Deu o alerta que salvou centenas de vidas no Nepal. Quando voltou para buscar a mãe, a água já a tinha levado

O aviso não chegou através de uma sirene. Nem de uma mensagem no telemóvel. Chegou através dos gritos de um homem que corria pelo mercado a dizer às pessoas que fugissem porque uma enorme massa de água estava a caminho

Francisco Laranjeira

O aviso não chegou através de uma sirene. Nem de uma mensagem no telemóvel. Chegou através dos gritos de um homem que corria pelo mercado a dizer às pessoas que fugissem porque uma enorme massa de água estava a caminho.

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“Só tínhamos três minutos para escapar.”

É assim que Libes Raj Shakya recorda à agência ‘EFE’ a manhã de 26 de agosto, quando uma inundação devastadora atingiu o centro do Nepal, arrastando casas, estradas e pontes. Uma semana depois da tragédia, o seu relato, reproduzido pelo ‘El Español’, revela como um aviso dado praticamente à última hora terá ajudado centenas de pessoas a escapar.

E conta também a história de quem deu esse alerta: Sazal Shrestha conseguiu avisar uma escola e percorreu o mercado a gritar para que todos fugissem. Depois salvou o pai e voltou para procurar a mãe.

Já não chegou a tempo.

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“A gritar a plenos pulmões”

Segundo o relato de Shakya, Shrestha, funcionário de uma escola, recebeu um telefonema de um familiar em Dhunche, no distrito de Rasuwa, avisando-o de que uma grande inundação avançava rio abaixo.

Não havia tempo a perder.

Shrestha alertou primeiro a escola e depois começou a correr pelo mercado.

“Estava a correr por todo o mercado a gritar a plenos pulmões para que todos saíssem e procurassem um lugar seguro”, recorda Shakya.

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Na Escola Secundária Tribhuvan Trishuli, em Bidur, encontravam-se naquele momento mais de 900 alunos e 16 funcionários.

O diretor, Rajendra Dawadi, conta que tiveram cerca de 14 minutos para retirar todos do edifício antes da chegada da água.

Conseguiram escapar.

A escola, não.

O edifício desapareceu e o terreno onde se encontrava faz agora parte do leito do rio.

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“A água já vinha atrás de nós”

Noutras zonas, a margem foi ainda mais curta.

Shakya conta que, quando os comerciantes começaram a fechar as lojas e a tentar fugir, a inundação já estava praticamente em cima deles.

“A água já vinha atrás de nós. Corremos para salvar as nossas vidas enquanto as águas da cheia nos perseguiam.”

A sua família conseguiu escapar, embora tenha perdido praticamente tudo.

“Milagrosamente, todos os membros da nossa família sobreviveram. Temos muita sorte por estarmos vivos.”

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Quase 680 mil mensagens de alerta

O testemunho levanta também questões sobre o funcionamento do sistema oficial de alerta.

De acordo com o relatório técnico da Divisão de Previsão de Inundações citado pelo ‘El Español’, por volta das 9h00 as autoridades souberam que uma grande inundação tinha entrado no rio Bhote Koshi a partir do Tibete.

As estações automáticas situadas a montante tinham deixado de transmitir dados sem que as últimas medições tivessem atingido os níveis definidos para disparar os alertas.

Às 9h15 começaram a ser emitidos avisos para as comunidades a jusante e, a partir das 9h16, as operadoras Nepal Telecom e Ncell enviaram 679.295 mensagens para residentes das zonas consideradas vulneráveis.

Mas Shakya garante que no seu bairro ninguém tinha recebido qualquer aviso antes de ouvir Shrestha.

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“Todas as notícias diziam que as pessoas tinham sido informadas com 30 minutos de antecedência e que o líder comunitário tinha ido de porta em porta”, conta.

“Mas no nosso bairro ninguém recebeu qualquer aviso oficial. Só soubemos através do Sazal Dai.”

Salvou o pai. Depois voltou pela mãe

Depois de avisar a escola e de correr pelo mercado, Shrestha tinha ainda a própria família para salvar.

Regressou a casa, onde estava o pai, que não conseguia andar. Colocou-o numa mota e conseguiu levá-lo para uma zona mais elevada.

Depois voltou.

Queria buscar a mãe.

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Quando chegou, a inundação já tinha destruído a casa e levado a mulher, que continuava desaparecida uma semana depois da tragédia.

“Ele salvou mães, estudantes e moradores”, resume Shakya.

“Mas não conseguiu salvar a própria mãe.”

Uma semana depois da inundação, o primeiro relatório da Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres apontava para mais de mil mortos e cerca de cinco mil desaparecidos.

Shakya perdeu praticamente tudo naquela manhã. Mas, quando recorda os três minutos que teve para fugir, regressa sempre à mesma ideia.

“Todos sobrevivemos.”

E repete:

“Temos sorte em estar vivos.”

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