‘Desastre geológico’ com 40 mil km tem alguns dos maiores terramotos… e vulcões do mundo: e se o ‘Anel de Fogo’ entrasse em erupção?

A região é suscetível a desastres porque alberga um grande número de “zonas de subducção”, áreas onde as placas tectónicas se sobrepõem. Ora, o que aconteceria se sucedesse um sismo que fizesse desencadear erupções vulcânicas ao longo do ‘Anel de Fogo’?

Francisco Laranjeira
Agosto 10, 2025
17:30

No final de julho, a Rússia foi abalada por uma dos maiores sismos de que há registo – entrou diretamente para o top 10 dos maiores abalos desde que há registos, depois de ter atingido uma magnitude de 8.8 na escala de Richter. Uma das consequência do terramoto foi ter ‘despertado’ a erupção do vulcão Klyuchevskoy. O maior vulcão ativo do Hemisfério Norte, situado na península de Kamchatka – frequentemente chamada de “terra do fogo e do gelo” -, integra uma das regiões vulcânicas mais sismicamente ativas do mundo, de acordo com o Observatório Terrestre da NASA.

A região sísmica é conhecida como o ‘Anel de Fogo’, uma zona de ‘desastre geológico’ em forma de ferradura e um foco de atividade tectónica e vulcânica. Estende-se ao longo da costa do Oceano Pacífico, onde a Placa do Pacífico colide com outras placas que formam a crosta terrestre. Vai da Nova Zelândia ao Chile, passando pelas costas da Ásia e das Américas no caminho. No total, o circuito forma uma zona de 40.000 km de extensão, propensa a sismos e erupções frequentes.

A região é suscetível a desastres porque alberga um grande número de “zonas de subducção”, áreas onde as placas tectónicas se sobrepõem. Ora, o que aconteceria se sucedesse um sismo que fizesse desencadear erupções vulcânicas ao longo do ‘Anel de Fogo’?

Embora seja quase impossível na realidade, se toda esta cadeia vulcânica entrasse em erupção de uma só vez, os resultados seriam completamente cataclísmicos. O ‘Anel de Fogo’ alberga mais de 425 vulcões, representando 75% de todos os sítios vulcânicos ativos da Terra – e 90% de toda a atividade sísmica do planeta. Isto inclui alguns dos maiores vulcões do mundo, como o Monte Santa Helena, nos EUA, o Monte Fuji, no Japão, e o Krakatoa, no Estreito de Sunda.

Valentin Troll, vulcanologista da Universidade de Upsala, explicou ao tabloide britânico ‘Daily Mail’ que os impactos destas erupções combinadas variam entre “a queda local de cinzas e problemas de infraestruturas associados a problemas de tráfego aéreo e problemas climáticos a longo prazo devido a grandes quantidades de partículas libertadas para a atmosfera”.

“Se isto acontecer, o que não é muito provável neste momento, poderá assumir a forma de um inverno vulcânico durante vários anos após as erupções”, referiu.

Embora sejam necessárias mais provas, alguns especialistas acreditam que isso já pode ter acontecido após o terramoto russo. Dados do Serviço Geológico dos EUA (USGS) mostraram que o sismo ocorreu a cerca de 135 km a leste-sudeste de Kamchatska, na Rússia, por volta das 19h24 EST (00h24 em Lisboa), marcando o sexto sismo mais forte da história.

Pouco depois, os observadores notaram atividade explosiva e fluxos de lava a descer pelas encostas ocidentais do vulcão Klyuchevskoy, em Kamchatka. Localizado a aproximadamente 450 quilómetros a norte da capital regional, Petropavlovsk-Kamchatsky, o Klyuchevskaya Sopka é um dos vulcões mais altos do mundo, com 4.774 metros de altura na região de Kamchatka, na Rússia.

O que aconteceria se todos os vulcões do ‘Anel de Fogo’ entrassem em erupção ao mesmo tempo?

Esta ideia levanta a preocupante possibilidade de que um evento sísmico suficientemente grande poderia libertar energia suficiente para desestabilizar câmaras de magma ao longo do ‘Anel de Fogo’. Se tal acontecesse, os resultados seriam desastrosos tanto para aqueles que se encontravam nas imediações de um vulcão como para todo o mundo.

As erupções vulcânicas são classificadas de acordo com o Índice de Explosividade Vulcânica (IVE), em que um IVE de 1 resulta em 10.000 metros cúbicos de material libertado para o ar. Cada número sucessivo corresponde a 10 vezes mais material ejetado da explosão.

A maior erupção já registada, com um IVE de 7, foi a do Monte Tambora em 1815, que ejetou 160 quilómetros cúbicos de material para a atmosfera com uma explosão que foi ouvida a mais de 2.600 km de distância. Nos últimos 10 mil anos, ocorreram apenas 13 erupções com um IVE de sete; 11 delas ocorreram no ‘Anel de Fogo’.

Se o ‘Anel de Fogo’ entrasse em erupção, as pessoas em todo o mundo seriam atingidas pelas erupções: qualquer pessoa que viva perto destas erupções corre o risco de queda de rochas, gases tóxicos, deslizamentos de terra mortais e fluxos piroclásticos muito quentes. Como o ‘Anel de Fogo’ passa por 15 países, estas erupções seriam, sem dúvida, enormemente destrutivas a nível local.

No entanto, os impactos mais duradouros e perigosos sentir-se-iam à escala global. Quando os vulcões entram em erupção, injetam enormes quantidades de enxofre e poeira na atmosfera superior, o que pode bloquear o sol durante anos após a explosão inicial – após a erupção do Monte Tambora, as temperaturas no hemisfério norte desceram 0,5°C, levando ao “ano sem verão”.

No caso do ‘Anel de Fogo’, “esperaria dois a cinco anos de efeitos secundários, com reduções médias de temperatura de possivelmente até 1°C”, apontou Valentin Troll. Os verões seriam húmidos e frios, e as culturas não cresceriam bem durante alguns anos. No entanto, este não seria o pior desastre climático que o mundo já enfrentou e provavelmente não seria um evento de extinção.

Jonathan Paul, cientista da Terra na Royal Holloway, Universidade de Londres, salientou que “se – e é um grande se – todos os vulcões em redor do ‘Anel de Fogo’ entrassem em erupção simultaneamente, as cinzas resultantes ainda não seriam capazes de induzir um inverno global”. “Para comparação, o inverno global de há cerca de 65 milhões de anos, que exterminou os dinossauros, foi o resultado da queda de um meteorito que libertou triliões de vezes a quantidade de energia que cada vulcão do ‘Anel de Fogo’ libertaria em erupção.”

É provável que isso aconteça?

Felizmente, não há quase nenhuma hipótese de que isso aconteça na realidade. Em parte, isto deve-se ao facto de que teria de ser um terramoto de uma escala absolutamente apocalítica para desencadear erupções em todo o ‘Anel de Fogo’. “O ‘Anel de Fogo’ é absolutamente enorme, enquanto os efeitos imediatos de um sismo são bastante localizados, num raio de cerca de 100 km”, apontou Paul, lembrando que no último século ocorreram três ou quatro sismos desta magnitude, mas só ocasionalmente afetaram vulcões muito próximos da fonte.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.