E se a chave para travar um Super El Niño fosse… “branquear” as nuvens: cientistas estudam hipótese polémica

Proposta passa por injetar pequenas partículas, como sal marinho, na atmosfera para tornar as nuvens mais refletoras

Francisco Laranjeira

E se fosse possível enfraquecer o El Niño antes de este ganhar força? A ideia parece ficção científica, mas está a ser estudada por investigadores que querem perceber se nuvens artificialmente mais brilhantes sobre o Pacífico poderiam reduzir alguns dos efeitos mais extremos deste fenómeno climático.

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Segundo o ‘Daily Mail’, a proposta passa por injetar pequenas partículas, como sal marinho, na atmosfera para tornar as nuvens mais refletoras. Na prática, essas nuvens funcionariam como uma espécie de protetor solar natural, devolvendo mais radiação para o espaço e reduzindo o aquecimento que chega às camadas inferiores da atmosfera.

A técnica chama-se “branqueamento de nuvens marinhas” e integra o campo mais amplo da geoengenharia solar. Um estudo publicado na revista ‘Science Advances’ analisou precisamente se uma intervenção deste tipo, aplicada de forma localizada no Pacífico, poderia enfraquecer episódios fortes de El Niño. Os autores concluem, com base em simulações, que o método poderia reduzir a intensidade de alguns eventos extremos, embora sublinhem que os riscos e incertezas continuam elevados.

O El Niño é a fase quente de um ciclo climático natural do Pacífico tropical. Quando se intensifica, pode alterar padrões de chuva, vento e temperatura em várias partes do mundo, aumentando o risco de cheias, ondas de calor, secas, incêndios e perdas económicas. A fase oposta, La Niña, está associada ao arrefecimento das águas superficiais no Pacífico central e oriental.

A proposta em estudo não seria espalhar partículas pelo planeta inteiro, mas atuar numa zona específica do oceano, no momento certo. Segundo a Universidade da Califórnia em San Diego, uma intervenção deste tipo, feita antes de um Super El Niño, poderia aumentar em mais de 40% os efeitos de arrefecimento e secura associados a um padrão semelhante ao da La Niña.

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A inspiração veio de um episódio real. Os grandes incêndios que atingiram a Austrália em 2019 e 2020 lançaram enormes quantidades de fumo na atmosfera. Estudos anteriores indicaram que essas partículas alteraram nuvens no sudeste do Pacífico e podem ter contribuído para padrões atmosféricos semelhantes aos da La Niña. Os investigadores usaram esse “experimento natural” como ponto de partida para simular o que aconteceria se algo parecido fosse feito deliberadamente com partículas marinhas.

Nas simulações, os cientistas analisaram o que teria acontecido se o branqueamento de nuvens tivesse sido aplicado antes dos episódios fortes de El Niño de 1997 e 2015. O resultado sugeriu que a intervenção poderia ter suavizado o aquecimento no Pacífico equatorial, com maior efeito quanto mais cedo fosse iniciada.

A grande vantagem teórica desta abordagem é que seria temporária e direcionada. Em vez de usar geoengenharia para arrefecer o planeta durante décadas, a técnica poderia ser aplicada apenas para reduzir os picos de variabilidade climática natural. Jessica Wan, autora principal do estudo, defende que essa possibilidade poderia oferecer alguns benefícios da geoengenharia sem exigir uma intervenção permanente.

Mas o tema continua altamente controverso. A maioria dos cientistas continua a defender que a principal forma de reduzir os impactos das alterações climáticas é cortar emissões de gases com efeito de estufa. A geoengenharia, por outro lado, levanta dúvidas sobre efeitos secundários, alterações nos regimes de chuva, impacto nos oceanos, governação internacional e responsabilidade caso uma intervenção beneficie umas regiões e prejudique outras.

Os próprios investigadores reconhecem que um teste real em grande escala seria arriscado. Outras técnicas de geoengenharia, como a injeção de aerossóis na estratosfera, têm sido associadas em estudos a possíveis perturbações nos padrões globais de monções e noutras dinâmicas climáticas. É por isso que a hipótese de “mexer” nas nuvens do Pacífico é vista menos como solução pronta a usar e mais como uma pergunta científica difícil: até que ponto se pode intervir num sistema climático sem criar novos problemas?

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Ainda assim, a possibilidade está a ganhar atenção porque os custos de um Super El Niño podem ser enormes. Entre cheias, incêndios, falhas agrícolas, calor extremo e danos em infraestruturas, estes episódios podem ter impacto económico de larga escala. A promessa do branqueamento de nuvens seria reduzir parte dessa violência climática antes de ela se espalhar pelo planeta.

Para já, a ideia continua no domínio das simulações. Não há indicação de que uma intervenção deste tipo esteja prestes a ser aplicada ao atual El Niño. Mas o estudo mostra como a crise climática está a empurrar a ciência para territórios antes impensáveis: não apenas prever o tempo ou adaptar cidades, mas estudar formas de alterar temporariamente o comportamento de um dos grandes motores climáticos da Terra.

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