Descoberto túmulo de 4.000 anos do “guardião dos segredos do rei”: tinha um “portal para o além”

Descoberta ocorreu na necrópole de Bubasteion, em Saqqara, um dos mais importantes sítios arqueológicos do Egito

Francisco Laranjeira

Durante cerca de quatro milénios, permaneceu enterrado numa das maiores necrópoles do Antigo Egito. Sabemos agora que quem ali foi sepultado não era um homem qualquer: tinha acesso ao círculo mais reservado do faraó e ostentava um título particularmente intrigante.

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Era o “guardião dos segredos do rei”.

Arqueólogos descobriram em Saqqara o túmulo de Sakhnetio-Btah, um alto funcionário que viveu durante o Império Antigo e desempenhou algumas das funções mais prestigiadas da administração egípcia.

E dentro do complexo funerário encontraram algo igualmente fascinante: uma “porta falsa” que, para os antigos egípcios, representava uma passagem entre o mundo dos vivos e o reino dos mortos.

Segundo o ‘Daily Mail’, a descoberta ocorreu na necrópole de Bubasteion, em Saqqara, um dos mais importantes sítios arqueológicos do Egito.

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Foram os hieróglifos encontrados no local que permitiram identificar o proprietário do túmulo e reconstruir parte da extraordinária posição que ocupava junto do poder.

O homem que guardava os segredos do rei

Entre os títulos inscritos nas paredes encontra-se aquele que mais chamou a atenção dos investigadores: “guardião dos segredos reais”.

A designação pode sugerir tesouros escondidos, conspirações palacianas ou mistérios religiosos, mas a explicação mais provável é bastante mais concreta.

Os especialistas acreditam que Sakhnetio-Btah seria um alto funcionário encarregado de documentos e decretos confidenciais do faraó.

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Isso significava que estava suficientemente próximo do centro do poder para ter acesso a informação reservada da monarquia.

Mas essa não era a sua única função.

As inscrições indicam que foi também camareiro real, sacerdote da deusa Maat e supervisor da biblioteca real.

O Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito considera que o conjunto de títulos demonstra a elevada posição que ocupava no sistema administrativo do Império Antigo.

Quatro mil anos depois, foram precisamente essas inscrições que permitiram devolver-lhe um nome.

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Uma porta que não levava a nenhuma divisão

O túmulo conserva restos de uma capela funerária e aquilo que os arqueólogos designam como uma “porta falsa”.

Fisicamente, não conduzia a lado nenhum. Espiritualmente, porém, o significado era muito diferente.

Para os antigos egípcios, estas estruturas funcionavam simbolicamente como um limiar entre o mundo dos vivos e o dos mortos, permitindo ao espírito do falecido estabelecer uma ligação com aqueles que permaneciam neste mundo e receber as oferendas que lhe eram destinadas.

Por isso, aquilo que aos olhos modernos parece apenas uma porta esculpida numa parede representava uma passagem para o além.

E não foi o único elemento do ritual funerário que sobreviveu.

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Os objetos continuavam onde tinham sido deixados

Os arqueólogos encontraram uma mesa de oferendas, uma placa utilizada para oferendas e uma bacia de purificação. O facto de alguns destes objetos terem sido encontrados nas suas posições originais torna a descoberta especialmente valiosa.

Permite aos investigadores observar de forma muito mais direta como eram organizados os rituais funerários durante o Império Antigo, em vez de tentarem reconstruí-los apenas a partir de peças retiradas do seu contexto.

As escavações revelaram ainda uma rede interligada de poços funerários em torno do túmulo.

No interior surgiram numerosos enterramentos humanos e grandes quantidades de cartonagem funerária pintada, material semelhante a papier-mâché utilizado para revestir múmias e frequentemente decorado com divindades, hieróglifos e imagens destinadas a proteger os mortos na viagem para o além.

Mais de 100 figuras para trabalhar no outro mundo

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Entre os achados estão ainda mais de uma centena de pequenas figuras ushabti. Para os antigos egípcios, estas figuras tinham uma função muito concreta: deveriam servir o falecido no além, realizando em seu lugar os trabalhos que lhe fossem exigidos.

Mas algumas das descobertas mais impressionantes encontravam-se fechadas.

Os arqueólogos localizaram três sarcófagos de pedra selados e intactos, ainda nas posições originais.

Foi também recuperada uma estátua de madeira representando um falcão, além de numerosos recipientes de cerâmica e outros artefactos funerários.

Nem tudo, porém, conseguiu escapar aos ladrões.

As primeiras investigações indicam que algumas zonas do complexo foram saqueadas ainda na Antiguidade. Apesar disso, muitos dos objetos que permaneceram no local encontram-se num estado de conservação considerado notável.

E o túmulo teve mais do que uma vida

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A rede de sepulturas e a diversidade dos materiais encontrados deverão agora ajudar os arqueólogos a perceber como aquela área foi reutilizada durante diferentes períodos da história egípcia.

É uma característica que torna Saqqara particularmente extraordinária.

A enorme necrópole foi utilizada durante milhares de anos e alberga túmulos de faraós, nobres, sacerdotes e altos funcionários pertencentes a diferentes dinastias.

É também ali que se encontra a Pirâmide de Degraus de Djoser, construída há cerca de 4.700 anos e considerada a pirâmide mais antiga do Egito.

Nos últimos anos, as escavações em Saqqara revelaram dezenas de caixões selados, cemitérios de animais, oficinas de mumificação e poços funerários repletos de estátuas e artefactos.

Cada descoberta acrescenta uma nova peça ao conhecimento sobre a religião, a administração e a vida quotidiana no Antigo Egito.

Desta vez, porém, o passado devolveu aos arqueólogos alguém que, em vida, tinha como função guardar aquilo que os outros não deveriam conhecer.

Quatro mil anos depois, os segredos do “guardião dos segredos do rei” começam finalmente a sair do túmulo.

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