Os produtos químicos eternos, a substância sintética mais facilmente encontrada no mundo, presente em inúmeros itens do dia-a-dia, podem estar a danificar o fígado de todos aqueles que com eles entram em contacto, revelaram os investigadores da Keck School of Medicine da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos, que encontraram um ligação entre essas substâncias amplamente utilizadas e danos no fígado.
Estes produtos químicos, conhecidos como substâncias per e polifluoroalquil (PFAS), são substâncias artificiais que os fabricantes usam em todos os tipos de produtos industriais e de consumo – os mais comuns incluem tachos antiaderentes, carpetes e móveis resistentes a manchas, roupas impermeáveis e embalagens de fast-food. Os cientistas chamam a estas substâncias de “produtos químicos para sempre” porque se decompõem muito lentamente, escoam para o meio ambiente e podem contaminar o tecido humano.
“Os PFAS são omnipresentes e sabemos que todos os adultos nos Estados Unidos têm níveis detectáveis de PFAS nos seus corpos”, explicou Leda Chatzi, professora de ciências da população e da saúde pública da Keck School of Medicine, em comunicado. “Há um interesse crescente nos efeitos a longo prazo da exposição ao PFAS na saúde e este estudo apoia que há evidências de que os PFAS estão associados a lesões no fígado.” Os investigadores descobriram níveis elevados de alanina aminotransferase (ALT) em pacientes expostos aos PFAS – a ALT é uma enzima hepática que serve como marcador de danos no fígado quando os níveis são elevados.
Os autores do estudo descobriram que humanos e animais com exposição a três dos PFAS mais comuns – ácido perfluorooctanoico (PFOA), perfluorooctanossulfonato (PFOS) e ácido perfluorononanoico (PFNA) – todos tinham níveis mais altos de ALT no sangue. A equipa de cientistas garantiu que os altos nível de ALT também são típicos em casos de doença hepática gordurosa não alcoólica (NAFLD). A condição, que afeta uma em cada quatro pessoas, faz com que o excesso de gordura se acumule no fígado. As complicações podem eventualmente causar cancro no fígado ou insuficiência hepática em pacientes. O novo estudo aponta para uma possível ligação entre PFAS e taxas crescentes de casos de DHGNA nos últimos anos.
Estudos em animais mostram que os PFAS também são produtos químicos desreguladores endócrinos, causando alterações metabólicas – outro gatilho da doença hepática gordurosa. Além disso, estudos epidemiológicos revelam que a exposição ao PFAS pode levar a alterações no colesterol, triglicerídeos e ácido úrico – todos marcadores de problemas metabólicos.
“Vemos que a prevalência de NAFLD em humanos está a aumentar mas as explicações não são claras”, referiu Sarah Rock, do departamento de ciências da população e saúde pública da Keck School of Medicine. “Embora a pesquisa em humanos que liga o PFAS à doença hepática seja limitada, há muitas evidências em pesquisas com animais que mostram hepatotoxicidade do PFAS. Um desafio para os pesquisadores do PFAS é que os humanos estão expostos a misturas de centenas, senão milhares, desses produtos químicos. A análise de misturas é uma ferramenta potencial para lidar com essa complexidade no futuro.”
Os autores do estudo observaram que os cientistas detetaram pela primeira vez produtos químicos “para sempre” no sangue das pessoas nos locais de trabalho na década de 1970. Vinte anos depois, estudos encontraram PFAS no sangue de pessoas da população em geral, o que fez aumentar a perceção pública sobre o perigo potencial para a saúde humana.
Este estudo, publicado na revista científica ‘Environmental Health Perspectives’, mostrou claramente que os PFAS “precisam ser levados a sério como uma preocupação para a saúde humana, porque mesmo depois de eliminados, eles persistem no meio ambiente”, explicou Elizabeth Costello, da Keck School of Medicine. “Há evidências suficientes, acreditamos, para demonstrar a necessidade de limpar as fontes de exposição aos PFAS e evitar futuras exposições.”
“Entender mais sobre como os PFAS prejudicam o fígado pode-nos permitir prever com mais confiança quais os PFAS serão responsáveis e se algum é seguro”, acrescentou Alan Ducatman, coautor do estudo. “Além de prevenir exposições futuras, os dados mostram por que deve haver uma consideração séria do que pode ser feito para aqueles que já vivem ou trabalham em circunstâncias de alta exposição aos PFAS.”













