Um fenómeno El Niño particularmente intenso poderá provocar uma nova vaga de aumentos nos preços dos alimentos e empurrar mesmo a inflação alimentar para valores de dois dígitos em 2027. O risco surge numa altura em que a produção agrícola já enfrenta constrangimentos provocados pela escassez de fertilizantes e por condições de cultivo mais adversas.
De acordo com o Jornal de Negócios, a Organização Meteorológica Mundial alerta para o desenvolvimento de águas anormalmente quentes no Pacífico tropical, uma situação que deverá alterar os padrões de temperatura e precipitação à escala global e aumentar a probabilidade de fenómenos meteorológicos extremos.
A organização estima em 80% a possibilidade de o El Niño ocorrer durante julho e agosto, enquanto a probabilidade de se prolongar, pelo menos, até novembro chega aos 90%. Um episódio de elevada intensidade poderá agravar secas, precipitação extrema e ondas de calor, com consequências diretas para as colheitas e para os preços das matérias-primas agrícolas.
Preços dos alimentos podem voltar a acelerar
Uma análise da Schroders citada pelo Jornal de Negócios aponta para a formação de um possível “Super El Niño” em 2026, capaz de alimentar pressões inflacionistas até 2027. A alteração da distribuição das chuvas, conjugada com perturbações no fornecimento de fertilizantes, poderá fazer com que a inflação alimentar do próximo ano atinja valores de dois dígitos.
Os economistas David Rees e Sandeep Jaggi recordam que episódios anteriores afetaram o nível da água no Canal do Panamá, reduziram a produção hidroelétrica e provocaram secas e inundações fora das épocas habituais. Estas perturbações podem limitar a produção agrícola, dificultar o transporte de mercadorias e aumentar os custos suportados por produtores e consumidores.
O cenário poderá ainda reforçar as tendências de estagnação económica combinada com inflação. Depois dos aumentos da energia, uma nova subida dos preços dos alimentos prolongaria a perda de poder de compra e poderia travar o consumo durante mais tempo.
Subida de 50% no índice da FAO agravaria inflação no G7
Segundo a análise referida pelo Jornal de Negócios, uma subida de 50% no índice de preços dos alimentos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura até ao final do ano poderia levar a inflação alimentar no G7 para dois dígitos em 2027. Esse movimento teria capacidade para acrescentar mais de um ponto percentual à inflação global.
O peso dos alimentos no índice de preços no consumidor varia entre regiões. Nas economias desenvolvidas, estes produtos representam geralmente entre 10% e 15% do cabaz, enquanto nos mercados emergentes podem corresponder a 25% ou mais. Por esse motivo, os países com rendimentos mais baixos poderão sentir de forma mais intensa uma nova escalada dos preços.
O índice da FAO recuou 0,3% em junho, para 130,3 pontos, devido à descida das cotações dos cereais, do açúcar e dos produtos lácteos. A redução foi parcialmente anulada pela subida dos óleos vegetais e da carne. Apesar da queda mensal, o indicador permaneceu 2,2% acima do valor registado no mesmo período do ano anterior.
O El Niño tem um fenómeno climático oposto, conhecido como La Niña. Este caracteriza-se pela descida das temperaturas e por mudanças relevantes nos padrões de precipitação, podendo também prejudicar colheitas, sobretudo no Hemisfério Sul.














