Num contexto de crescente instabilidade geopolítica, há quem recorra à meditação ou faça reservas de bens essenciais. Entre algumas das maiores fortunas do sector tecnológico, porém, a resposta pode passar por bunkers subterrâneos de luxo, arsenais privados ou propriedades isoladas preparadas para cenários extremos.
Vários nomes sonantes da indústria tecnológica têm sido associados, na última década, a diferentes formas de preparação para um eventual colapso global — desde abrigos fortificados até reservas de armas, ouro e medicamentos. Embora nem todos confirmem possuir “bunkers do juízo final”, as declarações públicas e os investimentos conhecidos revelam uma tendência clara: a preparação para o pior cenário possível deixou de ser tabu entre a elite tecnológica.
O aumento das tensões internacionais tem impacto direto neste nicho de mercado. Ron Hubbard, fundador e diretor-executivo da Atlas Survival Shelters, afirmou ao Business Insider, em Julho, que “quando uma guerra rebenta, ou quando a América bombardeia o Irão, isso provoca um pico no nosso negócio”.
Segundo o empresário, após os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, a 28 de Fevereiro, registou-se “um grande pico” de interesse proveniente do Médio Oriente, em particular dos Emirados Árabes Unidos. Nos Estados Unidos, disse, verificou-se também um aumento moderado da procura, sendo o pedido mais comum “um local para proteger a família”.
Larry Hall, proprietário da Survival Condo, empresa especializada em bunkers de luxo, declarou igualmente ao Business Insider que os conflitos geopolíticos tendem a aumentar o interesse pelos seus projetos.
De acordo com Hubbard, “é seguro assumir que a maioria dos bilionários tem algum tipo de abrigo”, embora apenas uma minoria opte por estruturas extremamente luxuosas, com custos na ordem das dezenas de milhões de dólares. Hall revelou que tem negociado vendas entre 1 e 2 milhões de dólares, e que alguns dos seus complexos incluem piscina, campo de tiro ou até pista de bowling.
Na sua perspetiva, os bunkers tornaram-se “um novo símbolo de estatuto da elite” no período pós-pandemia, deixando de ser encarados como algo excêntrico ou marginal.
Mark Zuckerberg e o “túnel subterrâneo” no Havai
Entre os nomes mais conhecidos associados a este fenómeno está Mark Zuckerberg, presidente-executivo da Meta.
O empresário nunca confirmou oficialmente a existência de um bunker de sobrevivência, mas admitiu, num episódio do podcast “This Past Weekend w/ Theo Von”, em 2025, que possui um “túnel subterrâneo” no seu rancho no Havai.
Em 2023, a revista Wired noticiou que Zuckerberg estaria a construir um abrigo subterrâneo com cerca de 5.000 pés quadrados na propriedade. No ano seguinte, o órgão local Hawaii News Now avançou que documentos de planeamento do condado mencionavam um “abrigo contra tempestades” com quase 4.500 pés quadrados. Já em Julho de 2025, a Wired informou que, segundo documentação oficial, Zuckerberg adquiriu 962 acres adicionais em frente ao complexo existente, acrescentando novas construções.
Em entrevista à Bloomberg, em Dezembro, o fundador da Meta desvalorizou as notícias iniciais, comparando o espaço a “uma cave”.
“Há apenas muito espaço de armazenamento e, não sei, chamem-lhe abrigo contra furacões ou o que quiserem”, afirmou. “Acho que foi exagerado como se todo o rancho fosse um bunker do juízo final, o que simplesmente não é verdade.”
Sam Altman e as “caves reforçadas”
Também Sam Altman, director-executivo da OpenAI, foi questionado sobre a eventual existência de um bunker. No mesmo podcast de Theo Von, Altman negou ter um, esclarecendo que dispõe apenas de “caves reforçadas”.
“Tenho caves subterrâneas, de betão, pesadas, reforçadas, mas não tenho nada a que chamaria…”, começou por dizer, sendo interrompido pelo anfitrião, que comentou, entre risos, que isso soava a bunker.
Von descreveu um bunker como “um local onde se pode esconder quando tudo rebenta”, ao que Altman reiterou que ainda não possui algo que considerasse um bunker propriamente dito.
“Mas tem estado na minha mente, não por causa da IA, mas simplesmente porque as pessoas voltaram a lançar bombas no mundo”, acrescentou.
Num evento WSJ Tech Live, em 2023, Altman recusou detalhar as suas “estruturas”, mas admitiu que nenhuma seria útil caso a inteligência artificial “corresse mal”. Já em 2016, disse à New Yorker que possui um terreno em Big Sur, Califórnia, para onde poderia voar se necessário.
Além das infra-estruturas físicas, Altman revelou anteriormente à New Yorker que tem “armas, ouro, iodeto de potássio, antibióticos, baterias, água e máscaras de gás das Forças de Defesa de Israel”.
Peter Thiel e os planos travados na Nova Zelândia
O cofundador do PayPal, Peter Thiel, tentou construir um complexo com dez quartos na Nova Zelândia. No entanto, o governo local rejeitou os planos após críticas de ambientalistas. Parte da especulação pública sugeria que a propriedade poderia incluir um bunker de sobrevivência.
Larry Hall afirmou ter ficado “estupefacto” com algumas das localizações divulgadas para estes abrigos, sublinhando que tanto a Califórnia como a Nova Zelândia se situam junto a limites activos de placas tectónicas.
“São dois dos locais onde não se quer construir bunkers, e, no entanto, alegadamente estes bilionários estão a construir nesses dois sítios”, declarou.
Representantes de Altman e Thiel não responderam aos pedidos de comentário do Business Insider.
Armas, cirurgias e silos de mísseis
Nem todas as preparações passam por bunkers. Steve Huffman, diretor-executivo do Reddit, contou à New Yorker que adquiriu armas, munições e motociclos. Em 2015, submeteu-se ainda a cirurgia ocular a laser, com o objetivo de melhorar as suas hipóteses de sobrevivência num cenário extremo.
Já Palmer Luckey, fundador da Oculus e da Anduril, não se identifica como “prepper”, mas possui uma vasta colecção de veículos militares antigos. Num episódio do programa “The Circuit”, da Bloomberg, revelou ser proprietário de silos de mísseis desactivados, alguns dos quais se estendem no subsolo.
“Coloquei isso numa das minhas bases de mísseis, a 200 pés de profundidade”, afirmou, referindo-se àquela que diz ser a maior colecção de videojogos do mundo.
Para Larry Hall, a associação a figuras proeminentes do sector tecnológico tem beneficiado o negócio dos bunkers. “Muitas pessoas gostam de viver vicariamente através do que os outros fazem”, observou ao Business Insider.
Num mundo marcado por conflitos armados, tensões internacionais e incerteza quanto ao impacto da inteligência artificial, a preparação para cenários de colapso deixou de ser apenas um tema de ficção científica. Para alguns dos nomes mais ricos da tecnologia, tornou-se uma estratégia concreta e, ao que tudo indica, um novo marcador de poder e exclusividade.




