Diretor de Dermatologia do Santa Maria demite-se após ser confrontado com irregularidades sobre cirurgias adicionais

Presidente da Sociedade Portuguesa de Dermatologia colocou o lugar à disposição, pedido aceite por Carlos Martins, presidente do maior hospital português, que se prepara para nomear uma diretora interina

Executive Digest
Junho 24, 2025
10:09

O diretor da unidade de Dermatologia do Hospital de Santa Maria demitiu-se, depois de confrontado com resultados preliminares das auditorias internas solicitadas pelo Conselho de Administração às cirurgias adicionais, confirmou fonte hospitalar.

Segundo a fonte, na segunda-feira à noite o presidente do Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde (ULS) de Santa Maria reuniu-se com o diretor da unidade de Dermatologia e confrontou-o com alguns resultados preliminares do relatório interno das auditorias solicitadas na sequência de notícias divulgadas pela TVI/CNN relativamente aos gastos abusivos praticados por dermatologistas daquela unidade hospitalar.

Após ser confrontado com estes dados preliminares, adianta hoje a CNN, o diretor da unidade de Dermatologia colocou o lugar à disposição, o que foi aceite pelo presidente do Conselho de Administração.

Em causa estão os gastos abusivos dos médicos desta unidade hospitalar aos fins de semana. O dermatologista Miguel Alpalhão faturou mais de 50 mil euros num só fim de semana, tendo angariado 714.829 euros entre 2021 e 2024, fruto de 497 cirurgias realizadas ao sábado ao abrigo do regime de produção adicional, conhecido como SIGIC – Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia.

No total, os sete dermatologistas que aderiram ao SIGIC no Hospital de Santa Maria geraram uma fatura global de 3,8 milhões de euros nos últimos quatro anos. O serviço de dermatologia viu os seus ganhos em produção adicional aumentarem mais de 800%, de 179.347 euros em 2021 para 1,7 milhões em 2024. No conjunto de todas as especialidades do hospital, os valores passaram de 6,5 milhões para 14,5 milhões no mesmo intervalo, com um total acumulado de 44,6 milhões de euros, dos quais a dermatologia representou 3,8 milhões.

No entanto, lembrou a ‘CNN Portugal’, outra médica, Rita Travassos, registou cirurgias em seu nome, que foram feitas por médicos internos, enquanto a clínica se encontrava num congresso em Itália: em 2024, a médica encaixou 113 mil euros em apenas sete sábados.

Um dermatologista explicou a situação no serviço. “Atualmente, a Dermatologia do Santa Maria é uma anarquia completa. O serviço está ao abandono. Temos uma urgência que funciona das 09:00 às 21:00. Todos os dias é garantida, na maioria, por médicos internos, médicos em formação que estão escalados sozinhos, sem qualquer apoio, sem qualquer supervisão, e são eles os responsáveis pelos doentes mais complexos”, apontou à ‘CNN Portugal, garantindo que vários colegas entendem que os valores pagos pelas cirurgias “são obscenos”. “Algo não está correto e não faz sentido, tendo em conta a complexidade dos procedimentos que são feitos.”

Depois da reportagem, em maio, o presidente do Conselho de Administração ordenou a abertura de cinco auditorias internas envolvendo a Dermatologia.

Após ser conhecido o caso de Santa Maria, a Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde instruiu os hospitais para que garantam maior racionalidade nos serviços de dermatologia, limitando a realização de cirurgias fora de horário normal a casos oncológicos ou benignos muito prioritários.

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