(Des)confiança: Opinião de Luís Salvado, Chairman da Novabase

Um dos mais importantes relatórios globais que mede a confiança das pessoas na sociedade revela-nos, na sua última edição, conclusões alarmantes.

Estou a referir-me ao Edelman Trust Barometer, editado logo no início de 2020, bem antes de sabermos da pandemia e dos seus efeitos. Estes resultados são ainda mais paradoxais se nos lembrarmos que, à data, vivíamos num crescimento económico pujante com quase pleno emprego e que, nas últimas duas décadas, foram retiradas da pobreza mais de mil milhões de pessoas.

A confiança é um elemento fundamental para o bom funcionamento de qualquer sociedade. Sem ela todos os tipos de relacionamentos, sejam entre pessoas, empresas ou organizações ficam seriamente limitados ou até comprometidos. É através dela que, alavancando no poder colectivo, conseguimos ser mais do que a soma das partes. E não é só para o presente que a confiança é capital, ela é igualmente valiosa para a construção de um futuro melhor para todos, ao criar as condições certas para que ele possa acontecer.

Na metodologia utilizada pelo estudo da Edelman, a confiança resulta da soma de duas componentes: competência e ética (quadro “Dimensões da Confiança”). A competência é definida como “ser-se bom no que se faz” e a ética como “ser honesto, justo e apoiar boas causas”. Os inquéritos revelam que, no julgamento das pessoas, a ética pesa cerca de três vezes mais do que a competência para a determinação da confiança. O que é mais surpreendente é que nenhuma das entidades em análise – Governos, Empresas, Media e Organizações Não Governamentais (ONG) – é vista, simultaneamente, como competente e ética. A única entidade avaliada como competente são as Empresas e a única como ética são as ONG.

Os Governos e os Media são percebidos como incompetentes e não éticos (leia-se desonestos, injustos e não apoiantes de boas causas) e todas as entidades são avaliadas como injustas.

Um conjunto diverso de factores concorre para a desconfiança, entre os quais o crescente medo de perder o emprego ou “ser deixado para trás”. A economia dos freelancers (gig economy), a imprevisibilidade das recessões, a inadaptação aos postos de trabalho do futuro por falta de formação adequada, a automatização dos serviços e a ameaça aos empregos pela imigração e globalização, são algumas das tendências que fundamentam estes receios.

Outro fenómeno fortemente potenciador da desconfiança é a actual desinformação (fake news). A maioria dos participantes não acredita na informação que recebe e pensa que a mesma é manipulada a favor de interesses de terceiros. Segundo o barómetro, o público informado – definido como os detentores de grau académico com rendimentos no quartil superior e consumidores habituais de notícias sobre política e negócios – exibe níveis de confiança muito superiores ao público desinformado, como é classificada grande parte da população. Uma conclusão surpreendente é que o nível de desigualdade – a diferença entre os mais ricos e os mais pobres – mina mais a confiança do que a estagnação ou o fraco crescimento económico, significando isto que as pessoas aceitam melhor viver com menos desde que seja bem distribuído.

Tudo isto contribui para que a maioria dos inquiridos acredite que o capitalismo é mais nocivo do que benéfico e que as actuais lideranças não são capazes de enfrentar os desafios que temos pela frente. Talvez isso explique os movimentos inorgânicos de denúncia ou protesto que têm surgido nas mais variadas áreas, desde os coletes amarelos ao #MeToo, passando pelos Black Lives Matter. Mais perturbante é a emergência dos populismos, como resposta à não representatividade sentida por cada vez mais cidadãos. É aqui que os líderes empresariais podem ter um papel importante a desempenhar, dado que aparecem melhor posicionados face às restantes lideranças – religiosas, políticas e elites (quadro “Quanto confia nestas pessoas para fazer o que é certo?”). Por isso, segundo este relatório, as pessoas esperam que os CEO se exponham e sejam proactivamente os protagonistas da mudança, nomeadamente propondo soluções para endereçar as questões associadas aos receios atrás referidos.

Resta interrogar-nos por onde andarão os níveis de confiança no pós-pandemia. Se for verdade o ditado que diz que ela “demora anos a construir, perde-se em segundos e demora uma eternidade a reparar” então teremos um longo caminho pela frente…

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 178 de Janeiro de 2021

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