Eleições à vista: Portugueses vão às urnas pelo menos quatro vezes até janeiro

Nos próximos meses, Portugal enfrentará um período de grande intensidade eleitoral, com quatro atos eleitorais previstos num intervalo de apenas nove meses. O primeiro será já em março, na Madeira, seguido por eleições legislativas antecipadas, caso o Governo perca a moção de confiança na próxima semana, o que é considerado praticamente certo.

Revista de Imprensa
Março 6, 2025
9:30

Nos próximos meses, Portugal enfrentará um período de grande intensidade eleitoral, com quatro atos eleitorais previstos num intervalo de apenas nove meses. O primeiro será já em março, na Madeira, seguido por eleições legislativas antecipadas, caso o Governo perca a moção de confiança na próxima semana, o que é considerado praticamente certo. Posteriormente, entre setembro e outubro, será a vez das eleições autárquicas, e, já no início de 2026, realizar-se-ão as presidenciais. Este calendário denso, segundo especialistas, poderá contribuir para o aumento da abstenção e para o crescimento de forças políticas populistas.

“Quantas mais eleições tivermos num ano, mais cansamos o eleitorado e mais difícil é mobilizá-lo”, alerta Miguel Ângelo Rodrigues, politólogo e professor na Universidade do Minho, em declarações ao Jornal de Notícias. O especialista sublinha que o efeito poderá ser particularmente visível nas eleições legislativas, tendo em conta a proximidade do último ato eleitoral e a conjuntura política atual. Além disso, acredita que este cenário tenderá a prejudicar alguns partidos mais do que outros, com possível perda de lugares no Parlamento.

Outro efeito que poderá resultar desta sucessão de eleições é o fortalecimento das forças políticas mais radicais. “A natureza desta crise política e o atual contexto internacional favorecem o voto mais extremado”, explica o politólogo. A crise política que precipitou a atual situação, recorde-se, está relacionada com suspeitas de que o primeiro-ministro não exercia as suas funções em exclusividade, devido a ligações ao setor privado. Este tipo de acusações, segundo Miguel Ângelo Rodrigues, pode reforçar o discurso do Chega, que “tem vindo a afirmar que ‘estão todos a roubar’ e que são eles os únicos capazes de moralizar o sistema político”.

Além dos desafios políticos e eleitorais, o calendário apertado coloca dificuldades logísticas para os partidos, que terão de gerir campanhas e pré-campanhas de diferentes eleições quase em simultâneo. “Será bastante difícil para os partidos gerir recursos e evitar a sobreposição de discursos e estratégias eleitorais”, observa Pedro Silveira, professor da Universidade da Beira Interior. Esta dificuldade poderá afetar a clareza da mensagem dos partidos e confundir os eleitores, divididos entre os diferentes atos eleitorais.

A primeira votação acontecerá já a 23 de março, quando a Madeira for a votos para eleger os 47 deputados da Assembleia Regional, apenas dez meses após as últimas eleições. A campanha oficial decorrerá entre 9 e 21 de março. Caso a moção de confiança do Governo seja chumbada, o Presidente da República já admitiu marcar eleições legislativas antecipadas para 11 ou 18 de maio. As autárquicas, por sua vez, ainda não têm data definida, mas deverão realizar-se entre setembro e outubro. Já as eleições presidenciais, previstas para janeiro de 2026, encerram este ciclo eleitoral intenso.

A realização das legislativas antes das autárquicas pode ainda criar instabilidade dentro dos partidos. Miguel Ângelo Rodrigues alerta para o facto de que “podemos ter os líderes dos partidos a lançar candidatos para as autárquicas e, no dia da eleição, esses líderes já não estarem à frente das respetivas formações políticas”. Este cenário seria particularmente problemático para o PS e o PSD, que poderão enfrentar mudanças de liderança caso obtenham maus resultados nas legislativas antecipadas.

Outro ponto crítico é o impacto que esta instabilidade poderá ter na execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). A mudança de Executivo pode dificultar a gestão das verbas europeias numa fase crucial. “Os autarcas já tinham um desafio complexo com as eleições autárquicas de outubro, pois têm metas do PRR a cumprir”, lembra Miguel Ângelo Rodrigues. A questão torna-se ainda mais urgente quando se considera que os fundos do PRR têm um prazo de execução rígido: “Em junho de 2026, esta oportunidade termina.”

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