Do outro lado do espelho: João Pombinho, Head of Enterprise Architecture da NOS

Foi o primeiro português a participar e a concluir a solo uma das provas de ultraciclismo mais difíceis do mundo.

António Sarmento

João Pombinho completou uma das provas mais duras do mundo, a Race Across America (RAAM) – da Califórnia a Maryland – em menos de 12 dias. Ou seja, 11 dias, 20 horas e 38 minutos. Fazer uma prova como esta é como montar uma startup. «Demorei mais de um ano a preparar este desafio, não só fisicamente, mas também ao nível da equipa, logística, alimentação, equipamento e apoios», diz o atleta. Durante a prova, o atleta, também conhecido por Iron Pigeon (www.ironpigeon82.com) foi acompanhado por sete amigos, distribuídos por duas viaturas de apoio obrigatórias. Trata-se de um feito exclusivo: por exemplo, mais de seis mil pessoas subiram ao cume do Monte Evereste, mas, em 40 anos, menos de 400 terminaram a RAAM a solo.

Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google Escolher ›

Para além do desafio físico há inúmeros perigos durante o caminho: o natural desgaste humano, dos equipamentos e das viaturas, condições meteorológicas adversas e sobretudo a privação de sono. É por isto que é absolutamente crítico o apoio de uma equipa, a Support Crew. Hidratação, nutrição, equipamento, cuidados médicos, condições de descanso, navegação ou apoio psicológico. Dentro de cada uma das viaturas de apoio revezam-se e faz-se a rotação das quatro posições-chave: condutor, navegador, preparação de nutrição e equipamento com interacções pela janela com ciclista e, por fim, descanso.

Nestes 4800 quilómetros percorridos em Junho do ano passado, João enfrentou enormes amplitudes térmicas, passando do calor extremo às temperaturas negativas. «No Wolf Creek Pass completámos uma amplitude térmica de quase 60 graus face aos dias anteriores. Chegámos ao cume já bem de noite e, para não dormir em altitude (3300m) e boicotar a recuperação, fizemos uma descida bastante íngreme e longa. Na excitação do momento o corpo até achou graça, mas depois fiquei com uma grande inflamação de garganta que só recuperei nos últimos dias da prova.» Para vencer o calor chegou a usar mangas de licra com protecção UV que, quando estão molhadas com água gelada, faziam um género de ar condicionado, o que juntamente com meias cheias de cubos de gelo à volta do pescoço ajudava a manter o corpo fresco. No caso do frio, a estratégia foi reforçar o equipamento com várias camadas e até utilizou uma manta térmica por dentro do casaco na descida mais fria.

Pelo meio, deparou-se ainda com uma tempestade de areia, chuva e mini tornados. «É uma prova tão extrema em termos de impacto para o corpo que ninguém começa e acaba incólume», explica. Dormia cerca de quatro horas por noite e no último dia apenas 40 minutos. Além disso, gastava uma média de 11 mil calorias diárias e, para compensar, chegou mesmo a recorrer a fast food. «Quando acabou senti uma realização extrema e na verdade sinto que ainda não acabei de processar a prova. Mas correu tudo bem e ainda conseguimos a angariação de fundos para o IPO Lisboa, um objectivo especial.»

CICLISMO E GESTÃO
«No ultra ciclismo aplico muitas competências que fui desenvolvendo profissionalmente, como a capacidade de gestão, o planeamento, a organização, o sentido prático e forma ágil de trabalhar – é preciso fazer acontecer coisas complexas, pensar fora da caixa, ter resiliência e reunir interesses entre as pessoas. Por exemplo, a preparação e a prova da RAAM são o derradeiro esforço de equipa. Os membros da equipa não são figurantes. Acreditaram, investiram, foram e desfrutaram da experiência. É fundamental um grande alinhamento do propósito e motivações tendo sobretudo em conta o desenvolvimento pessoal de cada um», explica.
Em relação à capacidade de decisão e resiliência, João Pombinho considera que transporta estes skills para contextos mais organizados e de planeamento. «Sobretudo nas provas a solo, é na primeira grande contrariedade que subo o nível de jogo. Os momentos fora da caixa são os que me dão mais gozo», sublinha. 

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

João, de 41 anos, herdou do pai o gosto pelo desporto, sobretudo o ciclismo. Não perdiam uma prova na televisão e costumavam andar juntos de bicicleta. Pelo caminho, praticou outros desportos, como andebol, hóquei em patins, ténis e râguebi. Em 2016, a 10 dias de participar no seu primeiro Ironman, em Barcelona, o pai faleceu inesperadamente. «Quando aconteceu, tive que reagir, foi um momento de fight or flight. Decidi pegar na bicicleta dele e ir para Barcelona. Quando acabei a prova, senti um vazio. Percebi que tinha de fazer mais do que aquilo. Havia muitas provas que tínhamos prometido fazer juntos. Nunca fomos e fiquei com uma bucket list enorme. A partir de 2017, percebi que valia a pena sair da zona de conforto e que devia fazê-lo por quem não pode», afirmou. Mais tarde, participou em provas como o Norseman, o North Cape 4000 e o Portugal Divide. 

Nesta última prova teve um acidente grave. «Foi já em Aljustrel, devido a uma obra mal sinalizada na via pública.» E pela primeira vez em 17 anos caiu com uma bicicleta de estrada. «Esperei pela ambulância e fui para o hospital. Depois de mil quilómetros, faltavam-me apenas 140. Na altura não sabia mas acabei por ter que ser operado. Com danos importantes mas sem fracturas, deram-me analgésicos após análise médica e prossegui dentro dos limites de segurança. Sabia que ia ter dores horríveis e acordar lesionado no dia seguinte, quer terminasse ou não, mas se desistisse ia ser ainda mais duro animicamente. Embora este seja um exemplo extremo, que não poderia recomendar a ninguém, são de pequenos e grandes episódios de tenacidade e determinação que se vão construindo ferramentas mentais para enfrentar as mais diversas adversidades.»

Neste momento, já com novos desafios em vista, João Pombinho está ainda a recuperar do investimento pessoal realizado. «Também é preciso fazer uma gestão pessoal e financeira apertada das participações. Tenho uma bucket list com mais de 100 provas, que é preciso conciliar com os apoios, gestão de carreira, a esfera pessoal familiar e sobretudo as filhas. Mais do que qualquer coisa quero ser um exemplo para elas e dar-lhes motivação e capacidade de desafiar limites e ir mais além», conclui.
A Race Across America foi um «momento extraordinário de realização pessoal e o ponto alto de uma série de desafios com muitas aprendizagens e histórias para partilhar». O João é ainda orador em palestras motivacionais e eventos de empresa sobre vários temas ligados ao mindset de ultra-endurance, recentemente enriquecido com a experiência de preparação e execução da RAAM. 

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.