Em Portugal a culpa morre solteira…

Por Manuel Lopes da Costa, Empresário

Neste cantinho à beira-mar plantado acontece algo muito sui generis, muito particular, e que é: ninguém nunca tem culpa de nada. As coisas acontecem, mas nunca é culpa de ninguém.

Estamos a caminhar a passos largos para conseguir desperdiçar a maior prenda que o governo do Reino Unido nos deu ­(a inclusão na lista verde de países que podem ser visitados sem a obrigatoriedade de uma quarentena no regresso à ilha) e ninguém parece ter culpa de nada. “Moradores dos bairros centrais de Lisboa ‘revoltados’ com ajuntamentos noturnos” (in 24.sapo.pt de 25/05/2021) mas ninguém assume a responsabilidade. Ajuntamentos de jovens que se repetem noite após noite, fim-de-semana após fim-de-semana, de gente totalmente inconsciente que quer festa, copos e diversão, como se a pandemia nunca tivesse impactado as nossas vidas e a nossa economia. E, nada acontece.

Entre os melhores casos para exemplificar este meu ponto de vista encontram-se os recentes festejos do Campeonato Nacional de Futebol em que ninguém assumiu a culpa pelo que aconteceu e que têm hoje, muito provavelmente, uma quota parte de responsabilidade pelo aumento do número de casos de infetados pelo COVID-19 em Lisboa. Os adeptos não são culpados porque, segundo eles, enviaram atempadamente um email à Câmara Municipal de Lisboa a pedir autorização para a instalação de uma fun zone e que esta foi autorizada. A Câmara — certamente obedecendo ao dever cívico de teletrabalho, para muitos: “telemanha” — assume ter perdido o dito email: “O jornal Público noticiou que o parecer da PSP a recusar a existência de um ecrã gigante à porta do estádio de Alvalade, esteve ‘perdido no circuito interno´ do município, de acordo com o assessor de imprensa da autarquia.” (in observador.pt 15/05/2021). No entanto, embora a autarquia assuma que o parecer se tenha perdido, o Presidente da mesma não assume qualquer responsabilidade pelo que aconteceu: “Medina sobre comemorações do Sporting: «Quem tem responsabilidade em matéria de ordem pública no nosso país é a PSP e o MAI»” (in observador.pt 18/05/2021).

Assim sendo, seria então espectável um assumir de culpa por parte do MAI. Contudo, o Ministério da Administração Interna também não assumiu nada e, sobre o tema, nem uma palavra foi proferida pelo Ministro da tutela: “A festa que quebrou todas as regras sem se ouvir uma palavra a Cabrita” (in dn.pt de 12/05/2021). Restava então à PSP assumir a culpa, ou pelo menos, quota parte dela. Mas aqui também não aconteceu, até porque, como prontamente foi divulgado pelo senhor Vice-presidente do Sindicato Nacional de Oficiais da Polícia: “Bruno Pereira avançou que a Polícia de Segurança Pública se «opôs veementemente» ao modelo proposto pelo Sporting para o estádio e para o desfile do autocarro com os jogadores, tendo apresentado alternativas que permitiriam à PSP «agir de forma efetiva e não estar sempre a correr atrás do prejuízo».” (in ojogo.pt de 13 de Maio de 2021). Enfim, a trapalhada do costume, o chamado jogo do empurra… E, assim, uma vez mais, a culpa não foi de ninguém e foi solidariamente de todos. Morreu solteira.

Outro exemplo é o de um clube de futebol que gasta 100 milhões de euros numa época, não ganha um único título e aqui também a culpa não é de ninguém. Nem do Presidente que tomou a decisão, nem da direção que a avalizou, nem do treinador pago a peso de ouro, nem muito menos dos jogadores que, quer este ano, quer o ano passado, sempre construíram e mantiveram um “balneário” extraordinário e solidário. A culpa não é de ninguém. Na realidade, a haver um culpado, a culpa de tudo é da “pantremia” ou “pandomia” ou ainda da “patermia” do “Covides” como, muito eloquentemente, refere o treinador. “Jorge Jesus não sai e culpa pandemia” (in jm-madeira.pt de 25/02/2021). E, mais uma vez, a culpa morre solteira.

Mas, a cereja no topo do bolo talvez seja mesmo os recentes acontecimentos ocorridos na Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar às perdas registadas pelo Novo Banco e imputadas ao Fundo de Resolução onde ficou por demais transparente que ninguém é culpado de nada, de nada mesmo. O Estado e os portugueses arriscam-se a perder 10,1 mil milhões de euros mas, na verdade, a culpa, uma vez mais, não tem dono. Os maiores devedores, coitados, ou são totalmente amnésicos, ou ficam estupefactos por estarem nessa lista, ou são “agressivos” e abruptamente expulsos da videoconferência. Mas, o que ninguém é, é culpado.

Senão vejamos: o amnésico não se lembrava do nome das empresas que administrava nem dos fundos que as detinham mas, paradoxalmente, tinha algumas noções bem claras do que era ser beneficiário económico; o senhor que se seguiu tratou logo de referir que ele não podia ser o segundo maior devedor e, qual menino na escola primária, apontou logo o dedo aos outros possíveis culpados (enjeitou a culpa e tratou de mostrar que há mais responsáveis que deveriam também estar ali, ou, à boa portuguesa “ou há moral, ou comem todos”. E, tal como eles, todos os entrevistados, sem exceção, apresentaram excelentes desculpas e razões pelas quais, embora estando na lista dos maiores devedores do NovoBanco, não são nem culpados, nem responsáveis pelos seus créditos (os famosos NPL que geraram as imparidades que levaram à situação agora conhecida).

E, de mãos atadas, a Comissão também lá vai tentado fazer o melhor que pode, sendo certo que trabalha num enquadramento legal muito particular que impede que aconteça a estas testemunhas o que, muito provavelmente, aconteceria caso se comportassem desta forma num tribunal face a um juiz. E assim se demonstra uma total falta de respeito pelas nossas instituições, pela nossa sociedade, pelos nossos representantes eleitos, ou seja, por todos nós.

O contrato de venda do NovoBanco a um fundo foi, e continua a ser, prejudicial para o país, mas ninguém assume a culpa pelo mesmo. Na altura, a seguradora do grupo BES foi igualmente vendida a outro fundo que realizou, anos mais tarde, uma mais-valia substancial, mas ninguém teve culpa. Parabéns ao fundo e aos seus gestores. Também o BPN foi vendido por uma ninharia: “Estado vende BPN ao Banco Bic por 40 milhões” (in jn.pt de 31/07/2011) e, uma vez mais, ninguém teve culpa. Quanto à TAP, a empresa anda a custar aos portugueses o que custa, e vai continuar a custar, num processo sem fim nem CEO estrangeiro à vista, sem rumo nem estratégia e augurando unicamente um final onde acabará por morrer ou ser vendida a um preço irrisório — tal como a Groundforce, a SATA e tudo o que em Portugal está relacionado com a aviação — e a culpa continuará solteira. Eventualmente poderão agora desculpar-se dizendo que estavam concentrados na ferrovia, a nova paixão nacional no que aos transportes diz respeito…

O facto de, no nosso país, ninguém ser responsável por nada, de a culpa morrer sempre solteira é, provavelmente, uma das principais razões que levam Portugal a encontrar-se na situação social, moral e económica em que, infelizmente, se encontra. Ora, uma vez que nunca ninguém é responsabilizado por nada, a impunidade é total. E, assim sendo, cada um se sente livre de fazer o que muito bem entende, prejudicando tudo e todos — ainda que essa possa não ser a intenção inicial — porque, no fim, feitas as contas, nada lhe acontece.

Quem não tem condições para continuar a assumir as funções para as quais foi nomeado, quem, embora não diretamente responsável, tutela organismos que falham, deveria ter a coragem de se demitir. Está na hora de todos nós começarmos a ter vergonha na cara e assumir as nossas responsabilidades pelo que fazemos, pelo que dirigimos e pelo que decidimos. Nesta matéria, Jorge Coelho foi exímio e mostrou a todos o que é assumir a culpa na hora certa. Respeito-o por isso. Sejamos nós também capazes de seguir o seu exemplo.

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