Desastre nuclear nunca esteve tão próximo de se repetir: explosão em Chernobyl foi há 37 anos

Atualmente o maior perigo está a cerca de 1.372 quilómetros de distância, nas margens do rio Dnieper, onde os soldados russos ocupam a central nuclear de Zaporizhia, a maior da Europa, enquanto esperam a contraofensiva de Kiev

Francisco Laranjeira

Comemora-se esta quarta-feira o 37º aniversário da explosão do reator número 4 da central nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, um desastre que ainda paira na memória coletiva da Ucrânia e do mundo: oficialmente, causou 31 mortos mas terá sido responsável por milhares mais. A explosão e subsequente incêndio espalharam material radioativo por cerca de 200 mil quilómetros quadrados, principalmente na Ucrânia, Bielorrússia e Rússia. ´

Quase quatro décadas volvidas, a Ucrânia enfrenta a ameaça de uma nova catástrofe nuclear.

A zona de Chernobyl esteve em particular destaque aquando da invasão das tropas do Kremlin da Ucrânia, que ocupam atualmente 20% do país. No entanto, atualmente o maior perigo está a cerca de 1.372 quilómetros de distância, nas margens do rio Dnieper, onde os soldados russos ocupam a central nuclear de Zaporizhia, a maior da Europa, enquanto esperam a contraofensiva de Kiev.

Zaporizhia tem sido um ponto crítico desde que as tropas russas invadiram a central nuclear em março de 2022, 8 dias depois do início da invasão. Nos últimos 14 meses, as instalações foram alvo de tiros, bombardeamentos e ataques de drones. Diversos filmes e fotos mostraram equipamentos militares russos colocados perto de equipamentos nucleares sensíveis.

Rafael Mariano Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica, garantiu, esta semana, que está “profundamente preocupado com a situação na central”. “Vi indícios claros de preparativos militares na área quando visitei Zaporizhia [ZNPP] há pouco mais de três semanas”, sublinhou o responsável. “Desde então, os nossos especialistas no local relataram com frequência detonações, às vezes bombardeamentos intensos não muito longe do local.”

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No entanto, o ZNPP não está desprotegido, segundo garantiu Leon Cizelj, presidente da Sociedade Nuclear Europeia, que, em declarações ao jornal ‘POLITICO’, frisou que os reatores vitais são protegidos por até 10 metros de betão, uma barreira que a artilharia ou armas pequenas não são capazes de romper. Mas um ataque num local de armazenamento de combustível ou nos sistemas de arrefecimento da central podem causar um desastre – o material radioativo pode viajar entre 15 e 50 quilómetros ao redor da central, o que não significa um desastre para o continente europeu mas pode devastar o local.

“Enquanto houver soldados armados numa instalação nuclear, enquanto parte do deu território estiver minado, enquanto o pessoal que executa uma das tarefas mais importantes na operação de uma instalação nuclear estiver sob pressão, quem pode garantir a segurança nessas condições? Acho que ninguém”, reconheceu Dmytro Orlov, autarca da cidade ocupada de Enerhodar, localizada ao lado da central nuclear.

Já houve vários relatos de trabalhadores da fábrica a serem forçados a trabalhar, torturados ou desaparecidos depois da ocupação das tropas russas – a fábrica está a ser administrada pela empresa estatal Rosatom, embora a força de trabalho seja principalmente constituída por ucranianos.

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“Todos os dias, os trabalhadores são cercados por soldados armados”, relatou Orlov. “Na zona da ZNPP estão localizadas armas pesadas. O perímetro da central foi minado. Ultimamente a situação não melhorou, muito pelo contrário. Os ocupantes apenas aumentaram a sua presença na central nuclear.”

“Os funcionários da ZNPP são forçados a assinar contratos com a Rosatom. Fazem isso não apenas através da persuasão e ofertas de crescimento na carreira, mas também pela força e tortura, em condições de constante pressão física e psicológica, para prevenir a ocorrência de situações anormais e de emergência”, denunciou.

Não é fácil ver um benefício para qualquer um dos lados de um acidente nuclear grave, embora tanto Moscovo como Kiev estejam a tentar aproveitar as preocupações sobre um potencial incidente para melhorar as suas posições políticas e militares. “Os russos não iriam explodir a central”, sublinhou Oleg Ignatov, analista sénior do grupo de reflexão para a Rússia à revista ‘Newsweek’. “Não faz sentido para eles porque prejudicaria toda a região, incluindo a Crimeia. As consequências seriam muito graves.”

O sul da Ucrânia foi apontado como um dos locais mais prováveis ​​para a contraofensiva ucraniana. Se as tropas de Kiev conseguirem cortar o corredor terrestre que vai do sul até as fronteiras do sudoeste da Rússia, a estratégica península da Crimeia ficará isolada. E isso implica os russos desistirem da ZNPP.

“A única maneira de proteger o ZNPP é desocupar Enerhodar, libertar completamente a central nuclear da presença dos militares russos, permitir que o pessoal volte aos seus locais de trabalho e trabalhe em condições aceitáveis. E o segundo passo é estabelecer uma zona segura sobre a cidade”, apontou Orlov.

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No entanto, nada pode ser dada como certo, refletiu Oleksandr Merezhko, membro do Parlamento ucraniano. “Tudo é possível e podemos esperar qualquer provocação da Rússia”, acrescentando que a pressão internacional pode dissuadir Moscovo. “A Rússia já utilizou chantagem nuclear. Devemos estar preparados para qualquer cenário.”

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