Donald Trump garantiu que os produtos estrangeiros – ou seja, os não americanos – “estão numa situação muito má” porque “não são inspecionados. Podem ser muito sujos e nojentos quando chegam e prejudicam os nossos agricultores”. Mais um motivo para impor tarifas sobre produtos que chegam de fora dos EUA, acredita o presidente, como reforçou no seu primeiro discurso perante o Senado e Câmara dos Representantes desde que regressou à Casa Branca.
Trump já garantiu que fará de tudo para combater os produtos estrangeiros: as tarifas de 25% para o México e Canadá já entraram em vigor, assim como o aumento de 10 para 20% para a China. Após as medidas retaliatórias das autoridades chinesas e canadianas, Trump anunciou que imporá tarifas recíprocas a partir de 2 de abril.
Mas é uma equação assim tão simples? Na opinião de Trump, com as tarifas, os americanos vão comprar mais produtos feitos nos EUA, o que beneficiará empresas e fortalecerá o emprego.
No entanto, a realidade é bem mais complexa e as políticas protecionistas têm sido amplamente analisadas por economistas e pela história, com uma conclusão: a imposição sistemática de tarifas prejudica o país exportador, sim, mas em última análise também o país que as impõe.
Vejamos: a economia dos EUA está intimamente ligada aos três países mencionados, dois dos quais vizinhos: México, Canadá e China são responsáveis por mais de 40% das exportações de empresas americanas em 2024, lembrou a publicação espanhola ‘El Confidencial’.
Tome-se o caso da indústria automóvel americana, que poderá ser bastante afetada: marcas como Audi, BMW, Ford, General Motors e Honda vendem carros nos três países da América do Norte. Muitas das peças desses carros cruzam as fronteiras mexicanas e/ou canadianas diversas vezes antes de serem montadas. “Provavelmente, não há um veículo no mercado hoje que não seja afetado de alguma forma pelas tarifas”, sublinhou Peter Nagle, economista da ‘S&P Global Mobility’, citado pela ‘CNN’.
Uma análise do Anderson Economic Group (AGE), think tank sediado no Michigan, os custos de produção de veículos fabricados nos EUA vão aumentar entre 3.500 e 12 mil dólares por carro. Este aumento pode impossibilitar a produção de certos modelos, especialmente os mais baratos. Como resultado, pode haver cortes na produção e, portanto, no emprego.
O papel do fentanil
Além de razões puramente económicas, Trump citou outros motivos para justificar o imposto sobre México, Canadá e China. O presidente americano acusou os três países de “fluxo inaceitável” de drogas ilegais (incluindo migrantes sem documentos) para os Estados Unidos, em referência ao fentanil.
“Permitiram que o fentanil entrasse no nosso país em níveis nunca antes vistos”, garantiu, no discurso ao Congresso. Essa droga matou 87 mil pessoas por overdose entre outubro de 2023 e setembro de 2024, o menor número desde 2020. A Casa Branca tem defendido que essa epidemia é culpa dos mexicanos (com os cartéis), dos canadianos (com os laboratórios) e os chineses (com os produtos químicos).
O efeito de querer lavar ‘made in USA’
Não é preciso ir muito longe para ver como a história mostra que as tarifas são uma fórmula desaconselhável. O próprio Trump, no seu primeiro mandato (2016-2020), aprovou impostos sobre importações e o resultado, segundo pesquisas académicas, foi que acabaram por prejudicar as empresas americanas e os seus consumidores, que acabaram por pagar preços mais altos. Além disso, o Estado não arrecadou mais, mas sim o contrário, pois apesar de cobrar mais do país exportador, arrecadou menos em impostos individuais e corporativos.
Foi o chamado “efeito máquina de lavar”. Em 2018, Trump decidiu que a lavagem de roupas deveria ser feita de uma forma mais patriótica e impôs um imposto sobre máquinas de lavar estrangeiras, que estavam a mostrar-se muito mais baratas, o que considerou uma concorrência desleal.
O resultado da medida foi péssima para as famílias americanas, pois tiveram de pagar mais quando compraram uma máquina de lavar: a tarifa fez o preço deste eletrodoméstico aumentar 12%, apontou um estudo dos economistas Aaron Flaaen, Ali Hortacsu e Felix Tintelnot.
“Embora tenham sido criados alguns empregos, os consumidores pagaram um preço alto”, apontou Tintelnot, professor da Universidade Duke. No estudo foi revelado que por cada emprego americano criado na indústria da máquina de lavar, os americanos como um todo pagaram cerca de 820 mil dólares a mais. “Não foi um bom negócio para eles”, referiu o especialista à ‘BBC’.
Por enquanto, duas das principais redes de eletrodomésticos dos EUA, Best Buy e Target, já anunciaram que as tarifas impostas ao México, Canadá e China as obrigarão a aumentar os preços, e não apenas nas máquinas de lavar. Nas palavras de Inga Fechner, especialista em comércio global do ING, “no final, os consumidores arcam com o custo do conflito comercial”.





