Vladimir Putin há muito que tem questionado a legitimidade de Volodymyr Zelenky como presidente da Ucrânia: Donald Trump considerou-o um “ditador” e apelo à realização de eleições no país.
A eleição presidencial estava marcada para 31 de março de 2024, a ser realizada no último domingo de março do quinto ano do atual presidente no cargo, conforme dita a Constituição ucraniana. Mas a invasão russa tornou isso impossível: isto porque, em fevereiro de 2022, quando as tropas russas entraram em território ucraniano, o Governo declarou lei marcial e eleições não podem ser realizadas enquanto a lei marcial estiver em vigor.
Por isso, a realização de eleições na Ucrânia fará necessariamente parte de um hipotético acordo de paz? Alguém quer tirar a presidência de Zelensky? Estará Trump a tentar dar essa ‘prenda’ a Putin como parte das negociações?
De acordo com a publicação espanhola ’20Minutos’, o partido do atual presidente ucraniano tem maioria absoluta no Parlamento. Mas caso houvesse eleições, quem poderia concorrer? Quais seriam os principais candidatos?
Oleksi Arestovich
Nascido na Geórgia em 1975, filho de pai polaco-bielorrusso e mãe russa, Arestovych passou grande parte da sua infância na Bielorrússia. Foi ator, soldado e colunista político, e tem estudos em psicologia e ampla formação filosófica. Com esse perfil, tornou-se a figura pública mais crítica de Zelensky, apesar do facto de ter sido, nos primeiros meses da invasão russa, conselheiro do gabinete do presidente.
Fã da provocação, foi o responsável por tranquilizar a opinião pública com vídeos que publicava todas as noites no ‘YouTube’ para transmitir serenidade e confiança aos seus compatriotas. O seu carisma e a confiança que ele irradiava fizeram dele a personalidade mais apreciada pelos ucranianos depois de Zelensky.
Renunciou no início de 2023, mas, uma vez fora do poder, continuou muito ativo nas rede sociais e em vários talk shows no ‘YouTube’, sendo que uma das críticas mais recorrentes de Arestovich é dirigida à política linguística: ao contrário de muitos dos seus compatriotas de língua russa, que abandonaram a sua língua nativa após a invasão para falar ucraniano em público, Arestovich continua a usar a língua dos seus pais na maioria dos seus discursos.
Nas suas mensagens, tem criticado as supostas falhas do Governo Zelensky no combate à corrupção, acusando o presidente de ter “destruído as relações com os nossos vizinhos mais próximos”, referindo-se ao seu distanciamento da Polónia.
Petro Poroshenko
A 21 de abril de 2019, um comediante e um oligarca disputaram a segunda volta da eleição presidencial na Ucrânia: Zelensky e Petro Poroshenko. O primeiro venceu e hoje é o presidente do país. O segundo era o presidente ucraniano na época e perdeu.
Poroshenko é deputado popular da Verkhovna Rada [Parlamento ucraniano] e líder do partido Solidariedade Europeia. Foi um proeminente oligarca ucraniano com uma carreira lucrativa na aquisição e construção de ativos. A sua marca mais conhecida é a ‘Roshen’, uma grande empresa de confeitaria que lhe rendeu o apelido de “rei do chocolate”.
Poroshenko entra em conflito com Zelensky não apenas porque são de partidos diferentes e não apenas por causa da situação atual do país e da guerra: em causa está a lei aprovada na Ucrânia, no final de 2021, anti-oligarquia, o que afetou a fortuna de Poroshenko, que foi obrigado a vender o seu canal de notícias de televisão.
Entre 2014 e 2019, enquanto foi presidente e o país mergulhava numa crise económica, a fortuna de Poroshenko aumentou em 400 milhões de dólares: em dezembro de 2022, era o quinto homem mais rico do país, com cerca de 1,6 mil milhões de dólares, segundo a revista ‘Forbes’.
Em dezembro de 2023, o oligarca foi detido na fronteira e impedido de viajar para o exterior. De acordo com o Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), o ex-presidente planeava encontrar-se com o “amigo de Putin”, o primeiro-ministro húngaro Viktor Orban. Em 2024, Poroshenko anunciou a sua intenção de participar das próximas eleições presidenciais ucranianas, quando elas ocorrerem.
Em maio último, foi colocado numa lista de pessoas procuradas pelo Governo russo por acusações criminais não especificadas. Em outubro, Poroshenko doou um milhão de dólares em drones para as Forças Armadas ucranianas. Entretanto, em 2025, foi sancionado por Zelensky por suspeita de alta traição e auxílio a uma organização terrorista.
Viktor Medvedchuk
É o candidato que Putin teria colocado no comando da Ucrânia se a invasão tivesse sido bem-sucedida. Viktor Medvedchuk é assumidamente pró-Rússia e uma figura controversa na Ucrânia pelos seus laços estreitos com o presidente russo. Em junho de 2014, Putin foi padrinho no batizado da filha de Medvedchuk.
De 1998 a 2001, foi o primeiro vice-presidente do Parlamento da Ucrânia e, entre 2002 a 2004, chefiou a administração da presidência de Leonid Kuchma. Medvedchuk apoiou o primeiro-ministro Viktor Yanukovych como candidato na eleição presidencial de 2004. Um ano depois, o ministro do Interior Yuri Lutsenko acusou-o de ser responsável pela fraude eleitoral a favor de Yanukovych que desencadeou a ‘Revolução Laranja’.
A 11 de maio de 2021, o procurador-geral da Ucrânia acusou Medvedchuk de traição e tentativa de pilhagem de recursos nacionais na Crimeia: foi colocado em prisão domiciliar, mas escapou dois dias após a invasão russa.
Medvedchuk foi o líder do partido político ‘Plataforma de Oposição pela Vida’, o segundo partido mais votado na Ucrânia até março de 2022. Em abril, foi detido pelo serviço secreto ucraniano enquanto tentava fugir do país e, em setembro, foi levado para a Rússia junto com 55 combatentes russos em troca de cerca de 200 prisioneiros do batalhão Azov.
Em 2023, o Parlamento destituiu-o do cargo de deputado: perdeu também a sua cidadania ucraniana e o direito de exercer a advocacia. Em abril daquele ano, já no exílio, Medvedchuk criou o movimento Ucrânia Diferente, uma organização que sustenta que o país é governado por nazis.
Valeri Zaluzhni
Era uma possibilidade, mas em 2023, quando era o comandante-em-chefe dos exércitos ucranianos, eram públicos os desentendimentos com Zelensky: o responsável militar era, na altura, mais popular do que o chefe de Estado e o gabinete presidencial estava “politicamente ciumento”.
Mas Zaluzhni tinha objetivos maiores? “Os seus apoiantes dizem que não tem ambições políticas, mas as pessoas que gostam dele acham que pode ser um bom presidente”, apontou Volodymyr Fesenko, analista político e diretor do Centro Penta de Estudos Políticos.
De qualquer forma, Zaluzhny foi demitido a 8 de fevereiro de 2024. No dia seguinte, o presidente Zelensky concedeu-lhe o título de Herói da Ucrânia. Algumas semanas depois, foi nomeado embaixador da Ucrânia no Reino Unido.





