No dia 12 de agosto, Portugal vai assistir ao primeiro eclipse solar total em mais de um século. Durante alguns segundos, o dia transformar-se-á em noite numa estreita faixa do nordeste transmontano. Mas, muito antes de a ciência explicar este fenómeno, a Humanidade encontrou outras respostas para o desaparecimento súbito do Sol.
Dos Incas aos criadores de Os Simpsons, passando por dragões chineses, lobos da mitologia nórdica e sapos gigantes das tradições indígenas da América do Norte, os eclipses inspiraram histórias que atravessaram séculos e continuam hoje a fazer parte da cultura popular.
Segundo o ‘El Economista’, esse património está agora reunido no atlas interativo “Um Mundo de Eclipses”, desenvolvido pela Sociedade Astronómica Espanhola. O projeto reúne mais de uma centena de testemunhos dos cinco continentes, desde hieróglifos egípcios e murais africanos até referências em mangás japoneses, nas aventuras de Tintim e em episódios de Os Simpsons, mostrando como um simples alinhamento entre a Terra, a Lua e o Sol continua a alimentar a imaginação humana.
Quando o Sol desaparecia, começavam os rituais
Nas civilizações maia e inca, um eclipse era interpretado como uma crise divina. Segundo o Museu Nacional do Índio Americano, do Smithsonian, acreditava-se que eram necessários rituais e sacrifícios para devolver o brilho ao Sol.
Entre alguns povos indígenas da América do Norte, a explicação era bem diferente. Os cherokees acreditavam que um enorme sapo tentava engolir o Sol e faziam o maior barulho possível para o afugentar. Já os paiutes do sul viam o fenómeno como um raro encontro entre o Sol e a Lua.
Na China antiga, dizia-se que um dragão celestial devorava o Sol. Sempre que ocorria um eclipse, a população batia tambores e objetos metálicos para obrigar a criatura a libertar a estrela.
Ao mesmo tempo, na antiga Babilónia, os astrónomos registavam eclipses em tabuletas de argila com grande precisão matemática, lançando algumas das bases da astronomia moderna.
Reis, guerras e maus presságios
Na Europa medieval, um eclipse era frequentemente visto como um sinal de desgraça iminente.
Quando o eclipse de 1133 coincidiu com a morte do rei Henrique I de Inglaterra, a crença de que estes fenómenos anunciavam guerras, epidemias ou a morte de monarcas ganhou ainda mais força.
Na mitologia nórdica, a explicação passava pelos lobos Sköll e Hati, que perseguiam permanentemente o Sol e a Lua e, de tempos a tempos, conseguiam alcançá-los.
E as grávidas? O que diz a ciência
Algumas crenças sobreviveram até aos dias de hoje. Em vários países da América Latina e em zonas rurais da Europa continua a aconselhar-se as grávidas a não olharem para um eclipse, a usarem fitas vermelhas ou objetos metálicos e até a permanecerem dentro de casa.
Segundo o ‘El Economista’, não existe, porém, qualquer evidência científica de que um eclipse provoque complicações na gravidez, partos prematuros ou malformações. Nem a Organização Mundial da Saúde nem as principais sociedades científicas reconhecem qualquer risco desse tipo.
O único perigo é olhar diretamente para o Sol
O verdadeiro risco continua a ser a observação do eclipse sem proteção adequada.
Os especialistas recomendam apenas a utilização de óculos certificados para eclipses, de acordo com a norma ISO 12312-2, ou métodos de projeção indireta. Óculos de sol, películas de raio-X, vidro fumado ou telescópios sem filtros próprios não oferecem proteção e podem provocar lesões permanentes na retina.
Um fenómeno histórico para Portugal
O eclipse de 12 de agosto será um dos acontecimentos astronómicos mais importantes da história recente do país.
Embora mais de 90% do Sol fique ocultado em praticamente todo o território continental, apenas uma estreita faixa junto a Guadramil e Rio de Onor, no concelho de Bragança, permitirá observar a totalidade, durante cerca de 26 segundos.
Será o primeiro eclipse solar total visível em Portugal desde 1912. Depois deste, o próximo só deverá ocorrer em 2144, tornando esta uma oportunidade única para a esmagadora maioria dos portugueses assistir ao momento em que, durante breves instantes, o dia dá lugar à noite.

















