Portugal assinala hoje o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, numa edição dedicada ao tema “Património vivo: resposta de emergência em contextos de conflitos e desastres”. A efeméride, promovida internacionalmente pelo International Council of Monuments and Sites (ICOMOS), estende-se este ano ao fim de semana e mobiliza dezenas de iniciativas em todo o país.
O tema escolhido para 2026 surge num momento particularmente sensível para o território nacional, que ainda recupera de uma sucessão de fenómenos meteorológicos extremos. A reflexão centra-se na resiliência do património cultural e na necessidade de adotar atitudes proativas na sua adaptação e salvaguarda perante um clima cada vez mais imprevisível.
Um tema que ecoa os danos recentes em monumentos nacionais
A escolha do mote ganha especial relevância à luz dos acontecimentos registados no final de janeiro, quando tempestades afetaram sobretudo a região Centro, provocando danos em vários monumentos. Entre os exemplos mais marcantes contam-se o Castelo de Leiria, que permanece temporariamente encerrado, bem como o Convento de Cristo e o Mosteiro da Batalha, entretanto reabertos ao público.
O Património Cultural, Instituto Público, que desde 2024 assume a coordenação nacional do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, sublinha a importância de promover a reflexão “de olhos postos no futuro”, garantindo que a herança cultural portuguesa se mantém viva e valorizada pelas gerações atuais e vindouras.
Em colaboração com o ICOMOS Portugal, a entidade apelou à participação de parceiros públicos e privados na organização de atividades que sensibilizem os cidadãos para a preservação, salvaguarda e valorização do património cultural. As iniciativas — presenciais e online — estão disponíveis no portal oficial da comemoração, onde pode ser consultado o mapa completo das ações e descarregado um kit de divulgação adaptável a cada organização.
De Valença a Tavira: um país mobilizado
As propostas multiplicam-se de norte a sul do país, com atividades pensadas para diferentes públicos, idades e condições físicas, muitas delas com entrada livre.
Em Valença, o Mosteiro de Sanfins, descrito como “um dos mais notáveis exemplos do românico” e enquadrado por “um espaço natural único”, acolhe este sábado, às 10h30, uma visita orientada pelo professor Luís Fontes. O monumento, com origens no século VII, convida os participantes a descobrir os seus “segredos e relevância histórica”. Em alternativa, é possível realizar um percurso livre pela quinta envolvente, com apoio do Centro Interpretativo local.
Santo Tirso associa-se à efeméride com uma visita guiada ao castro do Monte Padrão, onde entre as 10h e as 12h decorre uma oficina de confeção de pão a partir de bolotas, evocando práticas alimentares das comunidades proto-históricas. No domingo, o mesmo espaço promove uma oficina dedicada a green skills, ou “saberes etnobotânicos”, entre as 14h e as 16h30. O Museu Municipal Abade Pedrosa complementa o programa com uma exposição sobre a “Matéria Doce” da gastronomia local e um concerto de instrumentos antigos, agendados para as 17h e 18h deste sábado.
Monumentos vivos, música e percursos urbanos
No Porto, o Jardim Botânico é apresentado como um “monumento vivo” e propõe hoje, entre as 11h e as 13h, a visita guiada Árvores. Esses monumentos, esse património!!…, organizada pela Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas e pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. A iniciativa convida à reflexão sobre os “gigantes verdes” e o planeamento da sua plantação em meio urbano.
Já o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha, recebe este sábado, entre as 21h e as 22h30, a visita temática O Crepúsculo da Comunidade Conventual, evocando “as últimas décadas de vivências da comunidade de frades dominicanos que [o] habitaram, bem como sobre alguns dos ilustres viajantes que aqui ficaram hospedados”. Antes, às 18h, o espaço acolhe um concerto da banda Não Simão a Pintar o Sete, com canções a partir de poemas de Almada Negreiros, Cesário Verde e Ana Hatherly.
Em Santarém, considerada “capital” do gótico, o programa materializa-se num percurso interpretativo urbano que percorre “vestígios medievais até expressões do urbanismo romântico e tardonovecentista, destacando a riqueza e diversidade do seu património edificado e da sua paisagem cultural”. A caminhada inicia-se às 9h30 na Igreja de Nossa Senhora da Piedade e termina às 11h30 na Igreja de São Nicolau, passando por locais emblemáticos como as Portas do Sol e os mosteiros de São Francisco e Santa Clara.
Concertos e visitas especiais em Lisboa
Em Lisboa, o Mosteiro dos Jerónimos assinala o dia com um concerto no refeitório, às 21h, marcado pela interpretação do Requiem de Fauré. O evento assinala também a estreia da Orquestra Nova Era, acompanhada pelo respetivo coro, sob direção de João de Almeida Barros. O programa inclui ainda Une prière pour Notre Dame de Paris, de Eoghan Desmond, numa versão para coro e orquestra apresentada em primeira audição.
Também na capital, o Palácio Nacional da Ajuda organiza três visitas orientadas este sábado. Tempestade, Guerra e Discórdia: Ecos Mitológicos no Património Vivo, dinamizada pelo professor André Ferreira às 10h30, explora a presença de divindades na pintura e nas artes decorativas do palácio. Às 11h30, Do Desenho ao Edifício percorre a evolução arquitetónica do edifício, incluindo “arquiteturas invisíveis” como o extradorso da Sala dos Embaixadores. Às 15h, Do Palácio ao Jardim cruza histórias da realeza com elementos da coleção botânica.
Memória, desastres e património local
Em Setúbal, a Câmara Municipal propõe um percurso pelo centro histórico inspirado em “Terramotos, ciclones, incêndios, cheias e tempestades”, cruzando o património edificado com o arquivo fotográfico de Américo Ribeiro. A atividade parte da Casa do Corpo Santo às 10h. No domingo, decorrem ainda uma oficina de animação em stop motion e a projeção do filme The Monuments Men – Os Caçadores de Tesouros, de George Clooney, seguida de conversa.
Em Tavira, o Museu Municipal garante entrada gratuita este sábado e promove uma visita ao laboratório de conservação e restauro, às 15h30, bem como a encenação Histórias Que os Objetos Nos Contam, às 17h, no Núcleo Islâmico. O programa inclui ainda os Passeios na História dedicados à azulejaria dos séculos XVII e XVIII e aos desastres que marcaram a história da cidade.
Num momento em que o património cultural enfrenta desafios acrescidos, o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios 2026 assume-se como um apelo à ação coletiva. Entre visitas, concertos, oficinas e percursos urbanos, o país celebra hoje não apenas os seus monumentos, mas a capacidade de os manter vivos perante conflitos, desastres e um futuro climático incerto.














