O Japão tomou uma decisão histórica ao autorizar, pela primeira vez desde o fim da II Guerra Mundial, a exportação de armas letais. A mudança marca uma rutura profunda com o pacifismo que definiu o país durante décadas e coloca Tóquio no caminho para se tornar um dos grandes fabricantes globais de armamento.
De acordo com o ‘El País’, a decisão foi aprovada esta terça-feira pelo Governo da primeira-ministra Sanae Takaichi, líder ultraconservadora que chegou ao poder defendendo um Japão militarmente mais robusto.
Segundo a publicação espanhola, Takaichi justificou a mudança com um “ambiente de segurança cada vez mais severo”, numa referência ao agravamento das tensões na Ásia e ao cenário internacional cada vez mais instável.
O que muda agora
Até aqui, o regime japonês limitava fortemente as exportações de material militar. Desde 2014, apenas eram permitidos produtos não letais destinados a missões como resgate, vigilância ou desminagem. Antes disso, vigorava um embargo praticamente total.
Com as novas regras, empresas japonesas poderão exportar quase todo o tipo de equipamento militar, desde que os compradores cumpram critérios rigorosos e não estejam envolvidos em conflitos armados.
Na prática, isso abre portas à venda de mísseis, caças, navios de guerra e outros sistemas avançados para países aliados.
China reage com preocupação
A decisão surge num momento de forte tensão entre Tóquio e Pequim. O ‘El País’ refere que a China manifestou de imediato preocupação com o novo rumo japonês.
“A China está seriamente preocupada”, afirmou Guo Jiakun, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês.
Pequim acusa o Japão de seguir uma política expansionista e militarista, evocando memórias dolorosas da primeira metade do século XX.
Japão nega abandono do pacifismo
Apesar da polémica, Sanae Takaichi garante que o país não abandonou os seus princípios fundamentais.
“Não houve absolutamente nenhuma mudança no nosso compromisso de manter o caminho que percorremos como nação pacífica durante mais de 80 anos”, declarou a governante nas redes sociais.
Segundo o ‘El País’, a primeira-ministra argumenta que o objetivo passa por reforçar capacidades de autodefesa próprias e de países parceiros, contribuindo assim para prevenir conflitos.
Mitsubishi e Kawasaki podem ganhar novo peso global
A decisão tem também enorme impacto económico. O Japão possui gigantes industriais capazes de competir no mercado mundial da defesa, como Mitsubishi e Kawasaki.
O ‘El País’ destaca que estas empresas poderão tornar-se fornecedoras relevantes de mísseis, aeronaves e navios de guerra para aliados do G7 e países do Sudeste Asiático e Pacífico.
Ainda antes da mudança formal, o Japão assinou um contrato com a Austrália para fornecer três fragatas Mitsubishi e construir outras oito em conjunto.
Protestos nas ruas e oposição popular
A viragem não reúne consenso interno. No fim de semana, cerca de 36 mil pessoas manifestaram-se em Tóquio junto ao Parlamento com o lema: “Não à guerra! Não mudem a Constituição!”
Uma sondagem do Asahi Shimbun, citada pelo ‘El País’, mostra que 67% dos inquiridos se opõem à exportação de armas e 75% defendem a manutenção dos princípios antinucleares japoneses.
Novo Japão?
A decisão sobre exportações surge integrada num movimento mais vasto do Governo de Takaichi: aumento recorde do orçamento de defesa, intenção de rever limitações constitucionais antimilitaristas e debate sobre os chamados “três nãos” nucleares.
Num mundo marcado pela guerra na Ucrânia, tensões no Médio Oriente e rivalidade entre China e Estados Unidos, o Japão parece preparar-se para abandonar parte do modelo do pós-guerra e assumir um papel militar mais assertivo.









