E então como vão os jornais?

Por Manuel Falcão
WWW.SFMEDIA.ORG

E então como vão os jornais?

Mais ou menos há um ano, com mira nas presidenciais norte-americanas, fiz uma assinatura online do New York Times a um preço promocional de um euro por mês, sendo que ao fim dos 12 meses sabia que, se quisesse continuar, o preço passaria para cerca de 9 euros. Foi um bom negócio e fartei-me de ler artigos não só de actualidade, como reportagens do Magazine de fim de semana e da secção de viagens, artes, música e televisão. Como era de esperar chegou um aviso a dizer que iria começar a pagar o aumento previsto – e resolvi cancelar. Recebi de imediato um pedido de chat na aplicação do jornal e, após alguma conversa com o interlocutor, ele disse-me que tinha uma oferta: continuar a assinatura por mais um ano por apenas quatro euros/mês. Aceitei. Vem esta história a propósito do custo de obter um assinante e das formas que uma empresa de mídia deve ter para assegurar receitas. O New York Times tem mais de cinco milhões de assinantes das suas edições online e é apontado como exemplo. O papel continua a vender, menos é claro, mas o online está a crescer – em assinaturas e receitas de publicidade – intimamente ligadas ao número de assinantes. Mark Thompson, o responsável da empresa que edita o New York Times, acredita que o papel vai coexistir com a edição digital durante mais 10 ou 15 anos, mas reconhece que dificilmente chegará a meados deste século. Passemos agora para Espanha – o diário El País, um dos mais prestigiados jornais mundiais, deixou de vender a sua edição em papel nos quiosques de outros países europeus onde estava e explicou que as vendas da edição impressa na Europa, fora de Espanha, tinham caído 90% nos últimos 10 anos. Há 14 meses o El Pais tomou idêntica decisão tanto nos EUA como na América Latina. Mesmo em Espanha, a edição em papel perdeu suplementos regionais e revistas. Quando anunciou a decisão a direcção explicou que mais de metade do total das receitas já vem das assinaturas digitais e das vendas de publicidade nas edições online – ultrapassando pela primeira vez as receitas obtidas através das edições impressas. Em Espanha a venda de jornais em banca caiu para metade nos últimos seis anos e só no ano passado a quebra foi de 23% em relação ao ano anterior.

E em Portugal, o que se passa?

Os números da Associação Portuguesa de Controlo de Tiragens, relativos aos totais de 2020, mostram que os três jornais diários generalistas auditados – Correio da Manhã, Público e Jornal de Notícias tiveram uma queda de 23,1% de circulação paga relativamente ao ano anterior. Em 2019 a quebra de circulação paga global relativa ao ano anterior havia sido de 7,9%, o que mostra o dramático efeito do confinamento e da pandemia nos hábitos de consumo dos media em Portugal. O estudo da APCT, que também abrange as edições digitais, salienta que em 2020 foi reforçada a tendência de crescimento da circulação digital paga na generalidade dos títulos. E sublinha que em alguns deles, casos do Público, Expresso e Diário de Notícias, esse aumento teve expressividade suficiente para equilibrar o saldo final da circulação paga.

Segundo a APCT Correio da Manhã mantém o estatuto de jornal diário com maior circulação impressa paga no mercado português, com uma média de 58.165 exemplares vendidos por edição em 2020, que compara com o Jornal de Notícias com uma média de circulação impressa paga de 28.172 exemplares e com o Público que teve uma venda média de 13.237 exemplares no último ano. O Expresso foi a única publicação a não sofrer uma alteração sensível – mantendo-se acima dos 56 mil exemplares de circulação paga por edição em 2020, praticamente o mesmo valor do ano anterior. No digital o Expresso liderou com uma circulação digital paga de 42.403 em 2020 face aos 27.688 registados em 2019. O Público, que permanece na segunda posição no digital, encerrou o ano com uma circulação digital de 34.696, que compara com os 23.956 registados em Fevereiro de 2020. O Observador não é auditado e seguem-se o Jornal de Notícias, com 7.273, o Diário de Notícias, com 3.519 e o Correio da Manhã, com 1.623 . Entre as newsmagazines, a Visão assumiu a liderança do segmento no digital ao ver a sua circulação digital paga disparar 64,2%, encerrando o ano nos 2.711 subscritores.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 180 de Março de 2021

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