O espaço aéreo da NATO na Europa está a transformar-se numa nova linha da frente. Durante este verão, quase todas as semanas surgiram relatos de incursões de drones na fronteira oriental da Aliança Atlântica, obrigando em vários casos à mobilização de caças para intercetar ou destruir aparelhos que entraram em território aliado.
Nos últimos dois anos, 16 países da NATO comunicaram violações do seu espaço aéreo por drones ou encontraram destroços destes aparelhos no respetivo território. A frequência e a dimensão destes episódios aumentaram nos últimos meses, embora os Estados-membros considerem que permanecem abaixo do limiar que justificaria uma resposta militar coletiva.
Segundo uma análise do ‘The Wall Street Journal’ (WSJ), a multiplicação das incursões está a obrigar a NATO e os países europeus a acelerar o desenvolvimento de sistemas capazes de detetar e neutralizar drones sem recorrer a armamento cujo custo pode ser dezenas ou centenas de vezes superior ao do alvo.
Em agosto, a Alemanha responsabilizou a Rússia por drones com explosivos encontrados no aeroporto de Leipzig, uma infraestrutura integrada nas linhas de abastecimento à Ucrânia. No mesmo mês, a Roménia mobilizou caças para destruir um drone naval que navegava próximo de uma plataforma de gás no Mar Negro.
O Kremlin nega qualquer envolvimento na sucessão de ataques e incidentes associados à chamada guerra de zona cinzenta.
“Não nos consideramos em guerra, mas somos diariamente alvo de guerra híbrida”, afirmou este mês o ministro do Interior alemão, Alexander Dobrindt, citado pelo WSJ.
De aeroportos a instalações energéticas
Os incidentes podem ser divididos em duas grandes categorias. Por um lado, estão drones que permanecem ou são avistados sobre infraestruturas críticas no interior da Europa. Por outro, aparelhos militares não tripulados que atravessam diretamente as fronteiras e entram no espaço aéreo da NATO.
Nem todos têm necessariamente origem russa. Alguns são drones ucranianos desviados da sua trajetória devido aos sistemas russos de guerra eletrónica.
Dados da Acled, organização independente especializada no acompanhamento de conflitos, mostram uma proliferação das incursões na Europa durante o último ano, numa altura em que a Rússia tem enfrentado dificuldades em avançar no campo de batalha na Ucrânia.
Os episódios registados desde 2024 incluem avistamentos de drones, recuperação de destroços, interceções e ataques, distribuídos por aeroportos, instalações energéticas e industriais, áreas militares e outros locais.
Identificar a origem de cada aparelho, determinar o modelo utilizado e perceber a intenção dos operadores continua, porém, a ser uma tarefa complexa.
Analistas citados pelo WSJ referem fotografias e testemunhos que apontam para uma combinação de drones de vigilância de asa fixa e quadricópteros. Num dos casos terá sido observado um aparelho de maiores dimensões, semelhante a uma “nave-mãe”, utilizado para lançar drones mais pequenos.
Dos quadricópteros de 1.500 dólares aos drones militares de 300 mil
A variedade de aparelhos constitui um dos principais desafios para as defesas europeias. Os custos, alcances, velocidades e capacidades de carga variam significativamente.
Um quadricóptero pode custar cerca de 1.500 dólares, aproximadamente 1.300 euros, ter um alcance de cerca de 27 quilómetros e atingir velocidades próximas dos 76 km/h. Drones de asa fixa podem alcançar cerca de 60 quilómetros, transportar aproximadamente dez quilos e voar a cerca de 121 km/h.
No extremo oposto encontram-se aparelhos militares especializados que podem custar dezenas ou centenas de milhares de dólares.
O International Institute for Strategic Studies (IISS) considera que o Merlin-VR russo, adequado a missões prolongadas de vigilância de infraestruturas, estará provavelmente a ser utilizado em operações de zona cinzenta.
Alguns drones capazes de descolar e aterrar verticalmente necessitam de muito pouco espaço de convés. Segundo o IISS, esta característica pode torná-los particularmente adequados a operações clandestinas lançadas a partir de navios associados à chamada frota-sombra russa.
Entre os modelos que já estiveram envolvidos em incidentes encontram-se o Geran-2, concebido para ataques unidirecionais, e o Gerbera, destinado a missões de reconhecimento.
O Governo romeno afirmou que um Geran-2 atingiu em maio um edifício residencial de vários andares na cidade de Galați. Já o Gerbera foi identificado pelos militares polacos em setembro de 2025, depois de um enxame noturno de drones russos sobre a Polónia.
O Geran-2 terá um alcance próximo dos 1.500 quilómetros, capacidade para transportar cerca de 40 quilos e velocidade de aproximadamente 150 km/h. O seu custo unitário estimado situa-se entre 70 mil e 80 mil dólares, cerca de 60 mil a 69 mil euros.
Um Gerbera custará aproximadamente 10 mil dólares, cerca de 8.600 euros, enquanto um Orlan-10 poderá atingir entre 87 mil e 120 mil dólares, aproximadamente 75 mil a 103 mil euros. O Merlin-VR surge entre os aparelhos mais caros, com um valor estimado de 300 mil dólares, cerca de 258 mil euros.
Europa prepara um “escudo de drones”
Perante a multiplicação das ameaças, vários países da linha da frente da NATO estão a desenvolver capacidades antidrones, embora os sistemas disponíveis não sejam uniformes.
A Europa prepara também aquilo que tem sido designado como “escudo de drones” ou “muro de drones”: uma rede de defesa com várias camadas, constituída por sensores, sistemas de guerra eletrónica e drones intercetores destinados a proteger a fronteira oriental da União Europeia contra ameaças aéreas.
De acordo com informação do Parlamento Europeu citada pelo WSJ, o sistema deverá estar totalmente operacional até ao final de 2027. A infraestrutura básica e os radares deverão, contudo, começar a ser instalados ao longo das fronteiras orientais até ao final deste ano.
Até essa rede estar disponível, os caças continuam a constituir a principal resposta de alta velocidade quando um drone entra no espaço aéreo europeu.
F-16 e F-35 estão entre os principais aviões de combate utilizados pela NATO para intercetar drones hostis. Os Eurofighter Typhoon também têm participado em missões antidrones.
Mísseis de mais de um milhão contra drones de poucos milhares
O problema não é apenas operacional. É também económico.
Uma hora de voo de um F-35 tem um custo estimado de 27 mil dólares, cerca de 23 mil euros. No caso de um F-16, o valor ronda 42 mil dólares, aproximadamente 36 mil euros, enquanto uma hora de operação de um Eurofighter Typhoon pode atingir 49.200 dólares, cerca de 42 mil euros.
A diferença torna-se ainda mais expressiva quando se analisa o armamento utilizado.
Um míssil AIM-120 AMRAAM pode custar cerca de 1,37 milhões de dólares, aproximadamente 1,18 milhões de euros. Um AIM-9 Sidewinder ronda 472 mil dólares, cerca de 406 mil euros. Já uma munição guiada APKWS II tem um custo estimado de 35 mil dólares, aproximadamente 30 mil euros.
Recorrer a um míssil ar-ar de centenas de milhares ou mais de um milhão de dólares para destruir um drone que pode custar apenas alguns milhares cria uma equação económica difícil de sustentar caso as incursões se multipliquem.
Os pilotos podem utilizar foguetes guiados ou o canhão do próprio avião para abater drones, mas a NATO procura alternativas que permitam responder a ataques numerosos sem consumir armamento muito mais caro do que os aparelhos que pretende destruir.
A Bélgica, por exemplo, está a equipar os seus F-16 com pods de foguetes especializados da Thales, numa tentativa de disponibilizar uma opção mais barata e eficaz para enfrentar grandes quantidades de drones.
A corrida passa agora por conseguir detetar estes aparelhos a maior distância e destruí-los com sistemas de custo suficientemente baixo para poderem ser utilizados em escala. Ao mesmo tempo, os membros da NATO procuram aumentar o preço destas operações para Moscovo através do reforço do apoio à Ucrânia.
Com incursões cada vez mais frequentes, drones que podem ser lançados discretamente e uma enorme diferença entre o custo dos aparelhos e o das armas usadas para os intercetar, a fronteira oriental da NATO deixou de ser apenas uma linha no mapa. Tornou-se também uma linha da frente no espaço aéreo europeu.














