Desigualdade agrícola: 1% das quintas operam 70% dos campos de cultivo do mundo

Apenas 1% das quintas operam 70% dos campos de cultivo, plantações e pomares de todo o mundo, de acordo com um relatório que destaca o impacto da desigualdade de terras nas crises climáticas e naturais.

Simone Silva

Apenas 1% das quintas operam 70% dos campos de cultivo, plantações e pomares de todo o mundo, de acordo com um relatório que destaca o impacto da desigualdade de terras nas crises climáticas e naturais, citado pelo ‘The Guardian’.

Desde a década de 1980, os investigadores descobriram que o controlo sobre a terra tornou-se muito mais concentrado tanto diretamente, através da propriedade, quanto indiretamente, través da agricultura sob contrato, o que resulta em monoculturas mais destrutivas e em cada vez menos pequenas propriedades cuidadosamente cultivadas.

Tendo em consideração o aumento do valor da propriedade e o crescimento das populações sem terra pela primeira vez, o relatório calcula que a desigualdade agrícola é 41% superior ao que se acreditava anteriormente. Os autores disseram que a tendência foi motivada por instrumentos financeiros de curto prazo, que moldam cada vez mais o meio ambiente global e a saúde humana.

«No passado, esses instrumentos preocupavam apenas os mercados, não nos afetavam individualmente. Mas agora afetam todos os aspetos das nossas vidas porque estão ligados à crise ambiental e à pandemia», disse Ward Anseeuw, especialista técnico sénior da Coligação Internacional de Terras, que liderou o estudo em conjunto com um grupo de parceiros, incluindo a Oxfam and the World Inequality Lab.

O estudo, publicado na terça-feira, é baseado em 17 novos trabalhos de investigação, bem como na análise de dados e literatura existentes, revelando que os cálculos anteriores de desigualdade de terras foram baseados exclusivamente na propriedade e no tamanho das quintas individuais.

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Com base nessa premissa, a desigualdade agrícola diminuiu até à década de 1980, após a qual se tornou mais ampla. Essa tendência é mais pronunciada com a nova metodologia, que tem em consideração fatores adicionais, como a propriedade múltipla, a qualidade e o valor da terra e a falta da mesma.

A Ásia e a África têm os níveis mais altos de pequenas propriedades, onde a contribuição humana tende a ser maior do que os fatores químicos e mecânicos. Em todo o mundo, entre 80% e 90% das quintas são familiares ou propriedade de pequenos agricultores. Contudo, estas cobrem apenas uma pequena e cada vez menor parte da terra e da produção comercial.

Nas últimas quatro décadas, a maior mudança verificou-se nos Estados Unidos e na Europa, onde a propriedade está em menos mãos e até agricultores individuais trabalham sob contratos restritos para comerciantes, conglomerados comerciais e fundos de investimento.

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Ward disse que esses acordos financeiros estão agora a espalhar-se para o mundo em desenvolvimento, o que está a fazer acelerar o declínio da qualidade do solo, o uso excessivo dos recursos hídricos e o ritmo da desflorestação.

«A concentração de propriedade e controlo resulta num maior impulso para monoculturas e agricultura mais intensiva, uma vez que os fundos de investimento tendem a trabalhar em ciclos de 10 anos para gerar retorno», afirmou o especialista citado pelo ‘The Guardian’. A questão também está relacionada com problemas sociais, incluindo pobreza, migração, conflito e propagação de doenças como a Covid-19.

Para resolver o problema, o relatório recomenda uma maior regulamentação e supervisão dos sistemas de propriedade da terra, uma mudança nos regimes fiscais para apoiar os pequenos proprietários, uma melhor gestão ambiental, e um grande apoio aos direitos fundiários das comunidades.

«Os pequenos agricultores, agricultores familiares, indígenas e pequenas comunidades são muito mais cautelosos com o uso da terra. Não se trata apenas de retorno sobre o investimento; é sobre cultura, identidade e deixar algo para a próxima geração. Eles têm muito mais cuidado e a longo prazo, produzem mais por unidade de área e destroem menos», refere Ward.

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