E se os fantasmas começarem no cérebro? A explicação científica para as experiências paranormais

Ver um fantasma pode parecer uma experiência impossível de explicar. Mas há investigadores que defendem que, em muitos casos, o cérebro pode estar apenas a tentar dar sentido a sinais ambíguos

Francisco Laranjeira

Ver um fantasma pode parecer uma experiência impossível de explicar. Mas há investigadores que defendem que, em muitos casos, o cérebro pode estar apenas a tentar dar sentido a sinais ambíguos. Num artigo divulgado pelo ‘Daily Mail’, a professora Melissa Maffeo, da Wake Forest University, nos Estados Unidos, aponta três fatores que podem tornar algumas pessoas mais propensas a experiências paranormais: o ambiente, pequenos desencontros neurológicos e certos traços de personalidade.

A questão está longe de ser marginal. Os dados citados pelo tabloide britânico indicam que cerca de um terço das pessoas em Inglaterra acredita em fantasmas. Para a especialista, isso não significa necessariamente que haja algo sobrenatural em jogo. Significa, antes, que o cérebro humano pode interpretar de forma extraordinária estímulos que têm uma origem perfeitamente comum.

“Talvez uma tempestade perfeita de fatores do dia a dia possa convergir e desencadear a sensação de uma experiência paranormal”, escreveu Melissa Maffeo. A ideia central é simples: quando uma pessoa já acredita em fantasmas e se encontra perante uma sensação estranha, o cérebro pode preencher as lacunas com a explicação que lhe parece mais familiar.

O primeiro fator está no ambiente. Programas de caça-fantasmas costumam usar aparelhos para medir campos eletromagnéticos, zonas invisíveis de energia criadas por partículas eletricamente carregadas. Estudos realizados em locais associados a relatos de assombrações, como as caves de Edimburgo ou o Hampton Court Palace, em Inglaterra, encontraram variações maiores desses campos em áreas com histórico de fenómenos inexplicados.

A professora admite que algumas pessoas podem estar a sentir essas alterações ambientais e a atribuí-las a uma presença sobrenatural. A pergunta, diz, é saber se foi “o fantasma” que causou a alteração eletromagnética ou se foi essa alteração que ajudou a criar a sensação de fantasma.

Continue a ler após a publicidade

Ainda assim, a relação não está provada. Um grupo de investigadores chegou a criar uma “sala assombrada”, variando diferentes frequências de campos eletromagnéticos, para perceber se os participantes sentiam algo invulgar. Houve relatos de tonturas, sensação de separação do corpo e perceção de uma presença, mas essas experiências não corresponderam de forma clara às alterações ambientais feitas pelos investigadores.

Quando o cérebro acorda antes do corpo

A segunda explicação passa pelo cérebro. Melissa Maffeo destaca o papel da junção temporoparietal, uma zona cerebral envolvida na sensação de que habitamos o nosso próprio corpo. Quando esta perceção falha ou se baralha, podem surgir sensações estranhas, incluindo a impressão de estar fora do corpo ou de haver outra presença por perto.

Continue a ler após a publicidade

Um dos exemplos mais conhecidos é a paralisia do sono. Durante a fase REM, em que ocorrem muitos dos sonhos mais vívidos, o cérebro bloqueia os movimentos dos músculos para impedir que a pessoa “represente” fisicamente aquilo que está a sonhar. É um mecanismo de proteção. Mas há quem acorde durante essa fase e perceba que não se consegue mexer.

Nesses momentos, a pessoa pode continuar a ter imagens, sons ou sensações vindas do sonho, ao mesmo tempo que já está parcialmente consciente. A mistura pode ser assustadora. Como falta informação sensorial coerente, o medo ajuda a transformar fragmentos do sonho em algo que parece real. É por isso que muitas pessoas descrevem uma sombra, uma figura no quarto ou uma presença junto à cama.

Aqui, o fantasma pode ser menos uma aparição e mais um erro de sincronização: o cérebro já acordou, mas o corpo ainda está preso ao estado de sono.

Acreditar pode fazer a diferença

O terceiro fator está na personalidade e nas crenças. Segundo a especialista, há investigação que sugere que pessoas com determinados traços são mais propensas a acreditar no paranormal. Entre eles estão a tendência para sentir presenças, ter pensamentos mais distorcidos ou adotar crenças mágicas, um conjunto de características frequentemente associado à chamada esquizotipia.

Continue a ler após a publicidade

Isto não significa, por si só, doença mental. Significa que algumas pessoas podem estar mais predispostas a interpretar acontecimentos ambíguos como sinais de algo sobrenatural. Quando essa predisposição se cruza com uma sensação física estranha, uma noite mal dormida ou um ambiente carregado de estímulos, a experiência pode parecer muito convincente.

A própria Melissa Maffeo resume esta ideia com uma imagem eficaz: a crença no paranormal pode ser a “cola” que junta os vários fatores e transforma uma sensação invulgar na perceção de um fantasma. A crença, sozinha, pode não bastar. Mas combinada com estímulos ambientais, falhas neurológicas ou certos traços psicológicos, pode tornar a experiência muito real para quem a vive.

As casas antigas também ajudam à história

O ‘Daily Mail’ recorda ainda outro estudo, publicado este ano, que apontou para uma explicação curiosa para algumas sensações em edifícios antigos: o infrassom. Trata-se de som de frequência muito baixa, que os humanos normalmente não conseguem ouvir, mas que pode ser produzido por canalizações envelhecidas, sistemas de ventilação ou estruturas antigas.

Investigadores da MacEwan University, no Canadá, defenderam que uma breve exposição a infrassons pode alterar o humor e aumentar os níveis de cortisol, a hormona associada ao stress. Numa casa supostamente assombrada, essa agitação sem causa visível pode facilmente ser interpretada como uma presença sobrenatural.

O professor Rodney Schmaltz, um dos autores do estudo, dá o exemplo de alguém que entra num edifício antigo, se sente inquieto e não vê nem ouve nada de invulgar. Se já lhe disseram que o local é assombrado, essa sensação pode ser atribuída a um fantasma. Na prática, pode tratar-se apenas de vibrações de baixa frequência vindas de canos ou sistemas de ventilação.

É aqui que a ciência torna a história mais interessante, não menos. Em vez de se limitar a dizer que os fantasmas não existem, tenta perceber porque é que tantas pessoas têm experiências que lhes parecem reais. E a resposta pode estar na forma como o cérebro junta ambiente, medo, memória, sono e crença.

No fim, a pergunta talvez não seja apenas “viu um fantasma?”. Talvez seja também: estava num lugar estranho, acreditava no paranormal, dormiu mal ou sentiu algo que o corpo não conseguiu explicar? Para a ciência, é nessa combinação que muitas assombrações podem começar.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.