Do ‘fim do mundo’ ao centro do alerta sanitário: cidade argentina nega ligação ao surto de hantavírus no cruzeiro

Cruzeiro neerlandês, atualmente fundeado em Tenerife, nas Canárias, iniciou a viagem a 1 de abril precisamente em Ushuaia, na província argentina da Terra do Fogo

Francisco Laranjeira

A cidade argentina de Ushuaia, conhecida como ‘o fim do mundo’ e ponto de partida de muitas viagens para a Antártida, está no centro de uma especulação internacional que preocupa autoridades e empresários locais: a possibilidade de o surto de hantavírus no navio de cruzeiro ‘MV Hondius’ ter tido origem na região.

O cruzeiro neerlandês, atualmente fundeado em Tenerife, nas Canárias, iniciou a viagem a 1 de abril precisamente em Ushuaia, na província argentina da Terra do Fogo.

A bordo seguiam 114 passageiros e 61 tripulantes de 22 países.

Ainda não se sabe com precisão onde o vírus entrou no navio nem quem terá sido o primeiro infetado.

Essa incerteza alimentou várias teorias, incluindo a hipótese de um passageiro ter sido infetado numa lixeira nos arredores de Ushuaia, visitada por turistas para observação de aves e onde a presença de resíduos atrai ratos e outros roedores.

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Mas as autoridades locais rejeitam que a província seja a origem provável do surto.

“Nunca tivemos casos de hantavírus”

Juan Facundo Petrina, diretor-geral de Epidemiologia e Saúde Ambiental da Terra do Fogo, insiste que não há registo histórico de casos de hantavírus na província.

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“Na Terra do Fogo não temos registo de casos de hantavírus na nossa história”, afirmou à ‘BBC’.

O responsável sublinha que, desde 1996, ano em que a doença passou a integrar o sistema nacional de vigilância obrigatória na Argentina, nunca foi notificado um único caso na região.

Petrina considera improvável que a infeção tenha ocorrido em Ushuaia.

Segundo o responsável, a zona endémica do hantavírus fica mais de 1500 quilómetros a norte, noutras áreas da Patagónia.

Além disso, a província não teria a subespécie de rato-de-cauda-longa associada à transmissão da doença, nem as mesmas condições climáticas de humidade e temperatura existentes no norte da Patagónia.

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Há ainda outro argumento: a Terra do Fogo é uma ilha.

Para os roedores chegarem à região, teriam de atravessar o Estreito de Magalhães.

Governo argentino envia equipa de especialistas

Apesar da posição das autoridades locais, o Governo argentino decidiu enviar uma equipa de especialistas à Terra do Fogo para investigar se há vestígios de hantavírus ou se o rato transmissor chegou à região.

A equipa deverá trabalhar com biólogos locais e capturar roedores na lixeira apontada como possível fonte de infeção, para testar a presença do vírus.

Dois dias após o anúncio, porém, a equipa ainda não tinha chegado ao local, segundo a ‘BBC’.

Na visita feita pela estação britânica à lixeira, havia aves a sobrevoar os resíduos, mas nenhum sinal de investigação ativa.

O epidemiologista Eduardo López, chefe do Departamento de Medicina e Doenças Infecciosas do Hospital Infantil Ricardo Gutiérrez, em Buenos Aires, defende que o caso exige mais estudo.

A razão, explica, é que os ecossistemas estão a mudar e espécies de roedores associadas à transmissão da doença já foram identificadas em zonas onde antes não eram esperadas.

Turismo teme danos na imagem de Ushuaia

A urgência da investigação não é apenas sanitária.

Também é económica.

A Terra do Fogo é a província mais jovem e menos povoada da Argentina, e o turismo é uma das principais fontes de rendimento local, a par da exploração de hidrocarbonetos e da pesca.

Ushuaia é um ponto estratégico para cruzeiros.

Segundo Juan Manuel Pavlov, do Instituto Fueguino de Turismo, mais de 95% dos navios que seguem para a Antártida partem do porto da cidade.

Com mais de 500 escalas por ano, a indústria dos cruzeiros é considerada fundamental para a economia provincial.

Até agora, apesar do aumento de pedidos de informação por parte de operadores internacionais, não houve cancelamentos oficiais de cruzeiros.

A época de cruzeiros terminou em meados de abril, pelo que o verdadeiro impacto poderá só ser conhecido nos próximos meses.

Cidade tenta transmitir normalidade

No porto de Ushuaia, a vida turística parece continuar sem grandes alterações.

Visitantes caminham junto à água e fazem excursões mais curtas pela região, incluindo passeios pelo Canal de Beagle e visitas a locais associados ao famoso farol do ‘fim do mundo’.

Operadores turísticos dizem que os visitantes perguntam se há casos na província, mas que a ausência de infeções confirmadas ajuda a transmitir tranquilidade.

“A ausência de casos aqui é muito tranquilizadora”, afirmou Adonis Carvajal, funcionário de uma operadora turística.

Segundo o trabalhador, a estirpe do vírus pode até ter origem no sul, mas isso não significa que tenha surgido em Ushuaia.

Origem do surto continua por esclarecer

As autoridades sanitárias ainda tentam reconstruir a origem da infeção.

A principal hipótese é que um dos elementos do casal neerlandês que morreu após contrair o vírus possa ter sido o chamado ‘paciente zero’.

Os investigadores tentam reconstituir o percurso do casal pela Argentina, Chile e Uruguai antes do embarque no ‘MV Hondius’, usando sobretudo registos de entrada e saída nas fronteiras.

As autoridades chilenas e uruguaias afastam a hipótese de infeção nos seus países, tendo em conta o período de incubação estimado pela Organização Mundial da Saúde, entre uma e oito semanas.

Petrina admite que a infeção poderá ter ocorrido na Argentina, mas considera mais provável que tenha acontecido duas a quatro semanas antes do cruzeiro, numa região montanhosa da Patagónia, talvez nas províncias de Chubut, Neuquén ou Río Negro.

O Ministério da Saúde argentino, por sua vez, mantém uma posição prudente.

Não exclui, para já, a hipótese de a infeção ter ocorrido na Terra do Fogo, mas lembra que nunca foi notificado qualquer caso de hantavírus na província desde que a doença passou a ser de declaração obrigatória.

Evacuação em Tenerife pode trazer novas pistas

A retirada dos passageiros e tripulantes do ‘MV Hondius’ em Tenerife poderá ajudar a clarificar a origem do surto.

Mas, por enquanto, continuam por responder várias perguntas essenciais: onde ocorreu a primeira infeção, quem levou o vírus para bordo e se a origem está, de facto, na Argentina ou noutro ponto do percurso feito pelos passageiros antes do embarque.

Para Ushuaia, o desafio é duplo: afastar suspeitas sanitárias que considera infundadas e proteger a imagem de uma cidade cuja economia depende fortemente do turismo internacional e dos cruzeiros para a Antártida.

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