O Dodó, um dos ícones da extinção animal devido à ação dos homens, pode ser ‘ressuscitado’: pela primeira vez, todo o genoma da ave foi sequenciado, aumentando assim as esperanças de que possa ser salvo da extinção. Originário da Maurícia, uma ilha no Oceano Índico a leste de Madagáscar, esta ave da família do pombo era incapaz de voar e não tinha medo dos seres humanos, pois evoluiu isolado e sem predadores naturais na ilha que habitava.
Beth Shapiro, professora de ecologia e biologia evolutiva da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, garantiu, num webinar da Royal Society, que o seu laboratório prepara-se para divulgar em breve o ADN completo de um espécime alojado no Museu de História Natural de Copenhaga – a ave, com cerca de um metro de altura, foi exterminada no século XVII, apenas 100 anos depois de ter sido encontrada pela primeira vez. Além de perseguidas por humanos, também cães, gatos e até porcos atacavam os pássaros, conforme os marinheiros traziam os predadores nas suas jornadas marítimas pelo Oceano Índico.
“O genoma do Dodó está completamente sequenciado. Ainda não foi publicado, mas existe e estamos a trabalhar nisso agora”, garantiu a cientista, que passou muito tempo para tentar obter o ADN de um espécime em Oxford – conseguiram uma pequena quantidade mas que não foi adequadamente preservada. No entanto, um espécime “maravilhoso” na Dinamarca permitiu o sequenciamento, segundo revelou o jornal britânico ‘The Telegraph’.
Mas trazer o pássaro de volta pode ser difícil. “Os mamíferos são mais fáceis”, explicou Beth Shapiro. “Como posso mudar uma célula que está num prato de laboratório, com um pedaço de ADN de Dodó, num animal genuíno, vivo e a respirar?”
Existem perspetivas semelhantes em relação ao mamute lanoso, cujo ADN foi também inteiramente sequenciado devido a restos bem preservados descobertos no permafrost siberiano. A ‘Colossal’, uma nova startup de edição de genes fundada pelo empresário Ben Lamm e pelo cientista de Harvard George Church, pretende ressuscitar o mamute lanoso.
O Dodó recebeu o nome do termo português para “tolo”, porque os marinheiros o insultavam pela sua aparente falta de inibição perante caçadores armados. Está geneticamente ligado ao pombo Nicobar e é concebível que os cientistas alterem o ADN do pombo para incorporar o ADN do Dodó se desejarem reintroduzir a espécie.
Mike Benton, professor de Paleontologia de Vertebrados da Universidade de Bristol, no Reino Unido, acredita que teria sido melhor trazer de volta um Dodœ em vez de um animal ainda mais distante no tempo. “O Dodó é de facto um pássaro famoso e pode-se defender a reintrodução”, acrescentou.













