Eleições gerais na África do Sul prometem transição histórica no país

Ao fim de 30 anos de democracia plurirracial, a África do Sul prepara-se para iniciar a mais importante transição da sua história pós-apartheid, a confirmar-se a perda da maioria parlamentar do ANC nas eleições gerais de quarta-feira.

Executive Digest com Lusa

Ao fim de 30 anos de democracia plurirracial, a África do Sul prepara-se para iniciar a mais importante transição da sua história pós-apartheid, a confirmar-se a perda da maioria parlamentar do ANC nas eleições gerais de quarta-feira.

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Pela primeira vez na sua história, o Congresso Nacional Africano (ANC) deverá obter um resultado abaixo dos 50% dos votos e ser forçado a concertar-se no parlamento sul-africano para reeleger o seu candidato à Presidência, Cyril Ramaphosa, para um segundo mandato de cinco anos, e isso marcará o início de uma mudança fundamental no quadro político, consagrando o “virar da esquina” da ainda maior economia do continente africano.

A forma como se entenderão os 400 membros da Assembleia Nacional na Cidade do Cabo para escolher o chefe de Estado e do Governo, que dirigirá o país a cerca de 400 quilómetros, em Pretória, dependerá da expressão eleitoral do ANC nas eleições de quarta-feira.

Quanto mais cair da barreira dos 50% o partido que elegeu Nelson Mandela há trinta anos, como apontam todas as sondagens das últimas semanas, mais interessante se perspetivam as negociações para uma eventual futura coligação.

“As coligações baseiam-se em compromissos e penso que vai ser muito interessante ver como os vários partidos políticos lidam com um conceito que é relativamente novo para eles”, sublinhou, em declarações à Lusa, Nicolas Delauney, diretor do Crisis Group International (CGI) para a África Austral.

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Certo é que, na “viagem” que o país iniciou há trinta anos, esta quarta-feira marcará o “início de uma transição, que só acontecerá realmente em 2029, nas próximas eleições, porque, embora o ANC fique abaixo dos 50%, Ramaphosa continuará a governar e o ANC será o partido maioritário”, sublinhou, pelo seu lado, o fundador do Institute for Security Studies (ISS) em Pretória, Jakkie Cilliers, em declarações à Lusa.

Desemprego, fornecimento de eletricidade e água e corrupção são os principais problemas que um inquérito do Afrobarometer, divulgado na semana passada, identificou como justificadores do descontentamento de 85% da população sul-africana com o rumo do país. Em 2011, recordou o instituto de sondagens africano, cerca de 46% de um universo então inquirido indicavam que a África do Sul estava a “ir na direção errada”, com uma percentagem igual a dizer que estava a ir na “direção certa”.

Em primeiro lugar, o desemprego, logo seguido dos cortes de energia e os efeitos em cadeia provocados na sociedade sul-africana; a questão da corrupção; o custo de vida; pobreza; desigualdade; e recentemente a questão do abastecimento de água potável são considerados problemas “intratáveis” pelos respondentes ao inquérito do Afrobarometer e os afastam dos partidos políticos: quase metade (47%) dos inquiridos não se sente próximo de nenhum partido político e o número de indecisos a uma semana das eleições ascendia a cerca de um terço.

Com maior ou menor vantagem, no entanto – todas as sondagens apontam, incluindo a do Afrobarometer – o ANC continuará a ser o maior partido da África do Sul, a nível nacional, por uma margem substancial.

Com o ANC de fora, nenhuma coligação de partidos alternativa conseguirá obter no parlamento os votos necessários para apontar outro Presidente que não Ciryl Ramaphosa.

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Dependendo dos resultados eleitorais, Jakkie Cilliers antecipa um período de discussões intensas, que deverão levar à formação de diferentes alianças a nível nacional e a nível provincial.

“A nível nacional, penso que o ANC tentará evitar qualquer um dos maiores partidos, seja o EFF (Combatentes da Liberdade Económica, na sigla em inglês, atual terceiro partido parlamentar, dissidente do ANC), o DA (Aliança Democrática, também na sigla inglesa, o segundo maior partido sul-africano, liberal, cujos dirigentes são na maioria brancos) ou até o Inkhata Freedom Party (IFP, aliado histórico do ANC, com que governou até 2004, mas em queda nos últimos anos)”, considerou o investigador do ISS.

Caso, porém, o ANC tenha que escolher um “partido maior”, Cilliers prevê que “será provavelmente o IFP ou o DA, mas não o EFF”, de extrema-esquerda marxista, cujo líder, Julius Malema, de 42 anos, é caracterizado por um discurso de ódio, pelo qual chegou a ser condenado, e defende, por exemplo, a expropriação de terras de pessoas brancas, sem compensação.

Delauney não menospreza a capacidade de recuperação do ANC nos últimos dias de campanha, até pelas suas raízes históricas, mas se o partido de Ramaphosa perder por uma pequena margem, poderá então vir a “assinar uma coligação com um pequeno partido que desempenhará o papel de ‘kingmaker’”.

Já “se perder por muito e obtiver um resultado na ordem dos 40% dos votos, ou algo do género, então terá de se aliar a vários partidos ou a um partido maior e é aqui que as coisas se tornam interessantes”, acrescentou, sublinhando não ser claro “o tipo de compromissos que o ANC estará disposto a assumir neste caso”.

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A experiência, segundo o analista do CGI, mostra que a África do Sul não tem produzido coligações duradouras nos níveis inferiores de governação, pelo que “há uma curva de aprendizagem” que o país tem pela frente.

Cilliers antecipa que, a nível provincial, o ANC possa vir a ter que escolher um ou dois dos maiores partidos, sobretudo nas maiores províncias, Gauteng e Kwazulu Natal.

Na primeira, diz o analista do ISS, “o parceiro lógico é a DA”; em Kwazulu Natal talvez possa emergir “uma aliança do tipo ANC – IFP–EFF – MK (uMkhonto we Sizwe – nome da ala militar do ANC durante a luta contra o apartheid, partido fundado no início deste ano por Jacob Zuma, entretanto impedido na semana passada pelo Tribunal Constitucional sul-africano de se candidatar)”, afirmou.

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