A Conferência Episcopal Italiana (CEI) revelou esta quinta-feira que mais de 600 casos de denúncias de abusos sexuais na Igreja Católica estão “arquivados” no Vaticano desde o ano 2000.
O CEI revelou o primeiro relatório ‘Proteger, prevenir, educar’, que analisa o escândalo dos abusos sexuais no seio da Igreja Católica italiana, que foi alvo de fortes críticas por parte de associações que representam as vítimas, como a Rete L’Abuso, que diz que a contagem feita é “uma vergonha”: já que só se tiveram em conta 89 casos de abusos, relativos a denúncias ocorridas nos últimos dois anos (2020 e 2021).
Nestes 89 casos, 61 das vítimas eram menores. Foram identificados 68 abusadores, que incluem não apenas padres e outros membros do clero como também catequistas, professores e sacristãos.
O relatório não revela as centenas de casos, registados desde 2000 e arquivados no Vaticano, mas a revelação foi feita aos jornalistas pelo secretário-geral do CEI, o Monsenhor Giuseppe Baturi. O responsável adiantou que os 613 casos estão guardados no Dicastério para a Doutrina da Fé no Vaticano, e assinalou que alguns “terão sido arquivados”, e outros dizem respeito a múltiplas vítimas de um mesmo abusador.
“Temos de entender quantas vítimas existem, qual é o seu perfil, e quem são os responsáveis”, declarou.
A Conferência Episcopal sustenta que o trabalho não tinha como objetivo dar uma visão abrangente e histórica do problema dos abusos por membros do clero em Itália, mas sim avaliar o funcionamento dos ‘centros de denúncia’, criados em várias dioceses em 2019 para receber relatos de vítimas.
Os responsáveis adiantaram que a esta “primeira fotografia”, seguir-se-ão relatórios anuais sobre o problema.
Segundo a avaliação feita, mais de metade das vítimas tinha entre 15 e 18 anos quando os abusos ocorreram, 12 tinham menos de 15 anos e 16 eram adultos, mas considerados “vulneráveis”. A maioria das queixas feitas prendia-se com uso de linguagem inapropriada, toques e apalpões.
O Monsignor Lorenzo Ghizzoni, diretor do serviço nacional de proteção de crianças da Igreja Católica Italiana, nega que o Vaticano esteja a tentar esconder o historial de abusos.
“É altura de lavar a roupa suja”, defendeu o responsável.
Ghizzoni destacou ainda que os números analisado são relevantes, porque mostram que os abusos sexuais ocorreram mesmo durante a pandemia da Covid-19, quando as missas e cerimónias religiosas foram reduzidas ou suspensas. “Estes são só alguns casos, mas há muitos”.
A Rete L’Abuso reclama que uma análise mais profunda e estima que mais de um milhão de vítimas de abusos sexuais em Itália ainda estejam vivas. O grupo identifica 178 padres responsáveis, 165 padres condenados pela justiça italiana e 218 novos casos.
“Se em dois anos receberam 89 denúncias, é porque o problema existe e é enorme”, considera Francesco Zanardi, responsável pela associação que defende as vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica italiana, em entrevista ao Washington Post.
O responsável destaca ainda que, segundo o relatório dos bispos italianos, entre os abusadores verifica-se, para além de uma prevalência de padres e outros membros do clero (66%), uma grande percentagem de abusos levados a cabo por trabalhadores e funcionários das igrejas (34%). Zanardi sublinha que os estes abusadores têm acesso facilitado às vítimas devido aos vários programas de voluntariado na igreja, nos quais os voluntários não são sujeitos a qualquer tipo de verificação de antecedentes criminais.
O relatório distava ainda que a esmagadora maioria dos crimes (94,4%) ocorreram em locais físicos, nas igrejas paroquiais, sedes de movimentos ou associações católicas, casas de formação e seminários.
Recorde-se que, em Portugal, a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais na Igreja, criada pela Conferência Episcopal Portuguesa, validou um total de 424 testemunhos até ao momento. O relatório final da atividade da Comissão vai ser apresentado no final de janeiro de 2023.












