As infeções do vírus da varíola dos macacos continuam a aumentar um pouco por todo o mundo. Segundo os especialistas em saúde, é previsível que vão continuar a subir nos próximos dias mas, dentro de algumas semanas, vão começar a diminuir até que o surto desapareça. Mas há outros cenários em consideração, que vão desde a necessidade de vacinação aos círculos mais próximos dos casos positivos até à possibilidade de a doença se tornar endémica, com surtos frequentes, à semelhança do que acontece em alguns países de África. A possibilidade de uma pandemia também não está colocada de parte, embora, segundo o jornal espanhol ‘El País’, os especialistas tenham considerado “muito improvável” e, em todo o caso, com características muito distintas das da Covid-19.
São quatro os cenários previstos, do mais provável para o menos:
Surto contido em algumas semanas
As medidas de contenção que estão a ser implementadas (deteção de casos e isolamento) devem ser suficientes para conter o vírus, segundo revelaram Óscar Zurriaga, da Sociedade Espanhola de Epidemiologia, e Raúl Rivas González, professor da área de Microbiologia e Genética na Universidade de Salamanca.
Do que se sabe até agora, o agente patogénico é transmitido por fluidos. Se não forem encontradas novas rotas, significa que ser infetado requer um contacto estreito com outra pessoa infetada (ou animal). Esta falta de agilidade do vírus para se espalhar seria o principal aliado para o travar. Embora, neste momento, os casos continuem a aumentar, Rivas González acredita que é previsível que entre seis a oito semanas após o início do surto termine. Se esta previsão for cumprida, deverá desaparecer no início de julho.
O problema deste cenário é que este surto está a gerar muitos mais casos e em mais lugares do mundo do que qualquer outro no passado (fora de África). E os investigadores ainda não sabem porquê. Na sequência genética do vírus, provou-se que as variações em relação aos surtos anteriores nos países ocidentais são mínimas, pelo que não parece ser muito mais contagioso.
Contenção através da vacinação
Se a deteção dos casos e o seu isolamento não forem suficientes, será necessário ir mais longe: vacinar as pessoas que estiveram em contacto com os infetados e os seus contactos estreitos. É o que se chama de “vacinação por anel” e alguns cientistas propõem que se começe agora. França e Estados Unidos já iniciaram essa camapnha de vacinação com o medicamento que foi usado para a varíola, a única doença humana que foi erradicada. Acredita-se ser capaz de proteger de forma bastante eficaz (acima de 70%) para a varíola do macaco.
Rivas González apontou que também seria interessante vacinar os profissionais de saúde, que podem estar em contacto com o vírus por razões profissionais. Também Zurriaga achou que isso seria suficiente mas não descarta que a dada altura haja uma vacinação em massa: “Não acho que seja a coisa certa a fazer, mas se algum país o fizer, não me surpreenderia se outros ficassem para trás por razões mais políticas do que científicas.” Os dois especialistas concordaram que as vacinas devem ser suficientes para fazer o vírus desaparecer, embora não seja um dado garantido.
Deixar o vírus tornar-se endémico
Um dos principais receios das autoridades de saúde é que o vírus se torne endémico na Europa, como já acontece em alguns países de África – o que significria que haveria surtos com relativa frequência, quer pela não interrupção do contágio entre humanos mas também porque atinge a fauna e os animais, que se tornam reservatórios a partir do qual o vírus salta recorrentemente para as pessoas. “É por isso que é muito importante isolar os infetados, mas também os seus animais de estimação. Porque à medida que o vírus entra em contacto com outros animais, será muito mais difícil de controlar. E é por isso que é tão importante descobrir qual é a origem deste surto”, explicou Rivas González.
Em todo o caso, as características da Europa e de África são muito diferentes: “Não nos podemos comparar com o que lá acontece. Temos uma vantagem fundamental, que é o diagnóstico.” Zurriaga concordou: “A identificação de possíveis casos é muito diferente. Também a sua gravidade: em África, a letalidade desta doença [de aproximadamente 1% dos casos na variante que circula na Europa] é geralmente devido à sépsis; aqui que é muito mais complicado.”
Uma pandemia “quase impossível”
“Uma pandemia é muito improvável, diria quase impossível”, frisou Rivas González. Já Zurriaga utilizou a expressão “muito inviável”. “Se, por exemplo, se tornasse endémico nos países da América Latina, com os quais temos muito contacto, poderíamos ter casos sistemáticos em vez de esporádicos”, acrescentou.
Como recordou José Jiménez, investigador de vírus emergentes no Departamento de Doenças Infeciosas do King’s College London, “ainda há muitas coisas que desconhecemos sobre o surto atual e se já deveríamos ter aprendido alguma coisa é que os vírus podem sempre surpreender-nos”.
As comparações com a Covid-19 são inevitáveis. No entanto, mesmo neste cenário “improvável”, a pandemia seria muito diferente, uma vez que, como salientou Jiménez, existem muitas diferenças entre os dois vírus: o SARS-CoV-2 era desconhecido e não existiam vacinas ou medicamentos; para a varíola dos macacos não existem específicos, mas os usados para varíola humana parecem ser bastante eficazes. É um vírus que, além de conhecido há meio século, tem causado frequentes surtos em África e tem uma estrutura muito mais estável do que a do agente patogénico que causou a Covid-19.













