O embaixador do Irão em Portugal acusou o país de manter uma posição “inconsistente e ambígua” relativamente à utilização da base aérea das Lajes pelos EUA no contexto da escalada militar no Médio Oriente. Em entrevista à ‘Euronews’, Majid Tafreshi afirmou que a aplicação do direito internacional deve ser feita de forma coerente e sem “dois pesos e duas medidas”.
A polémica surgiu depois de a utilização da base militar nos Açores ter sido associada à preparação da ofensiva militar conduzida pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irão. O ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Rangel, explicou que, antes do início da intervenção militar, se aplicava o regime de autorização anual permanente para a utilização da base e que, após o início das operações, Washington continuou a poder recorrer às instalações, mas apenas sob determinadas condições.
Na resposta enviada à ‘Euronews’, Majid Tafreshi considera que a posição portuguesa levanta dúvidas do ponto de vista jurídico internacional. O diplomata recorda que os chamados Artigos sobre a Responsabilidade do Estado estabelecem princípios sobre a assistência e o conhecimento em situações que possam implicar responsabilidade internacional. “O direito internacional deve ser aplicado de forma coerente e sem dois pesos e duas medidas”, afirmou o embaixador iraniano.
O diplomata revelou ainda que o Irão enviou uma nota diplomática formal às autoridades portuguesas sobre a questão da base das Lajes, mas que até agora não recebeu resposta do Governo português. Apesar das críticas, Tafreshi sublinhou que não está em causa uma deterioração imediata das relações bilaterais entre os dois países.
O embaixador destacou que Portugal e o Irão mantêm relações históricas que remontam a mais de cinco séculos e defendeu que esse património deve ser preservado com base no respeito mútuo e no cumprimento do direito internacional.
Tafreshi deixou também críticas ao papel da Europa no atual conflito no Médio Oriente. Na sua avaliação, o continente arrisca-se a perder credibilidade diplomática, sobretudo após declarações de responsáveis europeus que apontam para uma eventual mudança de regime em Teerão. “Com algumas exceções positivas, o papel da Europa nesta questão parece ter enfraquecido e não refletiu plenamente a sua identidade histórica como um forte ator diplomático”, afirmou.
O diplomata iraniano reagiu igualmente às declarações do presidente americano, Donald Trump, que afirmou que as forças militares iranianas teriam sido severamente enfraquecidas após os ataques. Tafreshi rejeitou essa leitura e garantiu que os bombardeamentos não abalaram a determinação do país. “Os bombardeamentos ilegais e desumanos não conseguem enfraquecer a determinação do povo iraniano”, disse.
Questionado sobre a possibilidade de Washington apoiar grupos armados iranianos para forçar uma mudança de regime, o embaixador considerou que essa estratégia já demonstrou ser ineficaz. Segundo afirmou à ‘Euronews’, a experiência da região mostra que o apoio externo a milícias armadas não produziu “resultados sustentáveis ou positivos”.
Apesar da escalada militar, Tafreshi reiterou que o Irão considera estar a exercer o seu “direito legítimo de autodefesa” ao abrigo do direito internacional e defendeu que os países europeus deveriam condenar os ataques contra o país.





