A Normandia assinala este sábado o 82º aniversário do Dia D, numa cerimónia que volta a homenagear os soldados aliados que desembarcaram nas praias francesas em 1944 e ajudaram a abrir caminho à derrota da Alemanha nazi.
A presença do secretário da Defesa americano, Pete Hegseth, confirmada pelo Pentágono, dá à comemoração uma leitura adicional: poucas semanas antes de uma cimeira da NATO marcada pela perspetiva de retirada militar dos Estados Unidos da Europa, a memória da libertação volta a cruzar-se com o debate sobre a segurança do continente.
Hegseth deverá participar nas cerimónias na Normandia e reunir-se com o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, e com a ministra das Forças Armadas, Catherine Vautrini. Segundo o Pentágono, a deslocação pretende honrar os sacrifícios dos soldados que combateram e morreram nas praias normandas para defender a liberdade na Europa perante a tirania.
O contraste entre passado e presente é inevitável. Em 1944, a invasão da Normandia marcou um dos maiores esforços militares aliados da II Guerra Mundial. Em 2026, a cerimónia decorre num contexto de incerteza estratégica, com os aliados europeus a prepararem uma cimeira da NATO sob a sombra de uma possível redução da presença militar americana no continente.
O desembarque que abriu caminho à libertação da Europa
A operação de 6 de junho de 1944, oficialmente conhecida como invasão da Normandia e designada pelos Aliados como Operação Neptuno, combinou forças navais, terrestres e aéreas para abrir uma frente na França ocupada pela Alemanha nazi.
Cerca de 160 mil militares atravessaram o Canal da Mancha em aproximadamente 7.000 embarcações e desembarcaram nas praias de Omaha, Utah, Juno, Sword e Gold. O objetivo era garantir uma cabeça de ponte em território francês e criar as condições para a libertação da Europa Ocidental.
A operação teve um custo humano pesado. Só nesse dia morreram 4.414 soldados aliados, incluindo mais de 2.500 americanos, e cerca de 5.000 ficaram feridos. Nos dias seguintes, o número de mortos em combate entre forças dos Estados Unidos, Reino Unido e Canadá subiu para 9.843.
As tropas alemãs estavam preparadas para a invasão, com posições fortificadas em pontos estratégicos, artilharia instalada em zonas elevadas e minas colocadas tanto nas águas como nas praias. Omaha, em particular, tornou-se símbolo da violência do desembarque e do preço pago pelos soldados aliados.
“Não temos o direito de os esquecer”
As cerimónias comemorativas já começaram na Normandia, incluindo um serviço memorial em Colville-Montgomery, perto de Sword Beach, uma das zonas de desembarque. De acordo com a ‘BFBS Forces News’, estiveram presentes dois veteranos sobreviventes da campanha, ambos centenários.
Um deles foi Ken Hay, que tinha 17 anos quando chegou a Juno Beach, cinco dias depois do assalto inicial. O veterano descreveu a presença nas cerimónias como um dever de memória. “Os companheiros que deixámos para trás — não temos o direito de voltar para casa e esquecê-los”, afirmou.
Ken Hay tem participado em várias comemorações e em encontros com estudantes, procurando ligar as gerações mais novas às histórias de quem viveu a guerra. Para o veterano, recordar o Dia D não é apenas revisitar a História, mas transmitir uma mensagem para o futuro: fazer algo, em qualquer área da vida, para impedir guerras.
Também presente esteve Henry Rice, que chegou ao largo de Juno Beach poucos dias depois do desembarque inicial. O veterano destacou a forma como é recebido nas cerimónias e agradeceu o reconhecimento das multidões, que aplaudem os poucos sobreviventes ainda capazes de regressar às praias da Normandia.
Uma cerimónia com peso histórico e leitura política
O 82º aniversário do Dia D será, por isso, mais do que uma cerimónia de evocação militar. A presença de Hegseth e dos responsáveis franceses surge num momento em que o papel dos Estados Unidos na defesa da Europa volta a estar no centro das discussões atlânticas.
A próxima cimeira da NATO será acompanhada com especial atenção precisamente por causa da possibilidade de uma retirada ou redução da presença militar americana na Europa. O tema dá nova atualidade à memória de 1944, quando a intervenção dos Aliados foi decisiva para libertar o continente do domínio nazi.
Na Normandia, a homenagem aos mortos mantém-se como eixo central. Mas, este sábado, a cerimónia também deverá servir de pano de fundo a uma pergunta mais ampla: até que ponto a aliança construída sobre as ruínas da Segunda Guerra Mundial continuará a sustentar a defesa europeia nas próximas décadas?







