Em Felcsút, uma pequena localidade rural na Hungria, a casa de campo de Viktor Orbán apresenta-se como uma imagem cuidadosamente construída: uma modesta habitação de estilo camponês, com portadas de madeira e um poço no jardim. A mensagem é clara — apesar de mais de 16 anos no poder e de alianças internacionais com figuras como Donald Trump e Vladimir Putin, Orbán continua a projetar-se como um homem próximo do povo.
Contudo, a poucos quilómetros dali, a família possui uma vasta propriedade histórica, outrora pertencente ao arquiduque José da Áustria, equipada com estruturas luxuosas como um jardim zoológico e uma estufa tropical. Ainda assim, os familiares insistem que esse património não pertence diretamente ao primeiro-ministro.
A poucos dias das eleições legislativas, marcadas para 12 de abril, o domínio político de Orbán enfrenta o maior desafio desde que chegou ao poder em 2010. As sondagens indicam que está atrás de Péter Magyar, antigo aliado que abandonou o partido governante Fidesz e lidera agora o partido Tisza.
De acordo com vários estudos independentes, o Tisza mantém uma vantagem média de cerca de 10 pontos percentuais, tendência que parece estar a acentuar-se. A insatisfação popular cresce, impulsionada por uma economia fragilizada, inflação elevada, serviços públicos degradados e infraestruturas negligenciadas, incluindo o sistema ferroviário.
Magyar centra a sua campanha em questões económicas e acusa o círculo próximo de Orbán de enriquecer enquanto a população empobrece. O discurso faz eco das promessas que o próprio Orbán fez em 2010, quando se apresentou como reformista.
Uma sociedade dividida entre mudança e lealdade
Apesar da contestação crescente, Orbán continua a manter forte apoio em zonas rurais e entre eleitores mais velhos. Já entre os jovens, a mensagem europeísta de Magyar — que promete uma “Hungria moderna e europeia” — tem maior adesão.
Alguns eleitores, como Júlia, comerciante de 76 anos, expressam preocupação com o futuro: “O meu principal critério é que os meus filhos e netos possam ficar aqui e viver com dignidade. Não acredito que isso aconteça sem mudanças. Somos o segundo país mais pobre da Europa.”
Ainda assim, persiste o receio de que as sondagens falhem, como aconteceu em eleições anteriores.
O estádio que simboliza um sistema
No centro de Felcsút ergue-se a imponente Pancho Arena, com capacidade para 3.800 pessoas — mais do dobro da população local. O estádio é casa da Puskás Akadémia, fundado por Orbán em 2007.
Mais do que uma infraestrutura desportiva, a arena tornou-se símbolo do modelo político do primeiro-ministro: uma fusão entre futebol, poder e influência. Construído no local onde Orbán jogava em criança, o estádio representa simultaneamente uma ambição pessoal e uma demonstração de poder político.
Futebol como ferramenta política
O futebol ocupa um papel central no sistema de governação de Orbán. Ao longo dos anos, o setor desportivo foi integrado numa rede de patronagem política, onde aliados, familiares e figuras próximas ocupam cargos de liderança em federações e clubes.
Segundo o deputado da oposição Márton Tompos, “o desporto serve para recompensar a rede de lealdades construída pelo Fidesz e enriquecer aliados e parceiros de negócio”.
Este modelo estende-se a vários setores da sociedade, refletindo uma estrutura de poder vertical, frequentemente comparada à “democracia controlada” da Rússia de Vladimir Putin.
Influência internacional e inspiração italiana
A ligação entre futebol e política não surgiu por acaso. Orbán inspirou-se no modelo de Silvio Berlusconi, que utilizou o clube AC Milan para reforçar a sua imagem política.
Tal como Berlusconi, Orbán promoveu a mobilização de adeptos e estruturas associativas ligadas ao futebol como base de apoio político, integrando-as na expansão do Fidesz pelo país.
Financiamento controverso e suspeitas de corrupção
Grande parte do investimento no futebol húngaro foi canalizado através de um sistema fiscal conhecido como TAO, que permite às empresas direcionar impostos para clubes e academias desportivas. Estima-se que cerca de mil milhões de forints (quase 3 mil milhões de dólares) tenham sido investidos no setor, superando o orçamento nacional da educação.
A Puskás Akadémia terá recebido cerca de 100 milhões de euros. Críticos alegam falta de transparência e suspeitam que parte dos fundos não chega aos programas de formação.
O empresário Lőrinc Mészáros, amigo de infância de Orbán, tornou-se um dos principais beneficiários deste sistema. De modesto empreiteiro, ascendeu a homem mais rico da Hungria, atribuindo o seu sucesso a “Deus, sorte e Viktor Orbán”.
Um sistema sob pressão
Ao longo de mais de uma década, Orbán consolidou o poder, alterando o sistema político, influenciando os media — controlados em cerca de 80% por aliados — e moldando instituições públicas.
A oposição acusa-o de manipular o sistema eleitoral, através de redesenho de círculos eleitorais, controlo mediático e práticas como compra de votos, criando uma vantagem estrutural difícil de ultrapassar.
No entanto, fatores como corrupção, desigualdade e degradação dos serviços públicos estão a fragilizar o regime, fortalecendo a oposição.
Quando o futebol deixa de ajudar
A aposta no futebol também comporta riscos políticos. O fracasso da seleção nacional em qualificar-se para grandes competições tem gerado frustração pública e questionamentos sobre o investimento no setor.
Num contexto de estagnação económica — sem crescimento significativo do PIB há vários anos — o financiamento ao futebol passou de tema marginal a questão central no debate político.
Ainda assim, Orbán mantém a promessa de restaurar a grandeza da Hungria, tanto no futebol como na política. Resta saber se essa estratégia continuará a mobilizar os eleitores — ou se, pelo contrário, contribuirá para o fim do seu longo domínio.




