Pouco passava das quatro da manhã quando dezenas de homens mascarados e armados apareceram nas ruas de Overasselt, uma pequena localidade no leste dos Países Baixos. Horas depois, havia um homem morto, dois polícias gravemente feridos e 34 pessoas detidas numa operação que se prolongou durante praticamente todo o dia.
A dimensão da violência levou o ministro neerlandês da Justiça e Segurança, David van Weel, a classificá-la esta quarta-feira como algo “sem precedentes” no país.
“Dezenas de jovens a percorrerem as ruas de uma vila e a abrirem imediatamente fogo contra a polícia é algo sem precedentes”, afirmou, citado pelo NL Times. O governante apontou para um possível ajuste de contas entre organizações criminosas internacionais ligadas ao tráfico de droga.
Tudo começou cerca das 04h00 de terça-feira, quando a polícia recebeu um alerta para uma situação suspeita numa residência na Ewijkseweg, em Overasselt, na província de Gelderland.
Quando os primeiros agentes chegaram, foram recebidos a tiro.
“Assim que a primeira viatura policial chegou ao local, começaram imediatamente os disparos”, explicou Jolanda Aalbers, responsável interina da polícia regional, numa conferência de imprensa.
Dois agentes foram atingidos. Colegas que seguiam noutra viatura tiveram de os retirar da zona enquanto continuavam debaixo de fogo.
Um deles chegou a estar em risco de vida e foi submetido a duas operações. Esta quarta-feira, ambos se encontravam em situação estável.
Um segurança morto e dezenas de tiros
No local, a polícia encontrou ainda um homem de 51 anos, natural de Wijchen, gravemente ferido. Acabaria por morrer.
Segundo informações recolhidas pelos meios de comunicação neerlandeses, tratava-se de um segurança contratado para vigiar a residência, que já tinha sido alvo de violência anteriormente. Vizinhos disseram ter ouvido cerca de 30 disparos durante a madrugada.
Imagens de videovigilância divulgadas pelo ‘De Telegraaf’ mostram cerca de 30 homens aparentemente armados a deslocarem-se pela zona. Outro vídeo parece mostrar uma execução junto a um automóvel, embora as autoridades não tenham confirmado se a vítima que aparece nessas imagens é o segurança morto. A NOS também advertiu inicialmente que não tinha conseguido verificar de forma independente todas as imagens.
Seguiu-se uma das maiores operações policiais realizadas recentemente na região.
Equipas fortemente armadas procuraram suspeitos em Overasselt e nas localidades vizinhas, incluindo num campo de milho entre Overasselt e Nederasselt. Houve detenções na estação ferroviária de Nijmegen, em estradas e autoestradas da região e noutros pontos.
Três suspeitos foram mesmo detidos descalços depois de terem sido vistos a fugir, numa detenção testemunhada por um repórter.
Ao fim de cerca de 13 horas, o número de detidos chegava aos 34.
Os suspeitos são provenientes dos Países Baixos, Bélgica, França e Argélia e estão a ser investigados por crimes que incluem homicídio, tentativa de homicídio, conspiração e preparação de rapto.
Uma casa que já tinha sido atacada
O endereço no centro do caso não era desconhecido das autoridades.
A mesma residência tinha sido atingida por dezenas de disparos num ataque ocorrido no ano passado. A autarquia já tinha ordenado por diversas vezes o encerramento temporário do imóvel por razões de segurança pública.
Monique Vinkesteijn, do Ministério Público neerlandês, afirmou que os primeiros elementos apontam para um “conflito de longa duração”.
Vários meios de comunicação neerlandeses relacionaram entretanto o episódio com o mundo do narcotráfico e, em particular, com Jos Leijdekkers, conhecido como “Bolle Jos”, um dos criminosos mais procurados dos Países Baixos. As autoridades, contudo, ainda não confirmaram publicamente que tenha qualquer envolvimento no ataque.
O ministro David van Weel também evitou identificar uma organização específica, mas admitiu que tudo aponta para um possível ajuste de contas criminoso e falou diretamente em organizações que ultrapassam as fronteiras neerlandesas.
“São cartéis de droga, a máfia. Operam para lá das nossas fronteiras”, afirmou.
A investigação continua esta quarta-feira, mas a situação no terreno melhorou. Pouco antes da meia-noite, a polícia levantou a recomendação que mantinha os habitantes de Overasselt dentro de casa, depois de concluir que já não existiam indícios de suspeitos escondidos na localidade. A noite decorreu sem novos incidentes.
A escala do episódio, porém, continua a causar impacto nos Países Baixos. O presidente da Câmara local, Joerie Minses, resumiu a reação da comunidade numa expressão difícil de traduzir literalmente: “Isto não é neerlandês.”














