Em 2011, num dia quente de verão, cumpriu-se uma cerimónia destinada a celebrar a construção de “um canto do paraíso”, nos arredores da antiga Antakya, na Turquia: de um antigo olival iria nascer um complexo de apartamentos moderno e luxuoso, que prometia tornar-se uma metrópole reluzente. Entre dos dignatários estavam o ministro da Justiça da Turquia, o governador da província local de Hatay, o autarca da cidade e o chefe de polícia, entre outros.
Um dos promotores confessou na cerimónia a sua visão de “algo diferente”, um edifício que iria ser referência de uma vida de luxo e construção de qualidade nesta zona do sul da Turquia: 12 anos volvidos, o empreendimento, em forma de iPhone, com 249 apartamentos e uma piscina, desabou num monte de escombros na sequência do devastador terramoto de 6 de fevereiro, que causou mais de 45 mil mortes.
O ‘Rönesans Rezidans’ tornou-se um esqueleto fraturado e um símbolo da podridão do sistema de construção da Turquia.
Será necessário trabalho forense para determinar com precisão qual a fraqueza que levou a estrutura de 12 andares a ruir – mas, para o ‘Financial Times’, quatro engenheiros de estruturas analisaram planos arquitetónicos, fotos de construção e imagens do colapso, e apontaram explicações possíveis.
O complexo Rönesans (que significa Renascimento) estava centrado em três blocos interligados de 12 andares, que se abriam para uma piscina, lojas, ginásio e as comodidades partilhadas com um hotel 5 estrelas. Foi vendido como uma “escolha de estilo de vida” para os seus residentes.
Entre eles estava Christian Atsu, futebolista ganês de 31 anos, que passou pelo FC Porto, Rio Aves e Newcastle United, antes de assinar, em setembro último, pelo Hatayspor, da Turquia. O seu corpo foi encontrado 12 dias depois, assim como os de um jogador internacional turco de andebol, um banqueiro, um psiquiatra, um advogado, um polícia, um dentista e dezenas de crianças – o colapso do luxuoso prédio terá causado pelo menos 750 mortes.
A população turca tem canalizado a sua revolta e dor para os promotores imobiliários, arquitetos e engenheiros que ergueram estruturas que se converteram em túmulos – a polícia já deteve mais de 180 pessoas e as investigações continuam.
Mehmet Yasar Coskun, fundador do grupo ‘Antis Yapı’ que desenvolveu os Rönesans, já foi detido, no aeroporto de Istambul, a preparar o embarque num voo para o Montenegro. O promotor garantiu não saber o motivo do colapso do edifício: o solo estava em “condições robustas”, foi usado concreto armado e a estrutura cumpriu os códigos de construção. Mas já havia ‘reservas’ sobre o empreendimento: Ferit Sahin, cujo irmão Sahin e sobrinho Ugur morreram em Rönesans, garantiu que a sua família entrou com um processo contra a ‘Antis Yapı’ em 2016, alegando violações de segurança, incluindo a falta de um abrigo antissísmico e acesso adequado para veículos de emergência.
“Quando acordei com a notícia de um terramoto, não estava preocupado com Sahin. Pensei que se alguém estivesse seguro seria ele em Rönesans”, disse Gokhan Şahin, irmão de Ferit e Şahin. “Era o edifício mais prestigiado de Antakya. Nenhum de nós jamais esperaria que isso acontecesse.”
Há um consenso sobre a queda de Rönesans: estes blocos modernos de apartamentos não deveriam ter desmoronado em resultado do terramoto de magnitude 7,8, nem do choque de magnitude 7,5 que se seguiu horas depois.
“Os nossos edifícios devem resistir a essas forças sísmicas”, garantiu Oguz Cem Celik, professor de engenharia estrutural e sísmica na Universidade Técnica de Istambul. “Danos graves são possíveis mas o colapso é algo diferente. Nunca podemos aceitar o desabamento de um edifício, por mais forte que seja o abalo.”
A natureza do colapso chamou a atenção. Celik frisou que é raro um edifício grande e novo caiur como o Rönesans, sugerindo que havia falhas no trabalho arquitetónico, na engenharia estrutural ou no processo de construção.
A forma fina e retangular do edifício comportava riscos: Jane Wernick, engenheira estrutural baseada no Reino Unido e consultora da HRW, disse que teria uma relação comprimento/largura de 8:1, uma vez que tinha cerca de 134 metros de comprimento por 17 metros de largura – ora, tal proporção exigiria um trabalho analítico especializado no local e é “provavelmente mais do que pensaríamos ser sensato se estiver a construir numa região sísmica”, disse.
Outro fator é o solo: o tipo de solo numa área propensa a terramotos desempenha um grande papel na estabilidade da estrutura, porque determina como a energia do abalo é transmitida. Normalmente, quando um novo edifício está a ser projetado, os engenheiros simulam como as forças do terramoto irão ondular através da terra e, em seguida, usam essas informações para orientar o projeto da fundação do edifício.
Um segurança que testemunhou o desabamento do Rönesans garantiu aos familiares enlutados que o prédio resistiu a cerca de 40 segundos: a duração do terramoto foi de 65 segundos no total. Outra testemunha descreveu como o prédio quase ‘quebrou’ antes do seu colapso lateral. “Ficámos com uma enorme pilha de escombros com o esqueleto de um prédio gigante em cima, o que tornou o resgate tão difícil”, explicou
Estima-se que 6,7 milhões de edifícios residenciais em toda a Turquia precisam de ser reformados ou reconstruídos para atender aos padrões modernos – um processo que custaria impressionantes 435 mil milhões de euros, segundo revelou o Banco Mundial, em 2021.
O presidente Recep Tayyip Erdoğan, que supervisionou um ‘boom’ de construção durante as suas duas décadas no poder, tem enfrentado uma reação negativa sobre a aplicação negligente dos códigos de construção, em particular por uma amnistia concedida em 2018 na qual perdoava falhas em milhões de edifícios.
Nenhuma província da Turquia sofreu tantos danos quanto Hatay. Mais de 30 mil edifícios no distrito foram severamente danificados ou desabaram. A maioria dos edifícios danificados eram propriedades antigas, construídas antes de 2000, de acordo com um estudo separado da Universidade Técnica do Médio Oriente em Ancara – foi implementado, entre 1998 e 2001, um conjunto de códigos e requisitos de vigilância mais rígidos, em parte por causa de um terramoto devastador que atingiu o noroeste da Turquia em 1999, matando pelo menos 17 mil pessoas.
Apesar do regime mais rígido, mais de mil edifícios construídos depois de 2000, incluindo o Rönesans, desabaram ou foram fortemente danificados em toda a Turquia devido ao terremoto de 6 de fevereiro.














