tribunal, porém, considerou que a apresentação global do produto podia induzir os consumidores em erro, ao fazer parecer que se tratava da mesma tablete de sempre.
O caso ganha relevância num contexto de forte pressão sobre os preços do cacau, que tem levado várias empresas do setor alimentar a rever preços, tamanhos e margens. No caso da Milka, a subida de preço coincidiu com a redução da quantidade de chocolate, uma combinação que aumentou a contestação das associações de consumidores.
A decisão alemã coloca outros fabricantes sob maior escrutínio, sobretudo marcas que tenham reduzido quantidades mantendo embalagens muito semelhantes. Nos últimos anos, consumidores e associações têm denunciado reduções em produtos como gelados, batatas fritas, chocolates, bolachas e outros bens de grande consumo.
Em Espanha, o Ministério dos Assuntos do Consumidor já reagiu à condenação e prepara uma reforma legislativa para travar este tipo de prática. O objetivo é levar ao Congresso uma proposta que obrigue as empresas a informar de forma mais clara quando reduzem a quantidade de produto, evitando que a alteração passe despercebida ao consumidor.
Segundo o ‘ABC’, o Governo espanhol considera que a ‘shrinkflation’ é “mais uma forma de enganar e pressionar os consumidores”. A decisão alemã pode, por isso, tornar-se um precedente relevante na Europa, num momento em que a inflação continua a pesar nas compras do dia a dia.
Em Portugal, a prática também tem sido sinalizada por associações de consumidores. A DECO PROteste já alertou para casos de “reduflação” no retalho nacional, com embalagens a encolherem sem que o preço por unidade ou por quilo desça na mesma proporção. Entre os exemplos denunciados por consumidores estão produtos alimentares de compra frequente, como cereais, peixe congelado, chocolates, gelados ou snacks, em que a alteração da quantidade pode passar despercebida se o consumidor não comparar o peso e o preço por quilo.





