Economia circular em África – Como internacionalizar a nossa economia neste continente de oportunidades?

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

O conceito de economia circular tem muito a ver com o meio ambiente e energias limpas, o reaproveitamento de resíduos de uma indústria para reciclar e utilizar noutra como matéria prima. O meu conceito tem a ver também com desenvolvimento sustentável, mas económico. Investir num país, transferir tecnologia e know-how, desenvolver, obter lucros mas voltar a reinvestir no mesmo país, como forma de desenvolvimento económico mas também do capital humano.  É forma de criar uma economia circular e a diferença entre Internacionalizar e exportar (ou outro tipo de presença internacional). Entre ter uma estratégia de curto prazo empresarial; ou ter uma economia “me too” ou uma “economia incremental e ou inovadora”. Esta lógica exige das empresas e dos Governos outras capacidades: melhores e mais eficientes processos e sistemas; pessoas com Skills mais elevados. Nomeadamente para a empresa que internacionaliza, saber gerir bem a diversidade cultural e intelectual, controlar à distância e estruturar bem as operações.

Entendo também que o nosso País deve internacionalizar primordialmente as áreas cluster de negócio mais inovadoras do nosso país, tais como: Energia renovável e limpas, telecomunicações, saúde e biotecnologia, agroindústria de precisão com utilização de recursos naturais locais, indústria de moldes / têxteis / calçado / vinho e cortiça, construção (novos mas também modernização de recursos), treino e desenvolvimento de conhecimento (criação de polos universitários e redes de R&D). E porquê? Porque nestas áreas acrescentamos valor, não dependem exclusivamente de preço baixo, diferenciamo-nos pela inovação, marca, qualidade, de outros fornecedores oriundos de mercados de baixo preço.

E qual o nosso scope de mercado: toda a África Subsariana, que é composta por 46 países, todos diferentes, com necessidades diferentes, modo de concretizar negócios de forma diferente. Os PALOPs claro, mas também a Zâmbia, Senegal, Mauritânia, Namíbia, Tanzânia, Mauritânia, Quénia (pacote legislativo que facilita IDE em 2025), entre outros; e avaliar bem a entrada em mercados mais difíceis (pelo seu grau de desenvolvimento e concorrência interna), muito apetecíveis pela dimensão, como África do Sul e Nigéria.

Esta multiplicidade de países, deve ser bem avaliada ao nível de inúmeros riscos: as pautas aduaneiras, legislação , transporte e desalfandegamento, custos de contexto, problema das divisas e repatriamento de lucros, desvalorização moeda, inflação, perda de poder de compra, protecionismo com limitação de importações, “black economic empowerment” (sócios locais), volatilidade característica dos fluxos de investimento em África, vulnerabilidade face à evolução dos preços dos produtos primários e commodities (petróleo ex), pib baixo de alguns países, a corrupção e a fragilidade das instituições políticas (impedem a distribuição justa dos recursos proporcionados pelas riquezas naturais), o caos das doenças graves e epidemias, a miséria de alguns segmentos que provoca desnutrição e fome, falta de saneamento básico e estruturas de atendimento em saúde, problemas de abastecimento de energia, a falta de capital humano e nalguns casos os conflitos armados. Ou seja muitos riscos, mas quanto maiores riscos, maior o benefício. E as inúmeras oportunidades que temos como: oportunidade de transferir tecnologia e não apenas bens transacionáveis, a possibilidade de ser a porta de entrada noutros mercados Africanos, o surgimento de novas e inúmeras necessidades com o Boom económico, a baixa industrialização, a idade média da população…

Mas como internacionalizar para estes mercados? A construção e desenvolvimento de infraestruturas são fundamentais e a exploração dos recursos naturais (commodities) também. Apelativos mas de curto prazo, sem acrescentar valor e voláteis aos Preços  da procura. Devem ser utilizados como meio de criação de riqueza imediata e de investimento numa sociedade de conhecimento e empreendedorismo, que leva uma geração a criar. E Portugal tem todas as condições para estar presente em ambos os processos de desenvolvimento. Portugal é o 12 país do mundo a criar produtos de alto valor acrescentado (segundo a Universidade de Harvard com o registo de 39 produtos). Portanto temos de gerir bem o PPP. Ou seja:

                – Processo: apenas as empresas capitalizadas devem arriscar a internacionalização, os investimentos devem ser de médio prazo, o objectivo deve ser de complementaridade regional, o controle e report de gestão tem de ser eficaz e muito regular, a gestão de tesouraria é um factor crítico de sucesso, o conhecimento elevado da fiscalidade nacional e regional, o forte suporte das entidades governamentais do país de origem, a garantia de repatriamento lucros devidos, a definição de regras de ética e transparência claras, provisionar sempre de forma prudente todos os riscos , definir preços de acordo com mercado local e não de origem, garantir transporte e desalfandegamento com qualidade, forte suporte legal local.

                – Pessoas: o capital humano é um factor fundamental e deve ser nacional do país de destino, com permanente formação dos recursos humanos, recompensar a meritocracia, proporcionar com mérito o “black economic empowerment”, implementar um racional de responsabilidade social. Sabemos que a cultura corporativa leva tempo a criar e a paciência é algo que temos ter. Recordar que temos competências funcionais mas que nos falta muita organização e liderança das nossas organizações (30% do diferencial de produtividade vem daqui), que se agrava ainda mais nestes mercados. A flexibilidade, resiliência e capacidade de adaptação são fundamentais nestes mercados.

                – Finalmente os Produtos (e empresas): pensar sempre em produtos de valor acrescentado e inovadores, com qualidade, que possam ser implementados em clusters regionais e sectoriais, desenvolver parcerias colaborativas, pensar a médio e longo prazo, facilitar a transformação produtiva , criar uma cultura local de inovação, com adaptação ao mercado local, garantindo a manutenção, salvaguardando as patentes e propriedade intelectual.

Em tempos de crise, alguns choram e outros vendem lenços de papel. Temos neste continente, a oportunidade de “vender lenços de papel”, apoiando o desenvolvimento da economia mas também da sociedade, de uma forma sustentável e de longo prazo!

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