É um dos efeitos menos falados da guerra no Médio Oriente: falta de hélio ameaça chips, carros e smartphones

Apesar de ser mais conhecido pelo uso em balões, o hélio tem um papel crítico na indústria dos semicondutores

Francisco Laranjeira

O petróleo e o gás têm dominado a atenção desde o início da guerra, no entanto, há um outro problema muito menos visível e potencialmente explosivo para a indústria tecnológica: a escassez de hélio. Este gás, praticamente invisível no debate público, salientou a publicação ‘El Economista’, está a começar a provocar cortes de produção e pode tornar-se uma ameaça séria para o fabrico de chips.

Apesar de ser mais conhecido pelo uso em balões, o hélio tem um papel crítico na indústria dos semicondutores. É utilizado como refrigerante no fabrico de wafers de silício e também na limpeza dos resíduos gerados pelo processo industrial, sendo uma peça importante na produção levada a cabo por gigantes como a TSMC, a Samsung ou a SK Hynix.

O problema é que o hélio depende de uma cadeia de produção e transporte extremamente delicada. Na Terra, este gás é normalmente extraído como subproduto do gás natural e exige processos caros de liquefação e de manuseamento. Como os seus pontos de ebulição e fusão estão muito próximos do zero absoluto, o armazenamento e o transporte tornam-se especialmente complexos e sensíveis.

É aqui que entra o Qatar. O país é um dos maiores produtores mundiais de hélio, a par dos Estados Unidos, graças à sua enorme capacidade de processamento de gás natural liquefeito. No centro desta produção está Rass Laffan, a maior unidade de hélio do mundo, cuja infraestrutura foi atingida durante o conflito e deverá ficar condicionada durante anos.

Essa é uma das razões que explicam o alarme crescente no setor. De acordo com especialistas, o Qatar representa cerca de um terço da produção mundial de hélio, o que faz deste dano colateral uma das consequências mais sensíveis da guerra para a indústria tecnológica. A recuperação da produção perdida deverá demorar entre três e cinco anos, segundo a empresa que opera a instalação.

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O efeito no mercado já se faz sentir. Segundo dados citados pelo ‘El Economista’, os preços do hélio mais do que duplicaram desde o início do conflito. A Capital Economics alerta que a situação pode mesmo levar à paragem da produção dos chips mais avançados, sublinhando tratar-se de um material insubstituível numa altura em que as reservas já estavam muito baixas.

A S&P Global considera que a escassez ainda é gerível no imediato, mas admite que o hélio é o produto sob maior risco entre os vários subprodutos afetados pela crise. Mesmo que as empresas tenham stock para alguns meses e consigam diversificar parcialmente o abastecimento, a limitação no fornecimento poderá travar a expansão da capacidade e afetar dezenas de mercados.

O receio é partilhado por empresas do setor. A Air Liquide, líder mundial na produção e distribuição de gases industriais, já confirmou o impacto da situação e admitiu que existe atualmente uma escassez de hélio devido aos ataques a campos de gás natural no Médio Oriente. Também a Tidal Wave Solutions alertou que as empresas podem ser forçadas a reduzir produção ou, em casos mais extremos, a interrompê-la completamente.

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As fabricantes de chips asiáticas surgem entre as mais expostas. TSMC, Samsung Electronics e SK Hynix são particularmente vulneráveis, não só pela dimensão da produção, mas também pela dependência geográfica do hélio exportado pelo Qatar. A Coreia do Sul importa diretamente daquele país 65% do seu hélio e as reservas atuais, segundo Samsung e Hynix, poderão durar apenas entre quatro e seis meses.

No caso da TSMC, a situação parece ainda mais apertada. Um analista refere que, no final do mês passado, a empresa teria reservas suficientes apenas até meados de maio. Também a China surge como mercado altamente exposto, importando 54% do seu hélio do Qatar.

Há, no entanto, uma possível via de escape. A Rússia é também um produtor importante e poderá tornar-se alternativa para alguns compradores asiáticos. Ainda assim, a conclusão é clara: depois do petróleo e do gás, a guerra abriu uma nova frente silenciosa, menos mediática, mas com capacidade real para atingir eletrónicos, automóveis, smartphones e toda a cadeia global dos semicondutores.

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