Em resposta às tarifas de Trump: Bruxelas tem mecanismo financeiro que pode causar um ‘rombo’ de 110 mil milhões de dólares à economia dos EUA

UE já garantiu que “todas as cartas estão em cima da mesa”, salientou Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia. “Temos um plano sólido para retaliação, se necessário.”

Francisco Laranjeira
Abril 2, 2025
18:27

O ‘furacão Trump’ não tem deixado pedra sobre pedra desde que começou o seu segundo mandato na Casa Branca em janeiro último: a sua política comercial abalou as relações com os parceiros tradicionais dos Estados Unidos com a ameaça de tarifas, um vórtice de tensões crescentes como parte de um esforço protecionista.

A imposição de taxas alfandegárias sobre as importações no mercado americano – o chamado “Dia da Libertação” – pode encontrar resposta da União Europeia, que tem um instrumento fundamental à sua disposição: o mecanismo anti-coerção, uma fórmula que poderá comprometer 110 mil milhões de dólares na exportação de serviços digitais dos EUA para a UE.



A UE já garantiu que “todas as cartas estão em cima da mesa”, salientou Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia. “Temos um plano sólido para retaliação, se necessário.” A principal carta na mesma é o mecanismo anti-coerção, criado em 2021, como resposta e salvaguarda após o primeiro mandato de Donald Trump na Casa Branca – esse instrumento permite que o bloco comunitário responda a uma situação de extorsão económica na tentativa de defender os seus próprios interesses, sendo que a aplicação de tarifas ou restrições comerciais são algumas das práticas que permitiriam que isso fosse implementado.

Este instrumento autoriza o bloco da UE a implementar respostas que forcem o fim da coerção económica exercida por outro país. Assim, a UE poderia aplicar restrições à importação e exportação de bens e serviços, mas também a suspensão de obrigações relativas a direitos de propriedade intelectual, a exclusão do mercado interno, como no acesso a concursos públicos, restrições ao investimento e ao financiamento, ou impedir a entrada de produtos no mercado comunitário recorrendo a regulamentações sobre produtos químicos e dispositivos médicos.

Com esse mecanismo, a UE tem a capacidade de prejudicar a economia dos EUA numa das suas áreas mais dolorosas: as suas empresas de tecnologia. Ao impor restrições comerciais somente aos serviços de tecnologia, Bruxelas poderia desferir um golpe anual de 110 mil milhões de dólares na economia dos EUA.

O valor não só demonstra a dependência da indústria europeia dos serviços de comunicação das principais empresas de tecnologia dos EUA, mas também o peso que esse setor tem na própria economia dos EUA. Há poucas chances de que esse poderoso lobby fique de braços cruzados se o seu acesso ao mercado europeu for limitado pelas políticas tensas de Trump.

O procedimento legal exige que a Comissão Europeia seja responsável por elaborar a proposta que emerge desse mecanismo anti-coerção. No entanto, os países terão de dar a sua aprovação à iniciativa. Devem apoiá-lo por maioria qualificada, ou seja, 55% dos Estados-Membros que representem 65% da população europeia.

É importante ressaltar que essas medidas devem ser implementadas apenas como último recurso e devem estar sujeitas a condições como serem proporcionais para combater práticas de extorsão, serem direcionadas e limitadas no tempo apenas ao momento em que tal violação ocorrer.

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