Eclipse total do Sol acontece esta quarta-feira e só volta a Portugal em 2144: guia completo para não perder nada

É o primeiro eclipse total do Sol visível em Portugal continental desde 1912. E quem perder a totalidade desta quarta-feira terá uma espera ainda maior pela frente: o próximo eclipse total do Sol em território português está previsto apenas para 2144

Francisco Laranjeira

Olhe para o céu ao final da tarde desta quarta-feira e vai assistir a algo que Portugal não vive há 114 anos. A Lua vai atravessar o disco solar, a luz perderá intensidade, a temperatura poderá baixar, as sombras vão mudar e, numa pequeníssima faixa do nordeste transmontano, o Sol desaparecerá por completo durante alguns segundos.

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É o primeiro eclipse total do Sol visível em Portugal continental desde 1912. E quem perder a totalidade desta quarta-feira terá uma espera ainda maior pela frente: o próximo eclipse total do Sol em território português está previsto apenas para 2144.

Mas os tão falados 26 segundos contam apenas uma pequena parte da história.

O fenómeno prolonga-se por aproximadamente duas horas. De acordo com a Direção-Geral da Saúde (DGS), o eclipse começa em Portugal por volta das 18h33, atinge o máximo cerca das 19h30 e termina perto das 20h23, embora os horários exatos variem consoante a localização.

E não é preciso estar no local onde o Sol desaparece totalmente para assistir a um fenómeno excecional. Em praticamente todo o continente, mais de 90% do disco solar ficará escondido pela Lua. Os valores aproximam-se dos 100% à medida que se avança para nordeste.

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Este é o guia para saber quando olhar, para onde olhar, onde procurar um bom local, o que vai acontecer à luz, à temperatura e aos animais — e, sobretudo, como observar tudo sem colocar a visão em risco.

A que horas começa o eclipse?

O primeiro contacto da Lua com o disco solar acontece pouco depois das 18h30, começando pelo norte do país.

A partir daí, a Lua vai avançar lentamente sobre o Sol durante aproximadamente uma hora.

O momento de maior ocultação ocorre entre cerca das 19h30 e 19h38, dependendo da região, avançando de norte para sul.

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Depois, o processo inverte-se: a Lua começa lentamente a abandonar o disco solar.

Por isso, os 26 segundos tantas vezes associados ao eclipse não correspondem à duração do fenómeno. Referem-se apenas ao curto período de totalidade que poderá ser observado numa pequena zona de Portugal.

O espetáculo completo dura quase duas horas.

Onde é que o Sol vai desaparecer completamente?

Apenas uma estreita faixa do Parque Natural de Montesinho, no concelho de Bragança, ficará dentro da zona de totalidade.

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Rio de Onor e Guadramil estão entre as localidades portuguesas abrangidas, onde será possível assistir durante alguns segundos ao desaparecimento completo do disco solar.

É uma diferença aparentemente pequena em relação aos locais onde a ocultação chega aos 99%, mas astronomicamente enorme.

Enquanto permanecer visível uma pequena fração do Sol, continua a tratar-se de um eclipse parcial. Só quando o último fragmento da fotosfera desaparece é possível observar fenómenos característicos da totalidade, como a coroa solar e o chamado “anel de diamante”.

No restante continente, o eclipse será parcial, com níveis de ocultação que poderão variar aproximadamente entre 92% e 99%.

Nas regiões autónomas, a percentagem será menor, rondando os 75%.

Bragança mudou os planos devido ao risco de incêndio

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Quem estiver a pensar viajar até Rio de Onor ou Guadramil deve ter em conta as limitações impostas devido ao risco de incêndio.

O programa organizado de observação inicialmente previsto para estas localidades foi transferido para o Aeródromo Municipal de Bragança.

O acesso às aldeias da zona da totalidade foi condicionado para evitar grandes concentrações de pessoas numa área florestal particularmente vulnerável.

No aeródromo de Bragança, a ocultação ficará muito próxima da totalidade, embora o Sol não desapareça completamente.

Então vale a pena atravessar o país até Bragança?

Depende do que procura.

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Para quem quer experimentar a totalidade — ver desaparecer o último fragmento do Sol, observar a coroa solar e sentir a alteração abrupta da luminosidade — a resposta é sim. Essa experiência só existe dentro da estreita faixa de totalidade.

Mas para simplesmente assistir a um eclipse extraordinariamente profundo, não é necessário percorrer centenas de quilómetros.

Em grande parte de Portugal continental, mais de 90% do Sol ficará escondido. Um eclipse de 95%, 97% ou 98% continuará a provocar alterações muito percetíveis na luz e na paisagem e será, para a maioria dos portugueses, o eclipse solar mais profundo das suas vidas.

Há algo mais importante do que a percentagem: conseguir ver o horizonte

Escolher um local com 98% de ocultação não serve de muito se uma montanha esconder o Sol precisamente no momento do máximo.

Este eclipse tem uma particularidade decisiva: acontece ao final da tarde.

Por volta das 19h30, o Sol estará apenas cerca de 9 a 11 graus acima da linha do horizonte. Um prédio, uma encosta, árvores ou qualquer outro obstáculo podem ser suficientes para estragar a observação.

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A regra é simples: procure um local com horizonte completamente desimpedido para oeste/noroeste.

Há até um teste que pode fazer antes: vá ao local escolhido na véspera e veja o pôr do sol. Se conseguir acompanhar o Sol até desaparecer no horizonte sem obstáculos, encontrou um bom lugar.

Praias, cabos e planícies podem ser melhores do que locais muito altos

Não é obrigatório subir a uma montanha ou procurar o ponto mais alto da região.

Neste eclipse, uma praia com o horizonte completamente aberto pode proporcionar melhores condições do que um miradouro mais elevado rodeado por serras.

No Norte, o litoral entre Moledo, Afife, Cabedelo e Esposende oferece horizonte aberto sobre o Atlântico. No Centro, Peniche, Baleal, Nazaré, Figueira da Foz, Cabo Mondego e zonas da Serra da Estrela surgem entre as possibilidades.

Na região de Lisboa, Cabo da Roca, Guincho, Cabo Raso, Ericeira, praias de Sintra, Meco, Cabo Espichel, Troia e Comporta oferecem igualmente horizontes favoráveis.

No Alentejo, Alqueva, as planícies, Marvão, Serra de São Mamede e a costa entre Milfontes e Porto Covo podem proporcionar boas condições.

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No Algarve, Sagres, Cabo de São Vicente, Costa Vicentina e praias do Barlavento permitem acompanhar o Sol sobre o oceano, embora a eventual presença de brumas ou nuvens baixas junto ao horizonte possa ser determinante.

O que vai acontecer à luz?

Não espere que o dia se transforme subitamente em noite — sobretudo fora da faixa de totalidade.

A transformação será progressiva.

Nos primeiros minutos, quase nada parecerá diferente. À medida que a Lua avançar, o Sol começará a transformar-se num crescente cada vez mais fino.

Depois, a luz muda.

A paisagem poderá adquirir uma tonalidade descrita como metálica, fria ou quase artificial. As cores tornam-se menos saturadas e os contrastes aumentam.

Há ainda um efeito particularmente curioso de procurar debaixo das árvores.

A luz que atravessa os pequenos espaços entre as folhas funciona como uma série de minúsculas câmaras e projeta no chão a forma do Sol. Em vez das habituais manchas circulares de luz, poderão surgir dezenas de pequenos crescentes.

Pode mesmo ficar mais frio

Sim.

À medida que a Lua cobre o Sol, diminui a quantidade de energia solar que chega à superfície. O solo deixa de aquecer ao ritmo habitual e o ar junto à superfície pode arrefecer.

Em eclipses totais já foram registadas descidas de vários graus, embora o valor dependa das condições meteorológicas, do vento, do tipo de terreno e da profundidade do eclipse.

A DGS chama ainda a atenção para outras alterações que podem acompanhar um eclipse profundo: mudanças locais do vento, redução do ruído ambiente e alterações no comportamento de plantas e animais.

Os animais também podem achar que chegou a noite

Há observações de aves que deixam de cantar ou procuram os locais onde habitualmente passam a noite, enquanto insetos noturnos podem começar a emitir sons associados ao entardecer.

Outros animais podem simplesmente reduzir a atividade.

Não significa que isto acontecerá em todos os locais ou com todas as espécies. A reação depende da intensidade da alteração da luminosidade, das condições meteorológicas e dos animais presentes.

Mas quem estiver numa zona rural ou natural deve prestar atenção não apenas ao céu, mas também aos sons em redor.

A regra mais importante: nunca olhe diretamente para o Sol

Há um cuidado que não admite exceções durante as fases parciais: não olhar diretamente para o Sol sem proteção adequada.

A presidente do Colégio de Oftalmologia da Ordem dos Médicos, Joana Ferreira, alerta que a observação direta pode provocar uma queimadura da retina — retinopatia solar.

Entre os sintomas possíveis estão diminuição da visão central, aparecimento de uma mancha escura no campo visual, visão distorcida e alterações na perceção das cores.

E os danos podem ser irreversíveis.

A DGS salienta que bastam alguns segundos de exposição para causar lesões na retina e que, numa situação extrema, pode ocorrer perda irreversível de visão.

Que óculos devo utilizar?

A DGS recomenda exclusivamente óculos próprios para observação de eclipses, certificados de acordo com a norma ISO 12312-2 e com marcação CE.

Óculos de sol normais não servem.

Também não servem radiografias, CD, negativos fotográficos, vidros fumados ou outras soluções improvisadas.

Outro ponto importante: antes de colocar os óculos, confirme que não estão danificados, riscados ou perfurados.

Atenção: há óculos para eclipses que foram retirados do mercado

A proximidade do eclipse levou também as autoridades espanholas a emitir alertas relativos a vários produtos destinados à observação solar.

Foram identificados seis nomes: Lionstar, ECP Eye Care Professional, Pelispan, Homanaje, Orro e Opticalia.

No caso da Orro, o alerta refere especificamente o modelo O37-R, lote 2603-01, fabricado em março de 2026. Entre os restantes produtos encontra-se também o modelo QW-50Z1 da Homanaje.

As autoridades determinaram, consoante os casos, a retirada, imobilização ou proibição de comercialização.

Curiosamente, o problema não é os filtros deixarem passar luz a mais, mas poderem ser excessivamente escuros.

Segundo os alertas, a transmitância encontra-se abaixo do mínimo estabelecido. Isso pode fazer com que o utilizador não consiga encontrar o Sol através dos óculos e seja tentado a levantá-los ou retirá-los momentaneamente enquanto continua virado para o astro.

É precisamente nesses segundos sem proteção que os olhos ficam expostos à radiação solar.

A associação espanhola FACUA advertiu que problemas semelhantes poderão eventualmente existir noutros produtos vendidos ou distribuídos nos últimos meses.

E as crianças?

A vigilância deve ser redobrada.

Joana Ferreira alerta particularmente para a curiosidade das crianças e para a possibilidade de tentarem “espreitar” o Sol sem proteção.

A DGS vai mais longe no caso dos mais pequenos: bebés e crianças pequenas não devem olhar diretamente para o Sol, mesmo utilizando óculos para eclipse.

As restantes crianças que utilizem óculos certificados devem estar sempre acompanhadas por um adulto, que garanta que a proteção permanece corretamente colocada durante a observação.

Sempre que existam dúvidas, podem ser utilizadas formas indiretas de acompanhamento, como projeções da imagem solar ou transmissões em direto.

Posso usar binóculos ou um telescópio?

Nunca sem equipamento específico.

Binóculos, telescópios, prismáticos e teleobjetivas concentram a radiação solar e podem tornar uma observação desprotegida ainda mais perigosa.

Estes equipamentos necessitam de filtros solares próprios colocados à frente da objetiva — não junto da ocular.

Quem não tenha experiência com este tipo de material fará melhor em recorrer a sessões organizadas por observatórios, centros Ciência Viva ou associações de astronomia.

E fotografar com o telemóvel?

Também exige cuidado.

Apontar diretamente uma câmara para o Sol pode danificar o sensor e a lente do equipamento. Os óculos de eclipse protegem os olhos, não protegem a câmara.

Para fotografar diretamente o disco solar deve ser utilizado um filtro adequado à frente da lente.

Num telemóvel, pode também ser mais interessante esquecer o zoom digital e fotografar a paisagem, as pessoas e a alteração da luminosidade em vez de tentar obter uma imagem ampliada do Sol.

Quem utilizar máquinas fotográficas com objetivas intercambiáveis deve igualmente colocar o filtro solar na frente da objetiva.

E durante a condução?

A DGS alerta também para o risco de acidentes associados à distração.

Não tente observar ou fotografar o eclipse enquanto conduz.

Além da distração provocada pelo fenómeno, alterações temporárias da luminosidade e comportamentos inesperados de outros condutores ou peões podem aumentar o risco.

A autoridade de saúde recomendou também aos empregadores que informem os trabalhadores sobre o fenómeno e adotem medidas preventivas, sobretudo quando as funções envolvam condução ou trabalho no exterior.

Como perceber se os olhos foram afetados?

Há um problema adicional nas lesões provocadas pela observação solar: os sintomas podem não surgir imediatamente.

A DGS recomenda atenção a sinais como visão turva ou distorcida, manchas ou pontos negros no campo visual, alterações na perceção das cores, diminuição ou perda súbita da visão e dor ocular intensa.

Perante estes sintomas durante ou depois do eclipse, a recomendação das autoridades de saúde é procurar imediatamente aconselhamento médico.

Porque é que 99% não é praticamente igual a 100%?

É uma das curiosidades mais importantes deste eclipse.

Matematicamente, a diferença parece mínima. Visualmente, não é.

A superfície visível do Sol é tão brilhante que mesmo uma pequeníssima fração descoberta continua a iluminar intensamente a paisagem e impede que a coroa solar seja observada.

Só no instante em que desaparece o último fragmento luminoso ocorre a totalidade: a luminosidade cai abruptamente, a coroa torna-se visível e podem surgir estrelas e planetas mais brilhantes no céu.

Por isso, um eclipse de 99% continua tecnicamente a ser um eclipse parcial.

Mas isso não significa que seja pouco impressionante.

Uma coincidência de 400 vezes torna tudo possível

Há ainda uma extraordinária coincidência cósmica por detrás dos eclipses totais.

O Sol tem aproximadamente 400 vezes o diâmetro da Lua, mas encontra-se também cerca de 400 vezes mais distante da Terra. Vistos daqui, os dois discos apresentam, por isso, tamanhos aparentes semelhantes.

É essa coincidência que permite à Lua esconder o Sol.

E não será assim para sempre.

A Lua afasta-se lentamente da Terra, cerca de 3,8 centímetros por ano. Daqui a milhões de anos estará suficientemente distante para já não conseguir ocultar completamente o Sol e os eclipses solares totais deixarão de acontecer.

Portugal esperou 114 anos. Depois deste serão mais 118

A dimensão histórica do eclipse desta quarta-feira percebe-se olhando para trás.

Em 28 de maio de 1900, um eclipse total atravessou Portugal de oeste para leste. O fenómeno atraiu milhares de pessoas, incluindo cerca de 25 mil a Ovar.

Doze anos depois, em 17 de abril de 1912, o país voltou a assistir a um eclipse total. Astrónomos portugueses e estrangeiros instalaram equipamentos para estudar e registar o fenómeno.

Depois disso, passaram 114 anos sem que a sombra central da Lua voltasse a atravessar Portugal continental.

Até esta quarta-feira.

Depois de 12 de agosto de 2026, será preciso esperar ainda mais: o próximo eclipse total do Sol em território português está previsto para 2144.

Antes disso haverá outros eclipses visíveis a partir do país — incluindo um eclipse anular em 26 de janeiro de 2028 — mas não outro total como este.

São 114 anos desde o último. E 118 anos até ao próximo.

Por isso, talvez o melhor conselho para esta quarta-feira seja também o mais simples: encontre um horizonte aberto, leve proteção certificada, chegue cedo e, quando o eclipse se aproximar do máximo, não passe todo o tempo a olhar para o ecrã do telemóvel.

Porque as fotografias ficam. Mas, como resume o astrofísico Pedro Machado, “ver um eclipse é uma memória que nos acompanha o resto da vida”.

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